A perplexidade toma conta do autóctone, incapaz de um plano, uma perspectiva, um sonho de vida melhor, mesmo depois das eleições de 2017. Incapaz por manifesto demérito dos que têm poder e meios para fazer mais e melhor.

Por William Tonet

A tão ansiada aurora, não desabrochou no cacimbo e, em cada gesto do novo titular, emerge uma defesa cleptocrática do capital, em detrimento dos povos pobres que, por cá, são 20 milhões.

A inflação, não pára, o desemprego sobe, os preços dos produtos alimentares básicos, em alta, a educação e a saúde, mesmo ruins, com preços proibitivos, para os pobres, em contraste com a vida de nababos dos dirigentes. Para o povo tudo aumenta e, como se não bastasse com a subida do câmbio, nos últimos dias, por atacado assiste-se ao do pão, água, sal, fuba, peixe, feijão, óleo, para, estupidamente, ser indexado o preço dos combustíveis, ao dólar, quando a moeda nacional é o Kwanza, o petróleo é angolano e bem poderia ser refinado, grande parte em Angola.

Mais. As principais matérias-primas do país: petróleo e diamantes, estão indexadas ao dólar, mas, de uns tempos a esta parte, a programação financeira é feita em euros, resultando numa variação negativa, significativa, contrastando com as boas regras de economia.

Esta violência política, económica e social, a toda dimensão do terreno, contrariando uma promoção de consumo dos pobres, capaz mesmo de alavancar a pequena e média actividade empresarial, não é um bom presságio. Não é mesmo!

E tanto assim é que a grande medida económica, até hoje, do Titular do Poder Executivo, ser de natureza bancária, para salvar os banqueiros comerciais com mais de 70% de crédito mal parado, face à anterior política de acumulação primitiva de capital, seguida de outra de desvalorização dos quadros, pese, o discurso, sempre este, apontar em sentido inverso, principalmente, no Parlamento Europeu.

Se dúvidas houver, basta observar a composição do gabinete presidencial e dos órgãos judiciais, assente no Futebol Clube da Mesmice, responsável pelo descalabro mas, mesmo assim, sorrindo como se a incompetência governativa não fosse um crime.

Quando se fala no combate contra a corrupção e no repatriamento de capitais, como se fossem transversais a toda sociedade, dá um sentimento de revolta, consabido estarem os actores da “ilicitude financeira”, circunscritos a uma força política, que os pode estancar, não com decisões judiciais, mas políticas, saídas de uma reunião do comité central do MPLA.

Tanto assim é que este “show off” assenta no desvario discricionário dos prevaricadores económicos, poderem repatriar o dinheiro roubado aos cofres do Estado, para as suas contas pessoais, dando legitimidade (e legalidade) à ilicitude, praticada pelos barões de colarinho branco, quando em relação aos pobres, pilha-galinhas o tratamento é, mesmo sem provas, a recolha para as fedorentas masmorras do regime.

Diante deste quadro dantesco (resquícios de 1975), o regime pretende tapar o sol tórrido, com a peneira e, quando assim é, o cidadão honesto, o quadro empenhado e comprometido, com a cidadania, torna-se criminoso.

Por tudo isso, tenho medo de ter esperança, por a mudança apenas ter vontade de nada mudar, na senda da lógica das transições totalitárias, onde o chefe concentrando todos poderes, se auto considera o “deus” na terra, afastando todos os diferentes de pensamento, pela corte bajuladora, qual sanguessuga do erário público.

PAÍS SEM PROJECTO

Angola, para a maioria, deixou de ser o país dos muitos (povos/cidadãos), que têm pouco, desde o chamado dia da independência nacional (11.11.75) por detida, pelos poucos, convertidos em monarcas absolutos, das riquezas, dos bens e cidadãos do país.

E, o muito, dos muitos, são os biliões (mil milhões) de dólares, do petróleo, dos diamantes, dos minérios de ferro, dos impostos, irresponsável, mas, responsavelmente desviados, exclusivamente, pela partidocracia, alojada nos corredores do poder.

Assim, sem noção do que é servir, preservar e gerir os cidadãos autóctones, diferente do colonialismo, anda(ra)m em sentido contrário à elaboração “ab initio” de um verdadeiro e imparcial “projecto-país”.

Negaram a democracia e sob a capa do proletariado e de uma sociedade igualitária, implantaram uma ditadura feroz, que assassinou todas as ideias contrárias, quer fossem internas ou externas, atirando para a sarjeta as eleições democráticas que deveriam cobrir o nascimento do novo ente jurídico em 11 de Novembro de 1975.

Dois dos três subscritores dos Acordos do Alvor, com a cumplicidade dos capitães de Abril de 1974 de Portugal, foram “selvaticamente” banidos do xadrez político, não pela força dos argumentos, mas das armas.

FNLA, diabolizados e queimados nas Casas do Povo (sedes) no Cazenga, Sambizanga, Avenida do Brasil, etc., assim como a UNITA no Pica Pau (sede) na Esquina do Zangado (com a Avenida do Brasil), em Luanda, foram a carne para canhão de uma política militarizada, que não teve, na esquina da história, pejo em assassinar cerca de 80 mil militantes do próprio MPLA, em 27 de Maio de 1977, que apenas solicitavam uma clarificação ao rumo que o país deveria tomar: Socialismo ou capitalismo.

E, quando menos se esperava, a resposta, para desgraça colectiva, foi Agostinho Neto e a sua clique, superar Adolph Hitler, com a maior chacina selectiva humana, depois da II Guerra Mundial, avaliada em cerca de 80 mil intelectuais da família MPLA.

Toda esta mortandade, repousou na justificativa de uma sociedade socialista, cujo esboço, não passava de um texto estapafúrdio, uma vez a prática, ter andado de mãos dadas com uma feroz discriminação de “viés fascista”, que elegeu práticas da inquisição, qual besta de uma guerra civil: MPLA versus UNITA, que dilacerou o país.

INGÉNUA CUMPLICIDADE

Infelizmente, pelo descalabro do país, ao longo dos 43 anos, os guerrilheiros, pseudo-proletários, comunistas de pacotilha, não foram os únicos culpados, pois contaram com a cumplicidade dos nacionalistas, que nas cidades, vilas e aldeias empreenderam, também, uma luta clandestina, contra o poder colonial.

Estes, com o advento de 1974, quando deveriam impor regras, aos guerrilheiros, por desconhecimento da administração do Estado, escancararam as portas, a quem não tinha noção, sequer da gestão de um bairro com saneamento básico.

A ansiedade de liberdade, não deveria, reconhece-se, hoje, ser causa bastante para a outorga de um cheque em branco, a guerrilheiros vindos das matas, sem noção de gestão e administração de órgãos do Estado, mas com uma série de contradições e sentimento de intolerância política.

Mas, uma vez, considerados sumidades intelectuais, empreenderam verdadeira cruzada de eliminação de quadros do funcionalismo público, comprometidos com a causa de bem servir e administrar aquela que poderia ser uma nova Angola, inclusiva, participativa e democrática.

O tempo, qual juiz, tem demonstrado o engano e a “burla política qualificada”, em que a maioria dos autóctones angolanos caíram e vivem ao longo de 42 anos, sob a liderança dos ex-proletários convertidos em proprietários vorazes, enriquecidos pela anacrónica acumulação primitiva do capital.

Se a maioria dos povos, dos intelectuais honestos continuar indiferente ao desnorte do país, todos seremos cúmplices na hora de nos estatelarmos no pantanal.

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