A Economist Intelligence Unit (EIU) considerou hoje que as reformas em curso em Angola são positivas para a economia, mas alertou que enquanto não surtirem efeito, o país vai continuar vulnerável às variações nos preços do petróleo. Ou seja, marimbondos, traidores e “esvaziadores” de cofres continuam a ajudar João Lourenço a coleccionar desculpas.

“A pesar de os anúncios de reformas parecerem positivos, tal com o é positivo o empenho de João Lourenço em combater a corrupção, continua por se ver quão séria é a agenda de reformas”, escrevem os peritos da revista britânica The Economist, acrescentando que “no curto a médio prazo, Angola vai continuar altamente vulnerável a mais choques no preço do petróleo”.

Por outras palavras a ementa do Governo tem produtos variados, pratos de alta qualidade, cozinheiros mundialmente afamados. No entanto, na cozinha só existe um prato para servir aos angolanos: peixe podre, fuba podre. Quem refilar… porrada neles.

Na análise ao Orçamento do Estado para 2019, que será votado (forma eufemística de dizer aprovado) em Dezembro na Assembleia Nacional do MPLA, a EIU escreve que “as iniciativas de reforma vão provavelmente ajudar Angola a diversificar a sua economia, aumentando a produção interna, incluindo na manufactura e na agricultura, e reduzir a dependência do país das importações”.

O problema, apontam, é que “vai demorar até que os efeitos dessas iniciativas se façam sentir”, e Angola deverá enfrentar este ano uma nova recessão económica, com a economia a contrair-se 1,1%, o que representa uma forte revisão face aos 4,9% de crescimento inicialmente previstos pelos peritos dos peritos do Governo do MPLA.

“O crescimento em 2019 vai seguir-se a três anos consecutivos de recessão, com a economia a ter caído 2,6% em 2016 e 0,1% em 2017, de acordo com os últimos números do Governo”, escrevem os analistas, acrescentando que “a perspectiva mais conservadora de evolução da economia para 2019 [com uma previsão de crescimento de 2,8%] reflecte uma postura mais prudente do Governo, que no passado tem tido uma tendência para fazer previsões demasiado optimistas, criando expectativas orçamentais irrealistas e que resultavam em receitas aquém do orçamentado”.

A EIU sublinha que, pela primeira vez, Angola planeia gastar mais em educação e em saúde, com 7% e 6%, respectivamente, do que nos serviços de segurança e defesa, que vão – supostamente – receber 9% do orçamento.

A maior despesa, no entanto, continua a ser o serviço da dívida, que passou de 35% em 2013 para ultrapassar os 70% do Produto Interno Bruto no ano passado e que representa 48% das receitas do Executivo, descendo de 52%, no ano passado, segundo um orçamento que coloca o preço do barril do petróleo nos 68 dólares e prevê que o país consiga bombear 1,67 milhões de barris por dia.

Na análise ao Orçamento, a EIU aponta ainda como positivo o aumento, em cinco vezes, da despesa reservada à agricultura, “particularmente importante para Angola”, e que “indica que o Governo está a falar a sério sobre o investimento nos sectores produtivos, apesar de a percentagem deste sector no total da despesa ficar-se por uns decepcionantes 1,6%”. “Decepcionantes”, registe-se.

Recorde-se, entretanto, que o departamento de estudos económicos do Banco de Fomento Angola (BFA) antecipa (sem, como mandam as ordens superiores, o aval da equipa de João Lourenço) que só em 2019 a economia deve estagnar ou recuperar ligeiramente. Isto é, a recessão deve rondar os 4% este ano e, talvez, em 2019 a economia deve estagnar.

“2018 está a ser um ano de declínio económico duro, de 6% no primeiro semestre, e olhando para as exportações petrolíferas programadas até final do ano, o Produto Interno Bruto petrolífero deverá cair 8 a 9% este ano, e o não petrolífero já caiu 5% nos primeiros seis meses; um aumento da produção da economia não petrolífera no segundo semestre acima da média, mas alcançável, ainda assim faria com que o PIB caísse cerca de 4% no conjunto do ano”, escrevem os analistas.

De acordo com uma análise à presidência de João Lourenço e às perspectivas económicas do país, enviada aos investidores, os analistas liderados por José Miguel Cerdeira escrevem que “a principal conclusão do primeiro ano de mandato é que, apesar de um cenário muito desafiante, o Governo de João Lourenço teve um desempenho relativamente bom até agora, ao mesmo tempo que embarcava numa viagem reformista”.

No entanto, acrescentam logo a seguir, “as perspectivas sobre a produção petrolífera no futuro mostram uma estrada difícil, enquanto um esforço continuado para mudar o ambiente económico é muito necessário”.

João Lourenço assumiu a Presidência de Angola no final de Setembro do ano passado, depois de uma queda do PIB de 2,5% em 2016, tendo tido uma ligeira quebra de 0,15% no ano passado, que resultou de uma “aceleração na economia não petrolífera, que cresceu 3,1%. Este ano, no entanto, o panorama agravou-se, tendo a economia registado uma recessão de 6% no primeiro semestre, motivada pela quebra de 8 a 9% no PIB não petrolífero e uma contracção de 5% na economia não petrolífera”, dizem os analistas, vincando que, assim, “uma recessão pior que a de 2016 é altamente provável”.

Na análise do BFA, 2019 será o ano de viragem, em que a economia “deverá começar a recuperar, embora não seja ainda clara a força da recuperação; é certo que, com a entrada de novos poços de petróleo em exploração, a economia petrolífera certamente não cairá tanto como em 2018”, sendo até possível, mas não provável, um aumento da produção no próximo ano.

“O futuro a muito curto prazo é sombrio, particularmente levando em linha de conta que as taxas de crescimento real podem muito bem continuar abaixo do crescimento da população no futuro, e até no médio prazo a economia petrolífera não vai sustentar o crescimento, e a diversificação precisa de ser uma realidade o mais cedo possível”, dizem, acrescentando que “o processo de reformas, que começou num ritmo muito saudável e surpreendente, deverá ser mantido no âmbito de um acordo com o FMI”.

No entanto, concluem, “há várias questões ainda em aberto, e a estrada vai ser difícil para este Governo”.

Folha 8 com Lusa

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