O combate contra a corrupção, liderado pelo actual vice presidente do MPLA e Presidente da República, João Manuel Gonçalves Lourenço, vai de vento (parece, na versão oficial, quase um vendaval) em popa, melhor, está ao rubro. O vazio impera!

Por William Tonet

Todos os dias existem exonerações, por conveniência de serviço e – sobretudo – fidelidade partidária que urge compensar e, em nenhuma se vê hastear a bandeira de prestação de contas, face ao enriquecimento ilícito, que muitos ostentam, depois da prestação de serviço (dito) público. Fica tudo em família, numa boa, como se confirmando a tese de: Roubar é um dever revolucionário. Dúvidas, para quê? Basta a propaganda do regime de um hipotético que, no caso rima com patético, combate, nunca ocorrerá, mais do que apontar meia dúzia, como falsa justificativa, para iludir incautos.

Falar, ensurdecedoramente, interna e até nos areópagos internacionais, numa acérrima luta de destruição dos pilares da corrupção, mas com a maestria de não se afectar os caboucos e o império de todos os corruptos, não muda nada, pelo contrário, descredibiliza.

Mas, eles acreditam, qual intuição única (quem sabe divina) e rara de Angola e João Lourenço poderem vir a servir de exemplo, a muitos países e organizações internacionais, pela forma sóbria como levantam o chicote de asas de pombo (não pombos-correio), incapaz de agitar, sequer, as águas das sumptuosas piscinas, no interior das mansões dos delapidadores dos cofres do erário público.

As melhores universidades do planeta, obrigatoriamente, estimularão teses de mestrado e doutoramento, face à inovação, à forma, o objecto e os conceitos; corrupção; corruptos; branqueamento, sobrevivência e homossexualização do mal, com base nas novas definições do dicionário ideológico.

CORRUPÇÃO: é o acto do regime tapar o sol com a peneira da propaganda, acusando o “abstracto” de apossamento involuntário de dinheiro público, ao abrigo do peculato, mas carente de polimento;

CORRUPTO: é aquele que considera alegados serviços prestados ao país: nas forças armadas, na polícia, nos órgãos e partido do regime, como justificativa, para a posse de dinheiro ilícito, que deve ser repatriado ou branqueado, em contas por si tuteladas.

Nesta escabrosa engenharia, a exclusividade de jogadores corruptos, repousa na equipa do poder, campeã deste feito, desde 1975. Esse feito, que os deveria envergonhar, exalta-os a prosseguir, face à omissão e medo das populações que não se indignam, face aos desvarios de uma classe dirigente que perdeu o medo da vergonha.

E é com base na apatia popular, que a extrema direita, no poder, controlando os poderes legislativo e judicial, iliba e amnistia os crimes económicos, arquivando processos de quem roubou milhões e milhões e, na primeira esquina, recebe a garantia de poder branquear dinheiro sujo, ilicitamente abocanhado.

Os denunciados, serão, apenas e só, todos os caídos em desgraça, os filhos e familiares do antigo Presidente da República, apontado como o único responsável pela “Acumulação Primitiva do Capital”, logo, um alvo a abater, pelos inúmeros desvarios económicos e financeiros, que levaram o país, ao pântano da desgraça.

Mas isso acabará com a corrupção?

Não se crê, pela existência de várias classes de corruptos: os que roubaram e imobilizaram o dinheiro debaixo do colchão e nas mansões no estrangeiro; os que roubaram, mas investiram no país, gerando emprego e algum desenvolvimento, detendo o controlo de segmentos importantes da economia e os que continuam a roubar, desalmadamente, sem visão de país, colocando todo dinheiro, em bancos ou na bolsa internacional.

E, para tudo parecer de verdade, qual país de maravilhas e não uma reles república das bananas, cria-se uma comissão (devido à incompetência, será do ministro da comunicação social ou de outros, também), para cuidar, pasme-se, da higiene (imagem) dos membros de um governo, com cerca de um ano, justamente, no espírito e lógica da corrupção.

Bela atitude patriótica de como os “novos poucos” esbanjam, os biliões (mil milhões), em tempo de crise, que só afecta os 20 milhões de pobres, que nascem com fome, crescem com fome e morrem com fome, enquanto eles, corruptamente, falando, nada os afecta, face ao desfile de mordomias.

Uns recordarão a existência do Grecima, criado no consulado passado, que gastou milhões de dólares e, cujo acervo, transitou para a nova equipa lourencina.

Correcto. Mas é preciso gastar, outros milhões, mesmo que seja igual, nesta era, na lógica de fazer melhor, trocando seis por meia dúzia.

Acreditar, nesta engenharia não é crime, tal como duvidar não deixa de ter legitimidade republicana, ao ponto do jornalista Coque Mukuta, numa postagem, chegada ao meu correio, a propósito dessa comissão, diz: “a imagem do governo, está uma merda, porque o país está na merda. Branquear a imagem para quê, se nem carteiras para os meninos sentarem, o país tem…”

O combate, obrigatoriamente, começa na redução de despesas. É um contra-senso fretar-se um avião, para o Presidente da República ir pedir dinheiro, na Europa, quando dois aviões presidenciais, pagos com o dinheiro dos contribuintes, estão estacionados na Base Aérea Militar de Luanda.

Uma fonte do F8 atribui a não utilização por João Lourenço, por alegada superstição ou envenenamento, atribuído ao antigo titular. A ser verdade, e tudo aponta que sim, é brincar e desrespeitar dinheiro dos cidadãos pobres.

