O Banco Nacional de Angola (BNA) disponibilizou hoje um novo “plafond” de 100 milhões de euros, em divisas, a 20 bancos comerciais, para abertura de cartas de crédito para importação, modelo preconizado pelo banco central angolano. Este montante foi distribuído em leilão, com o objectivo de “assegurar a importação de mercadorias diversas, priorizando a importação de matéria-prima”.

O banco central angolano já tinha distribuído, a 26 de Junho, por 21 bancos, e também na forma de leilão, outros 100 milhões de euros, para abertura de cartas de crédito para importação.

O governador do BNA traçou, a 20 de Junho, o objectivo de a importação de mercadorias passar a ser paga essencialmente com cartas de crédito, instrumento que garantirá a entrada de mercadoria no país e a confirmação da disponibilização de pagamento ao importador.

A informação foi avançada por José de Lima Massano, no final de um encontro com empresários angolanos, para a apresentação formal do diploma sobre a importação e exportação de mercadorias.

“Temos um novo instrutivo e um novo aviso também e hoje aproveitamos para partilhar com a nossa classe empreendedora. Temos o documento na sua ponta final, desse encontro temos contribuições relevantes, que vão também ajudar-nos a fazer um ou outro ajustamento, mas no essencial é um documento que se encontra fechado”, informou.

O governador do BNA explicou que o instrutivo estabelece que a importação de mercadorias passa a ser feita essencialmente com cartas de crédito, por se tratar do melhor instrumento para o comércio internacional, que vai garantir quer a entrada de mercadoria para o país quer a confirmação da disponibilização para se pagar o importador.

“O mesmo estamos a fazer em relação àquela mercadoria que é exportada, ou seja, essa mercadoria também tem de ter essa garantia, de que os recursos cambiais associados regressam para a nossa economia”, frisou.

O responsável do banco central angolano salientou ainda que o novo aviso diz igualmente que “os exportadores da moeda, que resulta da exportação da sua mercadoria, uma parte deve ser vendida aos bancos comerciais e o diferencial pode ser mantido para esses exportadores poderem honrar pagamentos no exterior”.

“Têm a totalidade do valor da mercadoria, ou seja, se a mercadoria vale dez vão ter os dez. Simplesmente metade desses dez deve ser vendida a moeda estrangeira ao banco comercial, passa a ter por isso uma parte em moeda estrangeira outra parte em moeda nacional, mas tem a totalidade da receita resultante daquela exportação”, disse.

José de Lima Massano sublinhou que Angola está num exercício de diversificação da sua economia e das suas fontes de acesso à moeda estrangeira, e nesse sentido, essas exportações devem também apoiar o esforço de dinamização da economia, trazendo recursos cambiais, “que vão servir não apenas a quem exportou, mas à economia como um todo”.

Empresas de bebidas aproveitam o balanço

As empresas angolanas de bebidas alertaram hoje o Governo para a necessidade de divisas que garantam a importação de matéria-prima, avaliada em 60 milhões de dólares, mas também para repatriamento de lucros.

O presidente da Associação das Indústrias de Bebidas de Angola (AIBA), Manuel Sumbula, falava hoje aos jornalistas no final de uma reunião, em Luanda, com a ministra da Indústria, Bernarda Martins, que serviu para entregar ao Governo um estudo de viabilidade do sector.

“Estamos a falar de cerca de 60 milhões de dólares só de necessidade de produção, sem falar de repatriamento de dividendos que deve ser garantido aos investidores para a sua satisfação”, disse o presidente da AIBA, sector que congrega cerca de 40 operadores.

Manuel Sumbula adiantou que hoje a produção nacional consegue abastecer o mercado, mas deixou o alerta: “Se não encontrarmos um caminho efectivo sobre a necessidade de divisas para importar matérias-primas, vamos criar alguns constrangimentos”.

Acrescentou que o mercado nacional, com a capacidade instalada actual, já pode também pensar em exportar, entre cervejas, sumos e águas.

“Os números estão bons. Hoje, se olharmos para o mercado, no consumo de bebidas estamos a falar na ordem dos 2,4 milhões de litros por ano e se conjugarmos a produção nacional com a importação estamos com cerca de 2,5 milhões de litros”, explicou ainda presidente da AIBA.

Durante o encontro de hoje, na sede do Ministério da Indústria de Angola, em Luanda, o presidente da AIBA explicou que, em termos de capacidade, por categoria, de produção nacional, as cervejas e refrigerantes “lideram a escala de produção”, seguidos dos sumos e néctares, águas de mesa e bebidas espirituosas.

Segunda a AIBA, este sector contribui de forma activa para o desenvolvimento social e económico do país, com um impacto considerável no mercado nacional, através dos 40 fabricantes de bebidas, nas categorias de cervejas, refrigerantes (gaseificados), sumos e néctares (não gaseificados), águas de mesa, vinhos e espirituosas.

O sector é responsável por cerca de 13.600 postos de trabalho directos, estimando-se que gira cerca de 42.000 postos de trabalho indirectos.

