Finalmente o governo do MPLA está satisfeito com o governo português dirigido por António Costa e apadrinhado por Marcelo Rebelo de Sousa. Bem vista a história, todos os governos lusos fizerem tudo para agradar ao MPLA. Nos tempos mais recentes a farra começou com José Sócrates, passou pelo “africanista de Massamá” (Passos Coelho) e continua com António Costa.

Por Norberto Hossi

A frase “estão a sair melhor do que a encomenda” mantém plena actualidade. Vejamos. José Eduardo dos Santos perdeu um velho amigo, José Sócrates, mas encontrou na dupla Passos Coelho/Paulo Portas novos amigos que continuaram não só a considerá-lo um “líder carismático” como ainda abriram mais as portas que existem e as que não existem à entrada triunfal do seu clã.

De facto, tal como José Sócrates, tal como Passos Coelho, também o actual governo português não está interessado em que o MPLA alguma vez deixe de ser dono de Angola. O processo de bajulação continua a bem, dizem, de uma diplomacia económica que – neste caso – se está nas tintas para os angolanos. Tudo, como dizia o António que não era Costa mas Salazar, abem da Nação… deles.

Embora já não tendo, como no tempo de Sócrates ou mesmo de Passos Coelho, tantos ditadores para idolatrar, o governo português continua a querer dar-se bem com os que existem, sobretudo com aqueles que têm dinheiro para ajudar a flutuar as ocidentais praias lusitanas.

Paulo Portas, que até foi excepcionalmente recebido pelo então dono de Angola (Eduardo dos Santos), acreditava que o importante para Portugal são os poucos que têm milhões e não, claro, os milhões que têm pouco… ou nada. E tinha razão. Mudou o rei em Angola, mudou o primeiro-ministro e o Presidente da República em Portugal, mas o MPLA/Estado continua firme.

A Portugal interessam apenas aqueles angolanos que já representam 40% do mercado de luxo português, que vestem Hugo Boss ou Ermenegildo Zegna, que compram relógios de ouro Patek Phillipe e Rolex.

Quanto aos outros, os 70% da população que vive na miséria, que é pé descalço, que tem a barriga vazia, que vive nos bairros de lata, que é gerado com fome, nasce com fome e morre pouco depois com… fome, esses que se lixem.

E se Portas dizia que as relações com Angola são excelentes, é porque são mesmo. E se, agora, Assunção Cristas considera positiva a relação do CDS-PP com MPLA, é porque estão no bom caminho.

Como muito bem podem testemunhar o PS, o PCP, o PSD, o CDS e o Presidente da República, as relações com o MPLA são tão excelentes como o facto de 45% das crianças angolanas sofrerem de má nutrição crónica, sendo que uma em cada quatro (25%) morre antes de atingir os cinco anos. Tão excelentes como Angola ser um dos países mais corruptos do mundo.

São tão excelentes como a dependência sócio-económica a favores, privilégios e bens ser o método utilizado pelo MPLA para amordaçar os angolanos. São tão excelentes como o facto de 80% do Produto Interno Bruto ser produzido por estrangeiros; mais de 90% da riqueza nacional privada ser subtraída do erário público e estar concentrada em menos de 0,5% de uma população.

São tão excelentes como a certeza de que o acesso à boa educação, aos condomínios, ao capital accionista dos bancos e das seguradoras, aos grandes negócios, às licitações dos blocos petrolíferos, estar limitado a um grupo muito restrito de famílias ligadas ao regime no poder.

Como se já não bastasse a crónica e velhinha (com curtos intervalos começou logo em Abril de 1974) bajulação de Lisboa ao regime do MPLA, os portugueses continuam agora a assistir a novos episódios da mesma bajulação, embora com diferentes protagonistas.

Parafraseando José Sócrates, não basta ser primeiro-ministro ou ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros para saber contar até doze sem ter de se descalçar… Mas, é claro, ser do governo é suficiente para, por ajuste directo, entregar ao dono de Angola tudo o que ele quiser. Espera-se, aliás, que queira tudo e mais alguma coisa.

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