O vice-presidente da República destacou, nesta sexta-feira, os sinais positivos da dinâmica governativa do Chefe de Estado angolano, João Lourenço, desde que chegou ao poder a 26 de Setembro de 2017. Meus senhores, ministros e similares, façam fila e sigam o exemplo bajulador de Bornito de Sousa.

O vice-presidente enumerou o combate à corrupção, bajulação (pasme-se!), impunidade e o nepotismo como os sinais positivos desta nova dinâmica na forma de governar.

Segundo Bornito de Sousa, que falava na cerimónia de cumprimentos de fim de ano ao Presidente da República, confirma-se “uma opinião geral positiva da imprensa nacional, internacional e dos cidadãos sobre a nova governação de Angola”.

Bornito de Sousa esqueceu-se de referir, mas nós lembramos. A “opinião geral positiva” atinge o seu expoente máximo junto dos 20 milhões de angolanos que estão a aprender a viver sem comer, ajudando assim o Governo a ter mais dinheiro para construir o que acha importante.

Quando tomou posse, João Lourenço assumiu (como fez Eduardo dos Santos sempre que tomou posse) o compromisso de “tratar” dos “problemas da nação” com uma “governação inclusiva”.

“Neste novo ciclo político que hoje se inicia, legitimado nas urnas, a Constituição será a nossa bússola de orientação e as leis o nosso critério de decisão”, apontou João Lourenço, durante a cerimónia de investidura. Investidura que, desde logo, foi uma violação da Constituição porque dada pelo presidente do Tribunal Constitucional com mandato então expirado há dois anos.

“Uma vez investido no meu cargo, serei o Presidente de todos os angolanos e irei trabalhar na melhoria das condições de vida e bem-estar de todo o nosso povo”, afirmou o chefe de Estado.

“Cumpriu a sua missão com um brio invulgar”, reconheceu João Lourenço, referindo-se ao Presidente cessante, “saltando” o parágrafo em que “estava escrito” que foi graças a Eduardo dos Santos que Angola se tornou um dos países mais corruptos do mundo, líder mundial da mortalidade infantil e causador de 20 milhões de pobres.

Numa intervenção de quase uma hora, João Lourenço enfatizou que a melhoria das condições de vida dos angolanos será prioritária.

“Para corresponder à grande expectativa criada em torno da minha eleição e a confiança renovada no MPLA, governarei usando todos os poderes que a Constituição e a força dos votos dos cidadãos expressos nas urnas me conferem”, disse ainda.

Recordando que a “construção da democracia deve fazer-se todos os dias”, apontou que essa missão “não compete apenas aos órgãos do poder do Estado”, sendo antes “um projecto de toda a sociedade, um projecto de todos nós”.

“Vamos por isso construir alianças e trabalhar em conjunto para podermos ultrapassar eventuais contradições e engrandecer, assim, o nosso país”, exortou João Lourenço.

Numa crítica aos partidos da oposição, que questionam os resultados oficiais das eleições gerais de 23 de Agosto de 2017, João Lourenço afirmou, perante os aplausos do público, que “o interesse nacional tem de estar acima dos interesses particulares ou de grupo, para que prevaleça a defesa do bem comum”. Sendo que, presume-se o interesse nacional tem de ser definido e compatível com o que o MPLA desejar.

Quando, no dia 17 de Setembro, Bornito de Sousa falou, no Cuito, no acto central do dia do Fundador da Nação e do Herói Nacional (do MPLA), abordou também das mudanças políticas e geracional que decorrem em Angola, destacando que o mundo estava a acompanhar com atenção e admiração uma transição política pacífica, democrática e exemplar, com efeitos nos domínios político-partidário e político-institucional, judicial, económico, social e diplomático, na qual ocupa uma posição central o Presidente João Lourenço. Mais uma vez o vice-Presidente não conseguiu resistir a mostrar também o seu quinhão de bajulação ao… “querido líder”.

Confundindo sinais com obra feita, intenções com factos, sintomas com cura, Bornito de Sousa reiterou maior abertura ao exercício das liberdades constitucionais, de que a extensão da emissora Católica de Angola (Rádio Eclésia), a todo território nacional, a liberdade de imprensa, o exercício pacífico, legal e ordeiro do direito de manifestação e a perspectiva de alargamento de participação política às autarquias locais.

Porém, denunciou que o exercício da liberdade constitucional é incompatível com determinadas práticas a que ultimamente se assiste, como sejam o roubo ou a destruição gratuita de bens públicos, nomeadamente, cabos eléctricos, painéis solares, equipamentos solares, hospitalares e urbanos, ocupação ilegal de terreno, construção não autorizada, auxílio à imigração ilegal, exportação ilegal de combustíveis, uso abusivo de meios de comunicação social e outras práticas prejudicais ao bem comum.

Com um pouco mais de embalo, Bornito de Sousa tenderia a advogar a ditadura ou, talvez, a autocracia que nos caracterizou e na qual se formou, tal como João Lourenço.

Em função disso, desencorajou tais práticas e recomendou o exercício da autoridade para fazer cumprir a lei quando aplicável. Os bens públicos são para ser protegidos por todos, daí que a população tem de ser vigilante e denunciar estas acções para que os sues promotores ou patrocinadores sejam responsabilizados.

Bornito de Sousa defendeu igualmente a necessidade de se assegurar os projectos conseguidos no domínio das infra-estruturas em área como a saúde, educação, vias de comunicação e transportes públicos, para que não regridam.

E se, até esta altura, Bornito de Sousa conseguiu manter-se de pé e mostrar, para além de alguma clareza de raciocínio, verticalidade de formação, estatelou-se ao comprido na sua cama do MPLA quando resolveu (que remédio!) fazer as louvaminhas ao primeiro Presidente de Angola, António Agostinho Neto, que – segundo a ébria cartilha do partido – dedicou toda a sua vida à causa da liberdade e dignidade dos angolanos, da independência nacional e da solidariedade internacional.

Enquanto médico, referiu Bornito de Sousa, Neto dedicou todo seu saber à saúde, reservando período específicos para atender gratuitamente aos doentes com menos posses e mais vulneráveis.

Para Bornito de Sousa, o político Agostinho Neto, que nasceu há 96 anos, considerava como sendo o mais importante “resolver os problemas do povo”, célebre slogan que se mantém em plena actualidade. Mantém-se sim senhor. E mantém porque, 43 anos depois (16 de paz total) o povo continua sem ver os seis problemas resolvidos, continua a ser gerado com fome, a nascer com fome e a morrer, pouco depois, com fome. Estão aí 20 milhões de pobres que o comprovam.

Como estadista, entende Bornito de Sousa, a personalidade de Agostinho Neto projectou-se pelo mundo e pelas mais relevantes instituições regionais e internacionais. Mas o maior legado de Agostinho Neto ao Povo angolano foi a proclamação, a 11 de Novembro de 1975, da independência Nacional.

Independência essa, deveria ter dito Bornito de Sousa – caso fosse um político intelectualmente sério – que também foi proclama nesse dia, no Huambo, por Jonas Savimbi e Holden Roberto. Mas pedir isso a um político do MPLA só será possível quando alguém descobrir como é possível escrever em português sem utilizar v_ g_ _ s.