Os chefes da diplomacia portuguesa e angolana (ou seja, do PS e do MPLA) falaram hoje para iniciar a preparação da visita do primeiro-ministro português, António Costa, a Luanda, que é um “objectivo totalmente prioritário”, anunciou o ministro dos Negócios Estrangeiros português no Parlamento.

Por Óscar Cabinda

Por esclarecer está quem integrará a comitiva de António Costa, mas seria justo que a mesma integrasse, pelos altos serviços prestados a Angola – e a bem da Nação como dizia Salazar – no âmbito da separação de poderes à moda de Portugal, os juízes Cláudio Ximenes e Manuel Almeida Cabral.

“Tive o gosto de, há uma hora e meia, falar por telefone com o ministro dos Negócios Estrangeiros de Angola, doutor Manuel Augusto, para prepararmos entre as nossas equipas a próxima visita do primeiro-ministro a Luanda”, disse Augusto Santos Silva, durante uma audição na comissão parlamentar de Negócios Estrangeiros e Comunidades Portuguesas.

Depois de o Presidente angolano, João Lourenço, ter “dado o gosto” de receber, esta segunda-feira, o ministro da Defesa português, José Azeredo Lopes, em visita oficial a Luanda, “houve agora este contacto para que, ao nível das embaixadas, possamos concretizar esse objectivo, que é agora totalmente prioritário”, acrescentou.

Além da deslocação de António Costa a Luanda, que chegou a estar prevista para o ano passado, os dois países deverão também retomar a revisão do programa executivo de cooperação e tratar da agenda bilateral, “que é muito rica”.

Era inevitável. Tal como disse no tempo de José Eduardo dos Santos, Augusto Santos Silva, mesmo sem ir a banhos em Luanda, está mandatado para pela enésima vez dizer aos matumbos do seu país que as relações entra o PS (ele chama-lhe Portugal) e o MPLA (ele chama-lhe Angola) são “normais e bem consolidadas”.

“O relacionamento histórico e cultural é tão estreito que é verdadeiramente nele que devemos atentar e construir a relação entre as nossas sociedades e os nossos Estados”, considerou o perito dos peritos socialistas e similares do governo de Lisboa.

Isto foi dito por Augusto Santos Silva em Luanda, onde estava a acompanhar o Presidente da República portuguesa por ocasião da cerimónia de posse, de João Lourenço que, aliás, tinha recebido felicitações de Marcelo Rebelo de Sousa pela vitória mesmo antes de os resultados oficiais serem divulgados.

Questionado, nessa altura, sobre críticas do vice-presidente da UNITA (maior partido da oposição em Angola), Raúl Danda, de que Portugal “verga sempre” perante as exigências de Luanda, o ministro disse que o Governo português “não tem de responder a partidos políticos estrangeiros”. Além disso, ao contrário do MPLA, a UNITA não pertence à Internacional Socialista. Além disso, lá bem no íntimo, Santos Silva considera que a UNITA nem sequer é um partido formado por angolanos.

“Quer em Portugal quer em Angola, há quem entenda que há demasiada distância entre os dois países, há quem entenda que há demasiada cumplicidade, há quem entenda que há demasiada indiferença e há quem entenda que há demasiado relacionamento. Isso caracteriza mais as pessoas que emitem essas opiniões do que o estado das relações bilaterais e o comportamento dos dois Estados e dos dois Governos”, sustentou Santos Silva.

Santos Silva ou… Santos Silva

Depois da fase em que assumiu o papel de educar das classes operárias e ignorantes, começando pelos professores que não sabiam (agora sabem cada vez melhor) a diferença entre Salazar e os democratas, Augusto Santos Silva mostrou ser um fiel seguidor de José Sócrates.

Será que não consegue pôr os juízes Cláudio Ximenes e Manuel Almeida Cabral a decidir o Processo Marquês? Será que não consegue que o processo que envolve José Sócrates seja transferido para Luanda?

Recorde-se que uma das suas grandes obras, que importa agora recordar quando atiram o odioso da questão só para cima de José Sócrates, foi meter na ordem os jornalistas… também e sempre a bem de uma comunicação social moderna, livre e dinâmica. E meteu-os de forma profissional e sem o amadorismo.

Visto (sobretudo em parte do seu círculo partidário) como um homem competente e com grande capacidade de trabalho, Augusto Santos Silva foi considerado um dos ministros mais “políticos” dos governos de José Sócrates.

É claro que competência significa no dicionário socialista a capacidade para malhar em todos os que pensam de maneira diferente. Por isso Santos Silva associou, em Janeiro de 2006, a eleição de Cavaco Silva, “o candidato apoiado pela direita”, a uma tentativa de “golpe de Estado constitucional”. Recordam-se?

Santos Silva foi, aliás, eleito director do Acção Socialista, o órgão oficial do PS, sendo responsável na direcção partidária por toda a imprensa do partido. Isto para além, é claro, de toda a outra restante imprensa onde, em muitos casos, punha e dispunha… mesmo depois de ter passado para a pasta da Defesa.