Só se combate, com eficácia a corrupção, se o(s) autor(es) se despirem, honestamente, da chave da ladroagem, reconhecendo os seus malefícios, no passado e no presente. O contrário é trilhar caminhos sinuosos…

No mundo, não existe, Presidente da República honesto e povo corrupto. Não existe povo corrupto e Presidente honesto, logo, combater este cancro, só com humildade, compromisso, frontalidade, sistema de justiça despartidarizado e auto censura do líder, para não parecer conversa para boi dormir…

No caso angolano, espero, não só o apontar de responsabilidade no antigo “ancião-presidente”, feito, no tempo (38 anos), ditador e senhor absoluto, bem como a sua prole, muitos, agora, caídos em desgraça, mas na assumpção do actual Presidente da República, no pedestal da humildade de um verdadeiro servidor público, empregado dos cidadãos, reconhecer como foi a sua convivência e cumplicidade, com o passado tenebroso.

Ele (passado) não volta, por isso serve de barómetro para novas práticas, exigindo-se que se respeite o verdadeiro patrão do país: os cidadãos soberanos. Não mais se deve deixar que um homem só, concentre o poder absoluto, para agir sem delimitação de poderes, como se fosse um pequeno deus, na terra.

Hoje e, para o futuro, para o bem e o mal, o MPLA será o grande responsável pela implantação de ditaduras corrosivas, no país, face à incapacidade de se democratizar, como que havendo, nos seus dirigentes, uma apetência natural para se converterem em detentores de poderes absolutos.

Seria importante, nesta fase, depois de 38 anos de poder absoluto de um homem só, José Eduardo dos Santos, o MPLA, apostar numa imagem de novo compromisso, com os cidadãos e o país, reconhecendo os erros do passado, mas apostando numa verdadeira revolução de cidadania, compromisso com o desenvolvimento, o emprego dos trabalhadores, uma justiça despartidarizada e a independência dos três poderes.

Se, Fernando da Piedade Dias dos Santos, Salomão Xirimbimbi, França Ndalu, Dino Matross, Paulo Kassoma, Jú Martins, Kundi Pahiama, Isaac dos Anjos, Marcolino Moco, Lopo do Nascimento, Carlos Feijó, Pitra Neto e outros, estivessem verdadeiramente comprometidos com a imagem do MPLA e o resgate da sua história, pugnariam por uma verdadeira libertação, iniciando um novo ciclo, onde a democracia seria o lema, para o navegar da liberdade de expressão interna, o controlo acirrado da transparência governativa, através da bancada parlamentar, que suporta o governo, mas não alinhada com práticas ilícitas e uma aposta seria de combate a todos os actos de corrupção.

Agindo em sentido contrário, correm o risco de, amanhã, serem considerados, pela história, como covardes, que nada fizeram para o soltar das grilhetas de um partido que não deveria continuar a defraudar os angolanos e o país.

Diante de tantas hesitações, torna-se difícil acreditar num verdadeiro combate à corrupção, quando, quem deveria dar o exemplo, como líder, Presidente da República, gerado no interior da selvagem e ilícita “Acumulação Primitiva do Capital”, não sobe ao pedestal da sua magistratura para, publicamente, apresentar a declaração do seu património, imóvel, móvel e financeiro, no país e no estrangeiro.

Com este gesto, se realizado, penitenciar-se-ia diante dos cidadãos, reconheceria, ou não, a forma ilícita ou lícita como obteve e construiu o seu império, comprometendo-se a não mais trilhar rotas lamacentas, propondo-se mesmo em restituir, parte do ilícito, reduziria o seu salário mensal, acabaria com o excesso de mordomias, limitaria o séquito de segurança, etc..

Assim desafiaria os demais membros do seu gabinete a seguirem-lhe as peugadas, credibilizando-se uma cruzada, que deve ser geral e abstracta, ao invés de visar determinadas pessoas, como se o actual regime, não fosse parido das mesmas entranhas ideológicas.

A podridão está no sistema instituído, desde 1975, logo, carente de uma verdadeira reforma constitucional, onde a mola mestra terá de ser, no imediato, a criação de uma nova bandeira, de um hino apartidário, uma moeda nacional, imparcial, a despartidarização dos tribunais superiores: Supremo; Constitucional; de Contas; Eleitoral (num futuro próximo), institucionalizando-se, eleições, junto dos cidadãos e do poder legislativo, dos juízes, para se conformarem como órgãos de soberania.

Ademais, sem essa lufada de cidadania geral, capaz de esbater a predominância partidocrata, não haverá alteração do paradigma da corrupção nas instituições do poder do Estado, a nível central, provincial, municipal, comunal e de sanzalas, instituído, pelo comité central do MPLA, aos 10 de Novembro de 1975, que falando em nome do povo, uma parte da elite dirigente se desviou da ideologia de esquerda social e de mercado, ao institucionalizar, sub-repticiamente, a corrupção, com a instauração das famosas lojas do povo e as lojas dos dirigentes.

Isto prova, não existir na política coincidências e nada é inocente, logo este cancro sempre existiu. Em menor escala é verdade, mas desde o início estava no ADN de alguns dirigentes bem identificados do MPLA. Muitos, ainda se lembram dos esquemas que se faziam, corrompendo este e aquele, para se conseguir um cartão da loja dos dirigentes, para se ir comprar fiambre, queijo ou outras iguarias inexistentes nas lojas do povo.

Sem o assumir do passado, por todos, não se combaterá a corrupção, mas sim, far-se-á a substituição de seis por meia dúzia.

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