(Quase) todos os jornalistas (sobretudo portugueses e angolanos) estão voluntariamente proibidos, ao abrigo de critérios editoriais (forma simpática para traduzir a censura dos donos dos jornalistas e dos donos dos donos) de falar sobre os crimes, erros, falhanços, mentiras etc. cometidos pelo regime do MPLA, desde Agostinho Neto a João Lourenço, passando de José Eduardo dos Santos.

Por Orlando Castro

A esmagadora maioria do que aparece na comunicação social (jornalismo é outra coisa) sobre este assunto resulta da reprodução pura e simples do que a Lusa põe em linha e que nem sempre corresponde ao que, de facto, os seus profissionais que trabalham em Angola escreveram. Para além de ser fácil e barato, permite sempre às respectivas direcções de (suposta) informação desculpar-se. No caso da Lusa, quem está no fim da cadeia “alimentar” fica com ónus de algo que, muitas vezes, não é da sua responsabilidade.

O crime de lesa verdade é de tal ordem que, no sistema de “copy paste” puro e duro usado pelos reprodutores de conteúdos, são estes que ficam com o odioso da questão. Por outras palavras, quando a Agência de Notícias de Portugal descobre que Namibe é o nome de um novo país, a partir daí todos os produtores de conteúdos, ao melhor estilo das salsicharias, copiam e colam a informação e, dessa forma, o mundo virtual fica a navegar num país que não existe.

Reconheça-se, contudo, que esta é, de facto e cada vez mais de jure, uma forma eficiente de evitar chatices com o dono total de Angola (o MPLA) e com o dono (ainda) parcial de Portugal (o MPLA).

Se António Costa e Marcelo Rebelo de Sousa entendem que Angola é uma democracia e um Estado de Direito, quem julgam os jornalistas que são para os contrariar?

Desde logo porque qualquer contrariedade que revele, mesmo que de forma ténue, a existência de coluna vertebral pode significar – e significa muitas vezes – ficar sem o prato diário de lentilhas.

Se os porta-vozes portugueses do dono de Angola aceitam passiva e atavicamente serem criados de luxo do MPLA, porque carga de água deveriam os operários das linhas de enchimento de textos de linha branca, agir de forma diferente?

Já no tempo José Eduardo dos Santos o MPLA entendeu que em vez de correr com os jornalistas, o que é sempre chato para um reino que apregoa ser uma democracia, o melhor era comprar quem nesses órgãos tem o poder. E se melhor o pensou, melhor o fez.

Por estes dias, a partir de Luanda, os Jornalistas da Lusa fizeram vários trabalhos sobre os massacres de 27 de Maio de 1977. O Ministro da Justiça angolano, Francisco Queiroz, admitiu “excessos”, com “execuções e detenções sumárias” em 1977. Como era seu dever, os Jornalistas da Lusa escreveram sobre o assunto.

Lendo o que a Lusa colocou em linha sobre o assunto e que, é claro, foi reproduzido em cadeia por todos os cantos e esquinas, fica-se com a ideia de que os autores dos textos não sabiam do que falavam ou, ainda, teriam sido “comprados” pelos autores da verdade oficial, mas falsa, do MPLA.

No entanto, este parece ser um paradigmático caso de rabo escondido com gato de fora. Não acreditamos, não acreditamos mesmo, que um Jornalista da Lusa, a trabalhar em Angola, tenha escrito muitas das barbaridades apresentadas. Cá para nós, ou o texto foi escrito em Lisboa e apresentado como tendo sido redigido a partir de Luanda, ou então o texto foi mesmo escrito em Luanda mas a Direcção de Informação da Lusa, em Lisboa, juntou-lhe ingredientes fornecidos pelo MPLA, colocou tudo na “Bimby” e serviu um prato digno de uma estrela Michelin… made in MPLA.

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