A Arte Africana exprime usos e costumes dos seus diferentes povos. O objecto de arte é funcional, criado para ser utilizado, ligado ao culto dos antepassados, profundamente marcado pelo espírito religioso. A presença da figura humana identifica a preocupação com os valores étnicos, morais e religiosos.

A Europa acordou (isto é como quem diz) para o teatro de marionetas africano a partir do fim do século XIX, através dos exploradores e administradores coloniais. Existem, no entanto, referências bem mais antigas da sua longa existência. No século XIV, um viajante árabe refere-as no Mali. No século XVII são referidas no Congo.

A tradição oral, de grande importância no que diz respeito ao conhecimento de Africa, refere-as, entrecruzando-as com os mitos, os contos, as lendas: criaturas de madeira ou argila que se animam, causando paixões avassaladoras, e que regressam ao seu estado original de árvores ou lama. E ainda hoje os marionetistas africanos “mergulham” voluntariamente a sua dependência neste universo onírico. O carácter mágico que se observa num grande número de espectáculos parece estar directamente relacionado com esta tradição oral.

Objectos transitórios entre o estado vivo e o estado morto, as marionetas estão presentes nos mitos que explicam as suas origens. São raízes sobrenaturais as das marionetas, o que permite compreender melhor as restrições ou proibições que habitualmente as envolve: não devem ser vistas fora do espectáculo, nem por uma mulher, por uma criança ou por homem não iniciado. Um ritual e, por vezes, um sacrifício, podem anteceder a escultura de uma marioneta e/ou o espectáculo.

Segundo a tradição oral, a marioneta aparece ao mesmo tempo que o sonho, em primeiro lugar o mito, na lenda, no conto. Colocada fora do tempo real, as suas raízes mergulham no mais profundo imaginário. Encontrada em diversos locais ao mesmo tempo, este nascimento insólito foi explicado de diversas formas, mas com uma certeza: contrariando a teoria que a fazia nascer de uma aculturação proveniente da época colonial, a marioneta africana é uma realidade antiga.

Um mito ibibio, sul da Nigéria, revela que o teatro de marionetas é originário do país dos mortos, mundo subterrâneo onde regularmente se realizam essas representações. Um homem, vivo, que desceu aos defuntos assistiu a um desses espectáculos; quando regressou ao mundo dos vivos, ensinou-lhes essa arte e, por o ter feito, morreu.

Em Angola, outra lenda: morre uma mulher; quando vai ser enterrada, o cadáver ganha vida e começa a falar. A ressuscitada regressa à aldeia, vai a casa do escultor e apodera-se de uma estatueta que impregna de substâncias mágicas. Assim preparada, a figura ganha vida e começa a produzir as imagens que revelam as coisas escondidas. Torna-se vidente.

Na Guiné, a marioneta começa com o aparecimento de um misterioso objecto falante encontrado na água. Uma “fazedora de potes” leva-o consigo para a aldeia para a mostrar às mulheres idosas. A aldeia reúne-se, mas o objecto não fala mais. Mandam-se sair os homens e aí o objecto diz que lhe falta o marido, que ficou na água.

No Malawi, um homem sem descendentes esculpe duas estatuetas em barro que, uma noite, ganham vida e começam a agir como pessoas; até que, após desobedecerem e saírem para a rua, são apanhadas por uma enorme chuva e regressam ao seu estado original de argila.

No Mali, o aparecimento da marioneta é atribuída aos génios da floresta, que levaram consigo um pescador bozo. Durante a estadia com os génios, o homem ter-se-á familiarizado com esta arte desconhecida, que divulga no regresso a casa.

A marioneta tradicional está presente em todos os momentos importantes da vida social: ritos de iniciação e fertilidade, culto dos antepassados, ritos funerários, celebrações dos ciclos agrários, comemoração das chegada das chuvas. Chegam a ser utilizadas como auxiliares de justiça. Noutros casos, a marioneta acompanha o curandeiro e participa no diagnóstico. Manipulada por um adivinho, ela prediz o futuro e aconselha o consultante sobre a estratégia a seguir. A sua acção pode ser igualmente maléfica, quando se encontra nas mãos de um feiticeiro.

Instrumento pedagógico por excelência, as marionetas são mostradas aos adolescentes por anciãos, como meio de transmissão da sabedoria ancestral. Desempenham igualmente um papel na sexualidade, na fertilidade.

Nalgumas sociedades rurais a marioneta veicula uma crítica social extraordinariamente eficaz. É uma mediadora entre o homem e a natureza, sendo usada por exemplo nos períodos de seca. Simultaneamente, é quase sempre provocadora de riso, através da sátira, testemunhando uma alegria de viver sem par.

Estes aspectos diferenciados do marionetismo tradicional em África fazem realçar a sua complexidade e o carácter único.

Em português, marioneta significa boneco que se move por cordéis e engonços. Pessoa subserviente, sem carácter, facilmente manipulável.

Nota: Texto baseado em grande parte num trabalho publicado no site do Museu da Marioneta (Convento das Bernardas, em Lisboa, Portugal).

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