A Empresa Nacional de Pontes (ENP) de Angola, que há 56 meses não paga salários a 400 trabalhadores, “vai ser privatizada”, anunciou hoje o ministro da Construção e Obras Públicas, garantindo que decorrem trabalhos para relançar a laboração e pagar os atrasados. Enquanto isso, os trabalhadores vão mostrando ao Governo que são bons e pacíficos alunos, a ponto de estarem quase a saber viver sem… comer.

“A ENP está enquadrada nas empresas que vão ser privatizadas. Está a desenrolar-se processo de negociação com empresas interessadas e este será o futuro da empresa de pontes”, disse Manuel Tavares de Almeida, em declarações aos jornalistas.

Falando no final de um seminário sobre as “Principais Irregularidades na Administração Pública e a Lei”, promovida pela Inspecção Geral da Administração do Estado (IGAE) de Angola, o governante referiu que a questão dos atrasados está igualmente a ser equacionada no quadro da privatização da empresa.

Recorde-se que, em Outubro de 2017, o ministro Manuel Tavares de Almeida visitou as instalações da Empresa Nacional de Pontes, tendo assumido analisar a situação, apelando por isso o diálogo entre sindicato e administração.

É claro que de Outubro até agora o ministro ainda não teve tempo para resolver o assunto. É compreensível. Se o MPLA ainda não teve tempo, ao fim de quase 43 anos, para perceber que não é uma solução para os nossos problemas mas, antes, um problema para as soluções…

“Temos algumas perspectivas no nosso plano orçamental e isso pode ajudar a resolver já os problemas candentes e equacionar o problema dos atrasados”, disse na ocasião o governante, tendo ainda assegurado que seriam elaborados programas “para alavancar” a empresa.

“Naturalmente que, sem actividade produtiva, não tem salários. Estamos a trabalhar no sentido de relançar a actividade dessa empresa com parcerias privadas”, garantiu (seja lá o que isso for) Manuel Tavares de Almeida.

O Governo informou em Maio que previa privatizar 74 empresas públicas a médio prazo, sobretudo do sector industrial, processo que na fase anterior, entre 2013 e 2017, permitiu um encaixe financeiro para o Estado de quase 20 milhões de euros.

A situação da empresa estatal de pontes já levou os trabalhadores, com o apoio da Central Geral de Sindicatos Independentes e Livres de Angola (CGSILA), a programarem uma marcha de protesto, prevista inicialmente para sábado último, mas “abortada” pelo Governo de Luanda, tal como nos “bons” velhos tempos de José Eduardo dos Santos.

Ainda assim, assegurou na ocasião o secretário-geral da CGSILA, Francisco Jacinto, a central sindical vai remeter um outro documento ao Governo provincial a solicitar a realização da marcha, ameaçando que, se voltar a ser impedida, recorrerá ao tribunal.

“Os trabalhadores estão de facto a sentir-se prejudicados, estão em desacordo com as atitudes do próprio Governo, que é o dono da empresa. Os trabalhadores querem manifestar o seu repúdio e têm de deixá-los manifestar-se sem artimanhas”, defendeu.

A direcção da empresa estatal angolana suspendeu, em Maio último, 82 trabalhadores, mais de 70 em idade de reforma, e toda a comissão sindical, conforme denunciou na ocasião o sindicato.

Em declarações recentes à imprensa, o director-geral da empresa, José Henriques, confirmou a suspensão dos 82 trabalhadores, justificando a necessidade de rentabilizar a empresa, fruto de uma parceria com o consórcio formado por três empresas de Angola e da China.

João Lourenço prometeu “Melhorar o que está bem e corrigir o que está mal”. A primeira parte está a ser cumprida. Os poucos que têm milhões estão a ver melhoradas as condições. Têm cada vez mais milhões. Os outros, os milhões que têm pouco, ou nada, continuam a ter cada vez menos.

Falta só saber se João Lourenço vai exonerar as pontes ou os 400 trabalhadores que, por não compreenderem a filosofia do novo governo, teimam em julgar que têm direito (vejam só a lata…) a receber salários.

Folha 8 com Lusa

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