“Esperança”, “repatriamento” e “mudança” lideram as escolhas para a “Palavra do Ano” em Angola, cuja eleição decorre até segunda-feira, às 23:59, contando com cerca de 3.000 votos, anunciou hoje a Plural Editores, que organiza a iniciativa.

Na corrida estão ainda as palavras “resgate”, “justiça”, “autarquias”, “melhorar”, “câmbio”, “investimento” e “cidadania”, por ordem dos votos entrados em www.palavradoano.co.ao.

A “Palavra do Ano” de 2018, em Angola, será conhecida “nas primeiras semanas de Janeiro”, numa cerimónia a realizar em Luanda.

Relativamente à escolha das palavras para fazerem parte da lista de elegíveis, a mesma fonte disse que “esperança” foi uma das seleccionadas, pois “a esperança acompanha desde sempre o povo angolano, que hoje a deposita na melhoria das condições do país”.

Quanto a “repatriamento”, recordou a editora, prende-se com a aprovação, este ano, pelo parlamento angolano, da proposta de lei de repatriamento de capitais, visando a recuperação parcial do património de origem nacional existente no estrangeiro.

“Mudança”, palavra que já figurava no ano passado na lista e ficou em segundo lugar, justifica-se, pois “é inegável que o país tem atravessado uma fase de mudança, desde a tomada de posse do novo Presidente da República [João Lourenço], em Setembro de 2017”.

Quanto aos outros vocábulos a concurso, “autarquias”, justifica-se pela esperada instalação “das autarquias locais, com a consequente descentralização administrativa”, que “venha a impulsionar o desenvolvimento económico e social”, segundo comunicado da editora angolana do Grupo Porto Editora.

O termo “câmbio” foi escolhido pela entrada em vigor, em Janeiro deste ano, do novo regime cambial. “A moeda nacional [angolana, o Kwanza] tem sofrido uma acentuada desvalorização”.

“Cidadania” faz parte da lista face ao “crescente respeito pela liberdade de expressão”, “um sinal positivo para o reforço da cidadania”, segundo a Plural.

“Atrair investimento, em especial o estrangeiro, tem sido uma prioridade para o Governo [de Luanda], que vem procurando o apoio de parceiros internacionais para o desenvolvimento de diferentes projectos”, e daí a escolha da palavra “investimento”.

Quanto a “justiça”, justifica a editora angolana a escolha com “a campanha de combate à corrupção e ao nepotismo” que “tem levado à justiça vários ex-governantes e altos dirigentes” de Angola.

“A frase ‘melhorar o que está bem e corrigir o que está mal’ tem sido um lema para o executivo e para o Presidente [de Angola João Lourenço] ao longo do ano”, daí a escolha do termo “melhorar” para poder ser eleito “Palavra do Ano” em Angola.

Finalmente, sobre “resgate”, “é o nome da operação policial que pôs milhares de agentes nas ruas para combater a imigração ilegal e travar a venda ambulante desordenada, entre outros propósitos”.

O vocábulo “exoneração” foi a “Palavra do Ano” de 2017, em Angola, tendo recolhido 40% dos votos. No ano passado, segundo a Plural Editores, participaram cerca de 2.500 cibernautas e, à palavra “exoneração”, seguiram-se “mudança”, que obteve 21% dos votos, e “divisas”, em terceiro lugar, palavra que alcançou 18%.

Em 2016, quando se realizou a escolha da “Palavra do Ano” pela primeira vez, em Angola, a eleita foi “crise”, que mobilizou 31% dos votos.

Outras palavras menos… mediáticas

Há um ano, o Folha 8 escreveu que, instalado no Palácio Presidencial, João Lourenço, deveria em primeira instância, recuperar todo o dinheiro da mega fraude luso-angolana que foi a falência do Banco Espírito Santo em Portugal e do seu associado em Angola, o BESA (BES Angola). Ao longo de anos, o BES concedeu empréstimos sem garantias a personalidades ligadas ao MPLA, entre os quais o próprio João Lourenço.

Em artigo publicado no Folha 8 em 21 de Setembro de 2017, Paulo de Morais (Presidente da portuguesa Frente Cívica) disse que “deve ele próprio (João Lourenço) dar o exemplo e devolver os milhões com que então se abotoou. Os angolanos agradecem! De seguida, Angola poderá pagar a Portugal os mais de cinco mil milhões de dólares devidos por força deste despautério. Os portugueses também agradecem!”.

