Anjum é a personagem principal no livro «O ministério da felicidade suprema», publicado em 2017 pela escritora indiana Arundhati Roy, vencedora do Booker Prize em 1997 com «O Deus das pequenas coisas». Nascida hermafrodita, Anjum foi declarada menino pela parteira que não viu o sexo feminino. A mãe e pai de Anjum, que há seis anos aguardavam pelo nascimento de um rapaz, depois de três raparigas, chamaram-lhe logo pelo nome que prepararam: Aftab.

Por Sedrick de Carvalho

Na manhã seguinte ao nascimento, Jahanara Begum, a mãe, inspeccionou a criança como só uma mãe sabe inspeccionar, desde os “olhos nariz cabeça pescoço axilas dedos das mãos e dos pés – com uma satisfação saciada e tranquila” (pág. 17). Quando concentrou a atenção no pénis percebeu que por baixo estavam uma pequena vagina, “mal formada mas indubitavelmente feminina” (ibidem).

Entre várias reacções que teve, das quais uma foi ter ponderado matar-se e ao bebé, optou pela sexta – nada dizer a ninguém, nem mesmo ao marido. E assim criou a criança nos seus primeiros anos de vida contando que a parte feminina fosse uma ferida que iria sarar com o tempo, “afinal de contas, não era uma verdadeira vagina, disse a si própria” (pág. 18).

Mulaqat Ali, o pai de Aftab, só muito mais tarde foi informado pela esposa do que se passava com o filho. Ficou em choque por algum tempo, sem palavras e dísticos – tinha sempre um especial com frases especiais que tornava o momento especial -, e quando recuperou deu a inevitável reprimenda à companheira “por não lhe ter dito nada mais cedo” mas logo disse que “os tempos são outros […] Estavam na Era Moderna. Com certeza que haveria uma solução médica simples para o problema do filho” (pág. 26).

Foi localizado um médico, o doutor Nabi, que, adiantando tratar-se de “um raro exemplo de hermafrodita com as características masculinas e femininas” (pág. 27), indicou “um cirurgião que fecharia a parte feminina, a coseria” (ibidem). Mas adiantou que “o problema não era unicamente superficial […] haveria «tendências hijras» que dificilmente desapareciam” (ibidem). Hijras é o termo utilizado na Índia para designar transgéneros e intersexuais.

O pai Mulaqat não hesitou. Empenhou-se em conseguir dinheiro para a cirurgia e “embarcou no projecto cultural de incutir masculinidade a Aftab” (ibidem). O projecto passava por eliminar o gosto do filho pela música e faze-lo amar a poesia, o que ele, pai, muito amava. Nessa altura Aftab já se sentia mais Anjum, e quando o pai lhe contou a história de como Genghis Khan lutou contra um exército inteiro para recuperar a sua esposa Borte Khatun raptada, Aftab desejou imenso ser ela, a amada de Genghis Khan.

Quando assumiu ser Anjum e não Aftab, aos quinze anos de idade, abandonou Duniya – o Mundo, como diziam as Hijras – e mudou-se para Khwabgah, uma casa onde viviam as hijras. Sentiu-se finalmente livre para vestir-se como uma mulher, porque se sentia mulher e comportava-se como mulher.

Anos passaram e Anjum começou a viver “a guerra indo-paquistanesa [que] está dentro de nós [hijras]” (pág. 33), como lhe disse Nimmo Gorakhpuri, “a primeira amiga verdadeira” que teve na Khwagbah. Pouco depois da Partição da Índia – que originou o Paquistão e depois, deste, o Bangladesh -, Anjum fez uma viagem de comboio para Guzerate em busca da cura para a tosse profunda da filha que adoptou, digamos, tosse que considerava ser uma praga rogada por umas das companheiras da casa. Uma carruagem do comboio foi incendiada por “terroristas paquistaneses [e] a polícia deteve centenas de muçulmanos” (pág. 55). A repressão foi tanta que foram criados campos de refugiados onde colocaram os paquistaneses, e lá também Anjum ficou, masculinizada no vestuário e fisicamente, com o cabelo cortado.

De regresso a Khwabgah, Anjum fechou-se num silêncio agudo mas compreensível, rodeando-se de livros. Quando, passado algum tempo, Ustad Kulsoom Bi, a líder da casa, convocou uma reunião de emergência para, discretamente, quebrar o silêncio de Anjum, pois pouco ou nada sabiam sobre o que ela enfrentou durante a ausência, e ainda mais porque o companheiro de viagem continuava desaparecido, eis que Kulsoom Bi falou que a filha adoptiva que Anjum criava como se fosse um menino colocava em causa os princípios da Khwabgah. “Forçar uma menina a viver como menino, contra a sua vontade, mesmo que seja pela sua própria segurança, é encarcerá-la, não libertá-la”, vincou Ustad.

Com esta declaração Anjum viu-se provocada e em reacção disse que deixaria a casa e iria embora com a filha. Ustad Kulsoom Bi retorquiu: “Podes fazer o que quiseres, mas a criança fica aqui” (pág. 64). Quando se encheu de coragem partiu, sem a filha, e dez minutos de distância de carro encontrou o seu novo mundo – o cemitério onde estavam enterrados o seu pai, e outros membros da família.

O cemitério é um lugar surpreendentemente interessante. Como disse Raymond Reddington no quinto episódio da quinta temporada de «A lista negra», da Netflix: “Muitos acham que os cemitérios são sinónimos de perda. Eu acho que são uma grande lembrança de que devemos aproveitar o dia”. É assim que o cemitério passa a ser o lugar de renascimento de Anjum, onde ergue um pequeno império empresarial. De cemitérios falaremos noutro artigo.

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