O Presidente da República, João Lourenço, atribuiu uma das mais altas condecorações outorgadas pelo Executivo (Medalha de Bravura e do Mérito Cívico e Social, 1.ª Classe) a Bonga, colocando-o a par de personalidades políticas, culturais, militares e socais (sobretudo do MPLA), de um leque em que se destacam, ainda, Viriato Clemente Francisco da Cruz, a título póstumo, com a Ordem da Independência, 1.º Grau, e Liceu Vieira Dias (fundador do agrupamento N’gola Ritmos), também a título póstumo, com a Ordem do Mérito Civil, 1.º Grau.

Por Orlando Castro

Até os que nunca quiseram saber quem era Bonga, estão agora rendidos. Rendidos não ao Bonga mas à bajulação que é obrigatória a quem é dono disto tudo. “Quarenta e seis anos dedicados à divulgação, valorização e defesa do país além-fronteiras, por meio da sua criação artística, valeram ao músico Barceló de Carvalho (Bonga) a Medalha de Bravura e do Mérito Cívico e Social, 1.ª Classe, outorgada no âmbito do 43º aniversário da independência nacional”, escreve a agência de notícias do regime, a Angop.

E acrescenta, agora que recebeu ordens para isso: “Dono de uma rica e vasta discografia, Bonga é dos poucos criadores angolanos que, ao longo da sua vida e carreira artística, mesmo com muitos altos e baixos pelo meio, tem dado o melhor de si em prol da angolanidade, usando como arma a voz e a música para levar aos quatro cantos do mundo o nome de Angola e dos angolanos”.

Recorda a Angop que o artista foi “banido no país e exaltado no estrangeiro durante longos anos (tendo sido condecorado pelo governo francês, em 2014, com a insígnia de Cavaleiro na Ordem das Artes e Letras), Bonga, considerado por críticos como sendo o porta-bandeira do semba, ritmo de dança e música tipicamente angolano, recebe, do seu Governo, o devido reconhecimento nunca antes dado ao seu trabalho”.

E, claro, com tantos panegíricos merecidos mas hipócritas por revelaram apenas uma operação de marketing por parte do Governo de João Lourenço, Bonga parou de lutar, parou de pôr em prática aquela que era uma das suas maiores máximas: o melhor predicado de um Homem de bem é dizer o que pensa ser a verdade.

Assim, com uma medalha (condecoração) João Lourenço “comprou” mais uma fidelidade, mais um apoio para a sua causa populista. Bonga (como outros) não percebeu que a condecoração é uma forma de cegueira. A partir de agora ele deixará de ver que Angola tem 20 milhões de pobres, que é um dos países mais corruptos do mundo, que tem criminosos índices de mortalidade infantil.

“Os mais inconvenientes na minha terra são os doutores, engenheiros, advogados, porque são imitadores da cultura do outro, e isso é triste. E são incapazes de ter uma conversa com a mãe que é lavadeira, com o pai que é analfabeto, têm vergonha porque são complexados, e estão sempre com a gravata”.

Quem disse isto? Quem teve coragem de afirmar tão lapidar análise da sociedade elitista de Angola, quase toda do MPLA? Pois é. Foi Bonga em entrevista ao português Diário de Notícias, em 29 de Agosto de 2018.

É claro que com a Medalha de Bravura e do Mérito Cívico e Social, 1.ª Classe, ao peito, Bonga irá constatar que em Angola já não existem “doutores, engenheiros, advogados (…) que são imitadores da cultura do outro, e são incapazes de ter uma conversa com a mãe que é lavadeira, com o pai que é analfabeto, que têm vergonha porque são complexados, e estão sempre com a gravata”.

Continuemos a recordar as palavras de Bonga de Agosto deste ano: “Quarenta graus à sombra e ele está com uma gravata quase a sufocar e um casaco que veio de Londres, e as falas idênticas a qualquer telejornal em Portugal. Que vergonha! Esse tipo de indivíduos é prejudicial à nossa coesão artística, social, psicológica. E são eles que são os professores, os generais, os ministros. Onde é que a gente vai parar? Esse é que é o grande recado do Bonga”.

E o recado (candidatura) de Bonga foi bem escutado por João Lourenço. Era chegada a altura de, a propósito dos 43 anos de liderança do MPLA (independência é outra coisa), premiar o artista e dar mais uma botija de oxigénio (não o produzido por António Manuel Luvualu de Carvalho) à popularidade e ao populismo de João Lourenço que estavam, como o kwanza, em queda acelerada.

E porque cada um tem direito a ser o que os outros querem que ele seja, e porque nem todos têm capacidade para nunca deixarem de lutar, acreditamos que a Medalha de Bravura e do Mérito Cívico e Social, 1.ª Classe, ficará muito bem na montra de troféus do Bonga.