A agência de notação financeira Moody’s alertou hoje que Angola está entre os países da África subsaariana que estão mais vulneráveis à perda de controlo dos activos estratégicos quando negoceiam uma reestruturação da dívida com a China.

“O s países ricos em recursos naturais, como Angola, Zâmbia e a República Democrática do Congo [RDC], ou com infra-estruturas estrategicamente importantes, como portos ou caminhos de ferra no Quénia, são os mais vulneráveis ao risco de perderem o controlo de importantes activos em negociações com os credores chineses”, lê-se numa análise desta agência de ‘rating’.

No documento, enviado aos investidores, os analistas da Moody’s escrevem que “mesmo que a reestruturação alivie as pressões de liquidez, a perda de receitas dos recursos naturais é negativa do ponto de vista da análise do crédito”.

Angola, continuam, é o país que mais recebeu investimento externo da China entre 2002 e 2017, recebendo 30% de todos os investimentos do gigante asiático no continente africano, e mesmo relacionando o investimento com o tamanho das economias africanas, Angola continua a figurar no pódio dos principais receptores de investimento chinês.

“Mais de metade da dívida externa de Angola é devida à China, já que a China providenciou extensos empréstimos desde o final da guerra civil angolana, em 2002”, diz a Moody’s, apontando que “em Angola o rácio entre os juros [dos empréstimos] e as receitas vai exceder os 20% neste e no próximo ano”, o que significa que mais de 1 em cada 5 kwanzas de receitas fiscais vai directamente para o pagamentos de juros dos empréstimos.

De acordo com o Governo de Angola, a dívida total do país ronda os 70 mil milhões de dólares, divida entre 60% externa e 40% interna, sendo cerca de 23 mil milhões de dólares devidos à China; o Fundo Monetário Internacional (FMI), por seu turno, coloca o rácio da dívida pública face ao PIB nos 80%, este ano.

No relatório, com o título “Empréstimos da China sustentam crescimento, exacerbam as pressões orçamentais e externas na África subsaariana”, os analistas desta agência de ‘rating’, que coloca a qualidade da dívida soberana de Angola abaixo da recomendação de investimento (‘lixo’, como é normalmente referida), reconhecem que os empréstimos são importantes para alavancar a construção de infra-estruturas necessárias ao desenvolvimento da maioria dos países desta região.

No entanto, e mesmo vincando que Angola é um dos países que o Banco Mundial diz que mais precisa de investimentos estruturantes, alertam que as grandes quantias em termos de pagamento de dívida a partir de 2022 vão contribuir para níveis de dívida mais elevados que na primeira metade desta década, o que se agrava num contexto de depreciação das moedas, como é o caso de Angola, cujo kwanza caiu mais de 50% face ao dólar desde o início do ano.

“Angola, Zâmbia e RD Congo estão entre os países mais endividados junto dos credores chineses”, nota a Moody’s, alertando que “para países com bases de exportação muito limitadas, ou que dependem de uma só matéria-prima, como Angola, o aumento da dívida externa associado aos empréstimos chineses pode não ser sustentado pelas receitas em moeda externa no futuro”.

O relatório, que surge numa altura em que Angola está a renegociar os vários empréstimos em moeda externa, nomeadamente com a China, e negoceia um pacote de ajuda externa do FMI no valor de 4,5 mil milhões de dólares, reconhece a importância da relação entre os dois países.

“De uma forma geral, concentrar a exposição a um único credor, com pouca transparência sobre os termos das reestruturações financeiras, aumenta os riscos de contágio, enfraquecendo a posição orçamental, mas as relações da China com vários países da África subsaariana foram construídas ao longo de décadas”, tornando-os parceiros estratégicos da segunda maior economia do mundo.

“Angola, por exemplo, é fornecedora de cerca de 12% das importações de petróleo da China”, nota a Moody’s, concluindo que apesar de “estas relações de longo prazo e de interesse estratégico parecerem indicar uma vontade da China de reestruturar a dívida quando as pressões se tornam ingeríveis”, a falta de informação sobre os termos das propostas é negativa do ponto de vista da análise da qualidade do crédito.

E o kwanza continua a furar o… fundo

Entretanto a nossa moeda voltou a desvalorizar-se para um mínimo histórico face à moeda europeia, ao ser transaccionada oficialmente a 355,047 kwanzas/euro, “batendo” os 354,111 kwanzas/euro registados a 7 deste mês, indica o Banco Nacional de Angola (BNA).

Segundo o banco central, a moeda angolana, após ter atingido o pico, apreciou-se nas sessões seguintes, primeiro para 352,084 kwanzas/euro e, depois, para 350,182 kwanzas/euro, mas voltou a cair para 351,350 kwanzas/euro (sexta-feira) e para 352,127 kwanzas/euro (segunda-feira), atingindo hoje o novo mínimo de sempre.

Desde Janeiro deste ano, quando se transaccionava a 185,40 kwanzas/euro, a moeda angolana já se depreciou 47,78%.

Em relação à moeda norte-americana, que na sessão de segunda-feira se transaccionava a 309,866 kwanzas/dólar, o BNA dá hoje conta de nova ligeira depreciação no mercado oficial, ao valer agora 310,790 kwanzas/dólar.

Também desde Janeiro deste ano, quando valia 165,92 kwanzas/dólar, a moeda angolana já se depreciou 46,61% face à norte-americana.

No mercado paralelo, a moeda europeia está a transaccionar-se entre os 450 e 460 kwanzas/euro e a norte-americana a manter-se entre os 380 e 410 kwanzas/dólar.

Acabadas as sessões de venda trissemanais de divisas em leilão aos bancos comerciais, iniciadas a 9 de Janeiro, o BNA está desde 1 deste mês a proceder a operações diárias, tendo indicado que, em Novembro, pretende colocar no mercado primário 850 milhões de dólares (732,75 milhões de euros).

Folha 8 com Lusa

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