Especialista em tudo, Augusto Santos Silva foi ministro da Educação entre 2000 e 2001, depois de ter sido secretário de Estado da Administração Educativa entre 1999 e 2000, e assumiu a pasta da Cultura entre 2001 e 2002. Como se vê…

Como se vê, alguns jornalistas meteram-se com os donos da verdade e do poder e foram para o olho da rua. Alguns empresários tiveram a ousadia de dizer umas tantas verdades ao chefe do posto e o resultado foi, sem apelo nem agravo, ver as suas empresas passadas a pente fino por todas as investigações possíveis e imaginárias.

Se calhar foi por isso que se deixaram de ouvir críticas como as que fez o ex-patrão do grupo Jerónimo Martins que disse que a crise estava a ser agravada pela “demagogia que o senhor primeiro-ministro (José Sócrates) está a empregar neste momento e que é absolutamente intolerável”.

Segundo Alberto Martins, na altura líder parlamentar do PS e depois ministro da Justiça, “o PS tinha a seu favor um património muito grande” porque foi “fundador da democracia”.

“Nunca como hoje temos condições de debate democrático”, sustentou em Setembro de 2009 Alberto Martins, passando ao lado de nunca como nesses tempos ter havido tantos jornalistas incómodos despedidos e tantos propagandistas transformados em jornalistas…

Sempre que questionado sobre uma futura visita de António Costa a Angola, Santos Silva repete que Lisboa e Luanda “consideram que é muito importante uma visita do primeiro-ministro português a Angola, e também que são muito importantes visitas das mais altas entidades angolanas a Portugal”.

As relações entre Portugal e Angola esfriaram, depois de Luanda ter condenado notícias da imprensa portuguesa sobre a constituição como arguido do então vice-presidente angolano, Manuel Vicente, por corrupção activa enquanto Presidente da Sonangol. Recorde-se que o regime do MPLA não brinca em serviço e, por isso, Angola é um dos países mais corruptos do mundo, o que lhe faculta toda a autoridade moral e ética para falar desta matéria.

Numa reacção sobre o assunto, em Fevereiro de 2017, o Governo angolano considerou “inamistosa e despropositada” a forma como as autoridades portuguesas divulgaram a acusação, alertando que essa acusação ameaçava as relações bilaterais.

No mês seguinte, o então ministro da Defesa angolano e candidato do MPLA às eleições (antecipadamente ganhas), João Lourenço, exigiu “respeito” das autoridades portuguesas às “principais entidades do Estado angolano”, admitindo que as relações bilaterais estavam “frias”.

Na sequência deste facto, ficou adiada “sine die”, a pedido de Angola, a visita da ministra da Justiça portuguesa, Francisca Van-Dúnem.

As culpas que a Europa deve expiar

Relembre-se que Augusto Santos Silva sustentou no dia 24 de Maio de 2017 que a Europa tem “culpas a expiar” por “desatenção recente” com África, defendendo uma maior cooperação entre os dois continentes para resolver problemas como as migrações. Se a hipocrisia deste ministro (e de uma forma geral de todos os governos portugueses) pagasse impostos, certamente que Portugal teria as suas contas públicas em ordem.

“É preciso mais cooperação entre a Europa e África, é preciso mais proximidade entre a Europa e a África. Quem tem culpas a expiar nesta relação, por desatenção recente, não é África, mas sim a Europa”, disse Augusto Santos Silva, intervindo como convidado de honra na comemoração do Dia de África (25 de Maio), organizada pelo corpo diplomático africano em Portugal.

Actualmente, acrescentou Augusto Santos Silva, os europeus têm “uma enorme responsabilidade adicional”. Têm sim senhor. Mas Portugal tem tantos, mas tantos, telhados de vidro (veja-se, por exemplo, o seu relacionamento com o regime do MPLA) que deveria estar quietinho e caladinho.

“Com a perspectiva de alguma viragem na política norte-americana quanto ao multilateralismo e às grandes agendas comuns, do clima ao desenvolvimento, a Europa tem a responsabilidade acrescida de liderar essas agendas”, sustentou o ministro, quase como se fosse Portugal uma virgem santa e não, como é, uma “prostituta” rainha dos mais putrefactos bordéis.

Portugal, acrescentou Santos Silva, “entende que a sua responsabilidade, como ponte que é entre África e Europa, é ajudar a Europa a compreender tudo isto”, ou seja, “situar a Europa do lado do futuro, ou seja, a Europa tem de estar situada do lado de África”. Lindo. Quase parece um poema concorrente aos jogos florais da Internacional Socialista.

“Esta consciência de que África é um parceiro essencial do ponto de vista económico, político, da segurança, estratégico, é hoje muito mais clara na Europa”, referiu o ministro português, servil acólito – embora disfarçado – do regime despótico do seu irmão gémeo na Internacional Socialista, o MPLA.

Portugal, afirmou, reconhece a “riqueza de África como um mercado económico e uma economia global”, mas isso mesmo “sabe a China, sabe a Índia, sabe a América” e “a União Europeia deveria saber melhor”.

Santos Silva justificou por isso que os portugueses têm procurado convencer a Europa a “regressar a África, não da forma como a explorou durante séculos, mas como um parceiro”. Como anedota não está mal.

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