Depois de Trump, nos Estados Unidos da América, ter ganhado a eleição presidencial à democrata Hillary Clinton num pleito eivado de “fake news”, e como se não bastasse essa vitória para nos apercebermos do impacto desta táctica propagandística numa democracia, eis que no Brasil um descarado racista e homofóbico chega à presidência fazendo propaganda falsa mas com maior agressividade.

Por Sedrick de Carvalho

O movimento mundial de levar ao poder indivíduos da extrema-direita elegeu a propaganda falsa como forma de atingir os seus objectivos sem escrúpulos, como ocorre sucessivamente na Hungria em que o primeiro-ministro Viktor Órban tem vencido desde 2010.

Steve Bannon, apontado como o manipulador do ressurgimento do movimento de extrema-direita, permanece à sombra trabalhando a psicologia humana do ódio.

Adolf Hitler dedicou atenção especial à psicologia humana no seu projecto de arianização mundial e de solução final à questão judaica. No seu «Mein Kampf» (A minha luta, em alemão. Lisboa, editora Guerra & Paz, 2016), este livro de culto ao ódio, Hitler dá um capítulo especial à propaganda e organização. Trata-se do 11º Capítulo.

Quando entrou no Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães (NSDAP, na sigla em alemão), em 1921, um partido sem expressão à altura, Hitler logo assumiu a direcção de propaganda porque acreditava ser o mais importante de todos naquele momento.

A estratégia passava por conquistar “o material humano necessário” (p. 410) para a área organizativa do partido. Esse “material humano” é escolhido a partir da massa de simpatizantes das ideias propagadas durante certo tempo.

Um dos temas muito usado como ideia-chave para colher simpatizantes para a extrema-direita é a migração. O imigrante transformou-se em alvo de ódio ao ser apontado como o causador das crises económicas e insegurança pública, em que se coloca o terrorismo.

É assim que temos um simpatizante das ideias racistas, homofóbicas, fascistas, e com delírio messiânico chegar ao poder no Brasil. Jair Bolsonaro (também Messias de nome) é um destes simpatizantes que passa à organização porque tem potencial para propagar os princípios da extrema-direita, e não por ser um ideólogo. E Hitler apontava para esse tipo de “material humano” de importância ao movimento ao qual chamava de “combatente”.

“Quando um movimento tem como finalidade demolir uma situação existente para reconstruir, no seu lugar, um mundo novo, é preciso que os seus líderes estejam todos de acordo sobre os seguintes princípios: cada movimento deve dividir a massa humana conquistada para a causa em dois grandes grupos: simpatizantes e combatentes” (p. 411).

Não sendo um líder nem teórico, Hitler colocaria Jair no lugar de “um agitador capaz de comunicar uma ideia à grande massa […] mesmo que ele não seja senão um demagogo” (p. 410), e tem a tarefa de alistar novos simpatizantes, “dos quais então se podem recrutar novos combatentes” (p. 411).

É a propaganda que se encarrega da “destruição do actual estado de coisas e a disseminação da nova doutrina” (p. 412). Por estado de coisas poderíamos entender várias questões, mas coloquemos a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Cada vez mais a extrema-direita abomina os direitos humanos, e nisto o movimento no Brasil é uma amostra. A “nova doutrina” entende que direitos humanos não enchem a barriga e apenas protegem bandidos dos subúrbios.

Apresentam relatórios de organizações como a Amnistia Internacional no que concerne às execuções extra-judiciais e o sistema carcerário em vários países, extremamente degradante para o preso e por isso exigem cumprimentos das convenções voluntariamente ratificadas pelos Estados. Deste trabalho elaboram “fake news” dizendo que os defensores dos direitos humanos estão ao serviço dos bandidos. Porém, não interessa ao movimento divulgar que a mesma organização tem relatórios sobre as condições laborais dos agentes prisionais e da polícia em geral, ou de que a Transparência Internacional tem denunciado actos de corrupção de governantes. Trata-se de “abalar as crenças em voga” (p. 412).

Sobre os princípios, Adolf disse exactamente o seguinte: “A organização deve recrutar do primitivo núcleo do movimento não somente os homens que devem ocupar todas as posições importantes no terreno conquistado, mas também os da direcção geral, e isso deve durar até que os actuais princípios e doutrinas do partido se transformem na base do novo Estado. Só então poderá passar, aos poucos, o governo a ser dirigido pela nova constituição, nascida do espírito do movimento” (p. 413).

Desta directiva podemos perceber o papel de Sérgio Moro, juiz agora super-ministro da Justiça brasileira, na transformação do espírito do movimento de extrema-direita em princípios constitucionais do Estado.

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