Em 2017, Angola exportou 600 mil litros de bebidas, o que representa ainda uma pequena parte da produção nacional instalada no sector.

Nesta reunião, o presidente da AIBA defendeu igualmente uma “aposta forte” no sector adjacente das bebidas, como “produtores de embalagens, rótulos, caricas, latas e cartões”, considerando que o país “não precisa de mais fábricas de bebidas”.

“Pelo número de fábricas que temos de produção de bebidas, entre cerveja, águas, refrigerantes, sumos, pensamos que não há tanta necessidade de investirmos mais em fábricas de bebidas”, apontou.

Cobertura do mercado

As fábricas de bebidas instaladas em Angola já cobrem as necessidades do país em cervejas, refrigerantes e águas, mas a forte dependência de importação de matéria-prima condiciona o arranque em força das exportações, admitiu a ministra da Indústria.

A posição foi assumida pela ministra Bernarda Martins, em declarações aos jornalistas, depois de receber, em Luanda, um estudo de viabilidade das indústrias das bebidas no país, feito pela Associação das Indústrias de Bebidas de Angola (AIBA), tendo assinalado o grande investimento dos últimos anos.

“Hoje, as capacidades que estão instaladas no nosso país permitem por um lado abastecer o mercado interno de forma mais segura e por outro começar a trabalhar para as exportações porque temos muita capacidade”, apontou a ministra.

“O executivo, neste momento, tem estado a promover o investimento nas matérias-primas”, sublinhou, apontando que “todo o investidor que pretender investir neste sector é muito bem-vindo”.

Isto porque, disse Bernarda Martins, após reunir-se com o presidente da AIBA, Manuel Sumbula, o país continua a ter necessidade de importar grandes quantidades de polpas para sumos e refrigerantes e material para a produção da cerveja.

Com investimentos, para este campo, “que ainda ficam muito aquém” do que Angola precisa.

Em relação às dificuldades de cambiais por parte dos operadores, para a importação de matéria-prima, no actual contexto de crise económica, financeira e cambial que o país atravessa, Bernarda Martins optou por recordar que a situação “já foi bem pior”.

“A falta de cambiais não vai ser eterna e mesmo se falarem com os investidores vão sentir que a situação tem melhorado”, assegurou.

Questionada ainda sobre o nível de cobertura da produção nacional de bebidas em face das quantidades que ainda são importadas, a ministra da Indústria de Angola apontou para uma faixa muito pequena.

“Hoje, o nosso mercado é praticamente abastecido localmente”, concluiu.

Onde ficou o paraíso, Senhora Ministra?

No dia 26 de Dezembro de 2014, a ministra Bernarda Martins era peremptória. O Ministério da Indústria iria, em 2015, arrancar com novas unidades fabris, melhorar o funcionamento das empresas já instaladas e continuar o trabalho iniciado em 2014, referente à criação de condições atractivas para o fomento e desenvolvimento da indústria no país.

Em entrevista à Angop, para fazer o balanço do sector que dirigia, Bernarda Martins considerou positivo o ano que terminava (2015), na medida em que o sector industrial cresceu e apresentava perspectivas de continuar o seu crescimento nos próximos anos.

“O balanço é bastante positivo. A indústria cresceu e as perspectivas são de maior crescimento ainda. Para o próximo ano, perspectiva-se a continuação de tudo o que já se deu início, a melhoria das indústrias já instaladas, com um bom leque de algumas que estão previstas, algumas delas em fase de arranque para o próximo ano e outras com boas perspectivas de iniciar as suas implantações”, sublinhou Bernarda Gonçalves Martins.

Referiu que o sector finalizou ano de 2915 com o Censo da Indústria de Angola, facto que levará o país a ter ideias claras sobre o que é preciso fazer para melhorar, alavancar e apoiar essas indústrias, para que a diversificação da economia possa ser apoiada pela indústria transformadora.

“Se a indústria transformadora tiver um grande avanço, também poderemos contar com a criação de postos de trabalho”, disse a ministra.

Bernarda Martins sublinhou que o sector tem vindo a crescer a uma taxa média anual de oito (8) por cento, prevendo para 2015 que esta cifra atingiria os 11,2 por cento. A participação do sector no Produto Interno Bruto (PIB) estava na ordem de 6,25 por cento.

Instada a pronunciar-se sobre os subsectores considerados prioritários para o país, a governante informou que o Programa de Industrialização, que consta do Programa Nacional de Desenvolvimento (PND), elegeu como prioritárias a indústria de alimentos, bebidas, vestuário, calçado, materiais de construção, materiais metálicos e não metálicos, reciclagem e equipamentos de transportes.

Bernarda Martins informou também que foram identificados alguns ajustes de apoio ao PND, como a criação de um ambiente favorável para o desenvolvimento das indústrias, que tem a ver com a criação de condições para a instalação das mesmas, nomeadamente o tecido industrial, condições físicas em terreno industrial e infra-estruturas.

Folha 8 com Agências

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