Portugal parece ter descoberto, ontem e hoje, em Luanda, que em matéria africana vai nu. Mas vai nu há já muito tempo. Há mais de dez anos que nós, aqui no Folha 8, afirmamos isso mesmo. No entanto, honra lhe seja feita, foi preciso João Lourenço ir à Europa sem incluir Portugal, para que os políticos de Lisboa acordassem. Se é que acordaram mesmo.

Por Orlando Castro

“O problema é que durante muito tempo Portugal olhou só para a Europa e o Brasil olhou para o mundo inteiro”, disse em tempos (na altura ainda era bestial e não besta) o ex-presidente brasileiro, Lula da Silva, numa lapidar interpretação sobre o país que deu luz ao mundo mas que passou a sobreviver à luz de um candeeiro apagado.

Na nossa perspectiva (repetida vezes sem conta ao longo dos anos), Portugal está há muito tempo (há demasiado tempo) adormecido com o sonho europeu, esquecendo que a sua História está também e sobretudo em África. Ou seja, o presente (já com cheiro a passado e que deveria, esse sim, estar no museu) é em Bruxelas mas o futuro será certamente em Luanda ou Maputo.

Quando Lisboa acordar vai ter um enorme pesadelo. De uma forma geral, Portugal continua a valorizar o acessório e a subestimar o essencial, seja qual for o governo. Por isso, julga que o idioma (eu a língua, se se preferir) é algo que não precisa de ser alimentado, que não precisa de ser valorizado.

É pena. A tal Lusofonia já não precisa de retrovisor para ver os seus principais concorrentes. Eles, a Francofonia, a Commonwealth, a “Chinofonia”, já estão muito à frente. Muito mesmo.

Em vez de se potenciar a língua como o principal elo de ligação, como factor decisivo de todas as outras vertentes da sociedade globalizada, Portugal pensa que essa é uma vitória eterna. E não é. Apercebendo-se que não é, Lisboa optou no caso de Angola por uma estratégia de bajulação e subserviência, “reivindicando” um estatuto de protectorado. Luanda diz que sim mas vem negociando a sério com outros, da Alemanha à Rússia, da França à China.

No seio da Europa, Portugal não está a crescer. Está a aguentar-se mal e, embora ainda não assinada, a certidão de óbito já está passada. Apenas isso. E até mesmo em matéria cultural poderia dar, ou voltar a dar, luz ao mundo. No entanto continua a olhar para o umbigo.

Nas comunidades de origem portuguesa, as novas gerações pouco ou nada falam português. Nos PALOP (Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa) assiste-se ao legítimo proliferar dos dialectos locais e ao galopante êxito do inglês. O Português tenderá (se nada for feito, se tudo continuar na mesma) a ser apenas uma língua residual.

Ao contrário do que fazem franceses e ingleses, os portugueses têm por hábito deixar para amanhã o que deveriam ter feito anteontem.

Não existe, na língua como noutros sectores, uma conjugação estratégica de objectivos. Cada um rema para o seu lado e, é claro, assim o barco comum (a Lusofonia) não chega a nenhum porto. Há projectos sobrepostos, e muitas áreas onde ninguém chega. Ninguém não é verdade. Chegam os ingleses, os franceses, os norte-americanos, os chineses.

A CPLP (Comunidade de Países de Língua Portuguesa) deveria ser o organismo que, por excelência, poderia divulgar a língua. Está, contudo, adormecida. Quando acordar verá que a Lusofonia já morreu…

É claro que o futuro de Portugal passa necessariamente por África. Acontece que, nesta altura, a União Europeia mas sobretudo a Alemanha continua a ditar as regras. E, ao contrário de outros tempos, Lisboa não está interessada em dar luz ao mundo. Ao contrário de muitos outros países que estão na UE mas também em África. Mas não só.

Ou seja, a China, por exemplo, está a preparar muitos dos seus melhores quadros para que dominem a língua portuguesa. Fazem-no para conquistar os mercados lusófonos. Nada mais do que isso.

De uma forma geral, todos (mais uns do que outros, importa dizê-lo) continuam à espera que o burro aprenda a viver sem comer. Mas, quando olharem para o lado, vão ver que quando o burro estava quase a saber viver sem comer… morreu.

Acresce que Portugal ainda não percebeu que foi o «pai» mas que os «filhos» já são independentes. Os países africanos ainda não compreenderam que o «pai» errou em muitas coisas mas que não é por isso que deixou de ser «pai».

A Lusofonia, essa realidade que em muito ultrapassa os 250 milhões de cidadãos em todos os cantos do planeta, parece condenada a ser ultrapassada, ou até mesmo aniquilada. Parafraseando Luís de Camões, em português se canta(va) o peito ilustre lusitano e, na prática, importa recordar que a ele obedeceram Neptuno e Marte. Além disso, importa dizê-lo, manda cessar (se para tal todos os lusófonos tiverem engenho e arte) «tudo o que a Musa antiga canta».

Quando será que, de forma consciente e consistente, Portugal entenderá que «outro valor mais alto se alevanta»? Por culpa (mesmo que inconsciente) dos poucos que não vivem para servir e que, por isso, não servem para viver, continuam os milhões que se entendem em português a comer e a calar, amordaçados pela mesquinhez dos que se julgam detentores da verdade.

É claro que, como em tudo na vida, não faltarão os que dirão que não é possível entregar a carta a Garcia. Dirão isso e, ao mesmo tempo, apontarão a valeta mais próxima.

A História do Mundo desmente-os. A História de Portugal desmente-os. Além disso, não custa tentar o impossível, desde logo porque o possível fazemos quase todos nós todos os dias. Mas não será com esses que se fará a História da Lusofonia apesar de, reconhecemos, muitos deles teimarem em flutuar ao sabor de interesses mesquinhos e de causas que só se conjugam na primeira pessoa do singular.

Para nós a Lusofonia deveria ser um desígnio de todos os que falam português, a começar por Portugal. Defender esta tese é, provavelmente, pregar para os peixes. Mas vale a pena continuar a lutar. Lutar sempre, apesar da indiferença de (quase) todos os que podiam, e deviam, ajudar a Lusofonia. Será desta? Não cremos. Até agora continuam a ser mais os exemplos dos que em vez de privilegiarem a competência preferem a subserviência.

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