“Só desta forma se poderá tapar o colossal buraco criado nas finanças públicas de Angola e de Portugal, cujos principais responsáveis são Eduardo dos Santos e o seu cúmplice, íntimo amigo de Marcelo, Ricardo Salgado. Cabe a Marcelo Rebelo de Sousa, presente na posse de João Lourenço, desencadear, a nível diplomático, este assunto”, escreveu então Paulo de Morais.

No topo da lista dos beneficiados com a tramóia do BESA estava Marta dos Santos, irmã do ex-presidente, que usufruiu dum crédito de 800 milhões de dólares, utilizados em projectos imobiliários em Talatona. Sem quaisquer contrapartidas ou garantias! O conjunto de bafejados pelo BESA com muitos milhões é extenso, com destaque para membros da cúpula do MPLA, para além de João Lourenço, Roberto Almeida, França Ndalu, passando por muitos outros.

Muitas aquisições de angolanos em Portugal terão mesmo sido efectuadas com o capital do BES. A herdade que os filhos de Dos Santos adquiriram perto de Lisboa resultava aparentemente duma entrada de dinheiro angolano. Mas os milhões gastos pertenciam afinal aos depositantes do BES em Portugal.

Em 2013, e face ao escândalo que esta situação provocou em Lisboa e Luanda, o ex-presidente do BES, Ricardo Salgado, responsável maior de toda esta burla, deslocou-se ao Palácio Presidencial angolano, onde Eduardo dos Santos lhe terá prometido uma garantia soberana do Estado de cerca de cinco mil milhões de dólares. Este montante destinar-se-ia a pagar, com dinheiro do povo angolano, todo este regabofe de créditos sem garantias para os protegidos do regime; seria ainda uma forma de branquear todas estas irregularidades. Este encontro motivou primeiras páginas de jornal, do “Expresso” de Lisboa ao subserviente “Jornal de Angola”, em Luanda.

João Lourenço tem-se dedicado a lançar para a ribalta mediática uma série de “sound bites”, de ideias, de decisões que ficam no ouvido mas que ninguém cuida de saber se podem ser exequíveis ou se ele tem autoridade moral e ética para as colocar como sendo uma espécie de obra-prima do mestre. Bem vistas até serão mais as primas do mestre de obras.

Veja-se que os vocábulos “esperança”, “repatriamento” e “mudança”, lideram a lista de preferências dos internautas angolanos, passando ao lado da “peste” que são os 20 milhões de ignorantes angolanos que, se fossem ouvidos, escolheriam palavras como “fome”, “comida”, “trabalho”, “saúde”.

O rótulo, a embalagem, o acessório continuam a ser – sobretudo para os opinantes públicos – mais importantes do que o conteúdo, do que o essencial.

Do ponto de vista ético, alguém conhece a declaração de rendimentos de João Lourenço, bem como do seu património, incluindo rendimentos brutos, descrição dos elementos do seu activo patrimonial, existentes no país ou no estrangeiro, designadamente do património imobiliário, de quotas, acções ou outras partes sociais do capital de sociedades civis ou comerciais, carteiras de títulos, contas bancárias a prazo, aplicações financeiras equivalentes?

Do ponto de vista ético, alguém conhece a descrição do seu passivo, designadamente em relação ao Estado, a instituições de crédito e a quaisquer empresas, públicas ou privadas, no país ou no estrangeiro?

Do ponto de vista ético, alguém conhece a declaração de cargos sociais que exerce ou tenha exercido no país ou no estrangeiro, em empresas, fundações ou associações de direito público?

Isto é o essencial. O acessório é tudo o resto.

Gay Talese (esse perigoso inimigo dos regimes totalitários) no livro “The Kingdom and the Power” (“O Reino e o Poder”), publicado em 1971, disse que “o papel da imprensa, numa democracia, é atravessar a fachada dos factos”.

Por outras palavras, ao contrário dos “opinion makers”, e citando Gay Talese, cabe ao jornalista procurar incessantemente a verdade e não se deixar pressionar pelo poder público ou por quem quer que seja. Não interessa se as opiniões são do Secretário-Geral da ONU, da Rainha de Inglaterra, do Presidente da República de Portugal ou do novo “dono” de Angola, de seu nome João Lourenço.

Falar hoje disto é desafiar uma regra basilar do regime angolano e que ainda não foi exonerada (até prova em contrário todos somos… culpados), é algo que desagrada aos poderes políticos de Angola. Nós sabemos e é por isso que tentamos “atravessar a fachada dos factos”…

Folha 8 com Lusa

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