O presidente do MPLA e ex-chefe de Estado angolano, José Eduardo dos Santos, anunciou hoje a realização de um congresso extraordinário para “resolver” a liderança no partido, a convocar para Dezembro deste ano ou Abril de 2019.

O anúncio foi feito hoje, pelo líder do MPLA, no discurso de abertura da 5.ª sessão ordinária do Comité Central, que decorre no Complexo Turístico Futungo 2, em Luanda.

A reunião acontece numa altura em que vários militantes (sobretudo aqueles que estão sempre do lado de quem lhes parece mais forte) criticam abertamente a alegada bicefalia no partido no poder em Angola desde 1975, entre João Lourenço, vice-presidente do partido e chefe de Estado desde Setembro, e José Eduardo dos Santos a liderar o MPLA desde 1979.

Durante a intervenção, José Eduardo dos Santos, que foi chefe de Estado em Angola durante 38 anos e não concorreu às eleições gerais de Agosto passado, recordou que se comprometeu a envolver-se “pessoalmente” no grupo de trabalho que ao longo de 2018 vai “preparar a estratégia” do MPLA para as primeiras eleições autárquicas em Angola.

“Assim, recomendo, por ser mais prudente, que a realização do congresso extraordinário do partido, que vai resolver a liderança do MPLA, seja em Dezembro de 2018 ou Abril de 2019”, disse, sem adiantar mais pormenores sobre este processo.

Numa altura em que o MPLA está a fazer uma purga interna, contando-se as espingardas e em que as bestas de ontem querem ser agora bestiais e os bestiais de hoje temem passar a bestas, não é novidade que estatutariamente José Eduardo dos Santos deveria ser presidente do partido até 2021.

João Lourenço, não só como vice-presidente do partido mas como Presidente da República, quer cuspir no prato que o alimentou durante décadas por ordem de Eduardo dos Santos. Está no seu direito. Poderia, no entanto, assumir que é ele que está a comandar a rebelião, não endossando esse ónus para os seus subalternos.

Recorde-se que compete, em especial, ao Presidente do MPLA dirigir a execução da política e da estratégia geral do Partido; fazer observar o cumprimento das leis e dos princípios e das resoluções do Partido, dirigir as relações internacionais do Partido; propor, ao Bureau Político (do qual é presidente), os candidatos ao cargo de Presidente do Grupo Parlamentar do MPLA e propor a composição orgânica e nominal do Executivo; preparar e apresentar, ao Comité Central e aos eleitores, o programa e o manifesto eleitorais.

Está mal? Talvez esteja. Mas foi com estes parâmetros orgânicos que João Lourenço aceitou ser cabeça-de-lista às eleições. No entanto, chegado ao poder resolve movimentar os seus sipaios para ser ele Presidente do MPLA.

Vejamos, para além do óbvio, se for possível (se não for o óbvio também é interessante) o que sua majestade o rei, na qualidade de presidente do partido que domina o país desde 1975, disse durante o VII congresso do MPLA.

“Mostrar que este MPLA é o grande partido da família angolana. Ele está assim preparado para o combate político, para ganhar as próximas eleições e para continuar a governar a República de Angola, correspondendo aos anseios das populações”, disse Eduardo dos Santos, acrescentando que “não devemos permitir que as nossas diferenças políticas sejam aproveitadas por forças externas para dividir e pôr em causa a paz duramente conquistada. Temos de ser capazes de prevenir eventuais acções subversivas, para manter a nossa soberania, a paz e a estabilidade, reforçar a nossa democracia e trabalhando no sentido de fazer prosperar a nação angolana”.

O “querido líder”, na sua versão de “escolhido de Deus”, disse ainda (aplaudido, obviamente, por todos e inclusive – pudera! – por João Lourenço) que “há que apoiar mais os empresários com provas dadas em eficácia, responsabilidade e mais comprometidos com o futuro do país. Portanto, bons patriotas. Apoiar também os empresários que sabem realizar licitamente os seus negócios no mercado interno e externo, para conquistarem riqueza e contribuíram para aumentar o emprego e fazer crescer a economia”.

Num discurso hilariante e digno de figurar emblematicamente nos maiores anedotários internacionais, José Eduardo dos Santos esclareceu, com reconhecido conhecimento de causa, que “não devemos confundir estes empresários com os supostos empresários que constituem ilicitamente as suas riquezas, recebendo comissões a troco de serviços que prestam ilegalmente a empresários estrangeiros desonestos, ou que façam essas fortunas à custa de bens desviados do Estado ou mesmo roubados”.

“Angola não precisa destes falsos empresários, que só contribuem para a sua dependência económica e política de círculos externos”, acrescentou o dono disto tudo, mostrando que sabe muito bem como é que o seu clã familiar e afins enriqueceram.

A eleição (esta palavra é só por si, no contexto do MPLA, uma anedota) de José Eduardo dos Santos para a presidência do MPLA mostrou que continuava a ter sob o chicote uma manada fiel de castrados, acéfalos e invertebrados sipaios. Mas, como em tudo, rei morto, rei posto.

Antes, na abertura da 11.ª reunião ordinária do Comité Central do MPLA, convocada para preparar o congresso do partido, que serviu também para preparar as candidaturas às eleições gerais de 2017, José Eduardo dos Santos anunciou que pretendia deixar a vida política activa. Bastava-lhe ser Presidente do MPLA… até 2021.

2021? Enganou-se. Os novos “turcos” (com o apoio dos velhos “turcos”) do MPLA querem sangue. Uns por terem uma vontade sincera de mudança, outros porque esperam que a mudança seja sinónimo de branqueamento do seu tenebroso passado, outros porque são diplomados em bajulação de quem está no poder.

“Em 2012, em eleições gerais (não nominais, diga-se), fui eleito Presidente da República e empossado para cumprir um mandato que nos termos da Constituição da República termina em 2017. Assim, eu tomei a decisão de deixar a vida política activa em 2018″, anunciou José Eduardo dos Santos.

A decisão do Presidente José Eduardo dos Santos de abandonar a vida política activa em 2018 é daqueles acontecimentos da dimensão dos grandes criminosos mundiais. São importantes porque têm um grande significado e um efeito transformador na lavagem da sua conspurcada imagem. Além disso, em termos práticos, deixa de pagar o ónus de ser o executor mas mantém o poder de mandar executar.

Tudo leva a crer (mesmo que votando em força nos partidos da oposição), que de nada serve lamentar os efeitos óbvios dessa opção ditatorial. Tal como funciona parte importante dos nossos tribunais que, por ordem superior, determinam a sentença e só depois fazem o julgamento… eles é que sabem.

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