O chefe do Estado-Maior General das FAA, Egídio Sousa Santos, “Disciplina” esteve em Malanje e, como é tradição do MPLA ao longo de quase 43 anos de poder, exortou os efectivos do Exército a cumprir com zelo e dedicação o programa de preparação operativa, combativa, educativa e patriótica, visando fazer jus aos desafios no domínio de asseguramento dos objectivos estratégicos do país. Num Estado de Direito Democrático nada disto faz sentido, mas como estamos em Angola…

O general intervinha num encontro com os efectivos do I Corpo do Exército, no quadro da constatação do funcionamento das regiões militares que vem efectuando pelo país, tendo considerado essencial que os militares, a todos os níveis, trabalhem unidos, coesos e determinados e primando pelo melhoramento dos níveis de disciplina no seio das tropas.

Egídio Sousa Santos disse esperar que o I corpo de Exército ocupe um lugar de destaque na moralização da sociedade, com a demonstração de valores que dignifiquem a região norte no seio das Forças Armas Angolanas e de todos os organismos do país em geral.

Para o general, esse desiderato passa pela defesa dos empreendimentos económicos, tais como da maior bacia petrolífera e das fronteiras fluviais do país, que jogam grande influência na economia nacional.

Egídio Sousa Santos reafirmou o compromisso com a melhoria das condições de vida dos efectivos, incluindo das infra-estruturais de aquartelamento, alimentação, vestuário, saúde e de trabalho das tropas.

O general Egídio Sousa Santos segue, aliás, os ensinamentos do anterior ministro da Defesa de José Eduardo dos Santos, João Lourenço, que não é homem de deixar os créditos do seu MPLA por verdades alheias. Pelo menos foi assim até ter na sua posse p cadeirão do poder. Recorde-se, por exemplo, que disparou no dia 17 de Setembro de 2016, todo o seu arsenal bélico contra os que estavam a “denegrir” a imagem de Agostinho Neto.

João Lourenço discursava em Mbanza Congo, província do Zaire, ao presidir ao acto solene das comemorações do dia do Herói Nacional, feriado alusivo precisamente ao nascimento do primeiro Presidente de angolano.

“A grandeza e a dimensão da figura de Agostinho Neto é de tal ordem gigante que, ao longo dos anos, todas as tentativas de denegrir a sua pessoa, a sua personalidade e obra realizada como líder político, poeta, estadista e humanista, falharam pura e simplesmente porque os factos estão aí para confirmar quão grande ele foi”, afirmou aquele que agora tem lugar cativo no galarim dos presidentes.

João Lourenço nunca pôs o nome às coisas, mas o Bureau Político do MPLA criticara em Julho de 2016, duramente, o lançamento em Portugal de um livro sobre aquele partido e o Presidente Agostinho Neto, queixando-se então de uma nova “campanha de desinformação”.

Em causa estava, está e estará (pelo menos até que Angola seja um Estado de Direito) o livro “Agostinho Neto – O Perfil de um Ditador – A História do MPLA em Carne Viva”, do historiador luso-angolano Carlos Pacheco, lançado em Lisboa a 5 de Julho do ano passado, visado no comunicado daquele órgão do Comité Central do partido no poder em Angola desde 1975.

Carlos Pacheco disse que a obra resultou de uma década de investigação histórica e que “desmistifica” a “glória” atribuída ao homem que conduziu os destinos do movimento que lutou pela libertação do jugo colonial português em Angola (1961/74). Contudo o livro, este como qualquer outro que não reflicta só e apenas a verdade oficial, tem sido fortemente criticado em Luanda, por parte de dirigentes e elementos afectos ao MPLA,

“A República de Angola está a ser vítima, mais uma vez, de uma campanha de desinformação, na qual são visadas, de forma repugnante, figuras muito importantes da Luta de Libertação Nacional, particularmente o saudoso camarada Presidente Agostinho Neto”, dizia o comunicado do MPLA.

Na intervenção de 17 de Setembro de 2016, João Lourenço, que falava em representação do chefe de Estado, José Eduardo dos Santos, sublinhou que Agostinho Neto “será sempre recordado como lutador pela liberdade dos povos” e um “humanista profundo”.

“Como atestam as populações mais carenciadas de Cabo Verde, a quem Agostinho Neto tratou gratuitamente, mesmo estando ele nas condições de preso politico. É assim como será sempre lembrado, por muitas que sejam as tentativas de denegrir”, afirmou o então ministro da Defesa.

“Em contrapartida”, disse ainda o governante, os “seus detractores não terão nunca uma única linha escrita na História, porque mergulhados nos seus recalcamentos e frustrações, não deixarão obra feita digna de respeito e admiração”.

“Não terão por isso honras de seus povos e muito menos de outros povos e nações. A História encarregar-se-á de simplesmente ignorá-los, concentremos por isso nossas energias na edificação do nosso belo país”, disse João Lourenço.

Como em 27 de Maio de 1977, em 2018, pensar mete medo aos donos do poder. Aliás, por vontade de quem dirige o país, todos os que pensam fora da formatação do MPLA deveriam ser condenados… se possível à morte.

Sabendo o que diz mas não dizendo o que sabe, João Lourenço alinha na lavagem da imagem de Agostinho Neto (como vai alinhar na lavagem da imagem de José Eduardo dos Santos, mesmo depois de o apunhalar sucessivas vezes pelas costas) numa altura em que, como sabe o regime, os angolanos começam cada vez mais a pensar com a cabeça e não com a barriga… vazia.

Terá João Lourenço alguma coisa a dizer aos angolanos sobre os acontecimentos ocorridos no dia 27 de Maio de 1977 e nos anos que se seguiram, quando dezenas de milhar de angolanos foram assassinados por ordem de Agostinho Neto?

Agostinho Neto, então Presidente da República, deu o tiro de partida na corrida do terror, ao dispensar o poder judicial, em claro desrespeito pela Constituição que jurara e garantia aos arguidos o direito à defesa. Fê-lo ao declarar, perante as câmaras da televisão, que não iriam perder tempo com julgamentos. Tal procedimento nem era uma novidade, pois, na história do MPLA tornara-se usual mandar matar os que se apontavam como “fraccionistas”. O que terá a dizer sobre isto o general João Lourenço?

Agostinho Neto deixou a Angola (mesmo que João Lourenço utilize toda a lixívia do mundo) o legado da máxima centralização de um poder incapaz de dialogar e de construir consensos, assim como de uma corrupção endémica. E os portugueses que nasceram e viveram em Angola, ainda hoje recordam o papel que teve na sua expulsão do país. Antes da independência declarava que os brancos que viviam em Angola há três gerações eram os “inimigos mais perigosos”.

Em 1974, duvidava que os portugueses pudessem continuar em Angola. Em vésperas da independência convidava-os a sair do país. E já depois da independência, por altura da morte a tiro do embaixador de um país de Leste, cuja viatura não parara quando se procedia ao hastear da bandeira do MPLA/Angola, dirigiu-se, pela televisão, aos camaradas, para lhes dizer que era preciso cuidado, pois nem todos os brancos eram portugueses.

Numa só palavra, quando este MPLA sente o poder ameaçado, não hesita: humilha, assassina, destrói, elimina, atira aos jacarés.

É a sua natureza perversa demonstrando não estar o MPLA preparado para perder o poder e, em democracia, com a força do voto se isso vier a acontecer, a opção pela guerra será o recurso mais natural deste partido, não é general João Lourenço? Daí a tese de manter os 150 mil militares das FAA em permanente preparação combativa.

É só para recordar

Vamos lá puxar um pouquinho pela memória. No dia 30 de Abril de 2008, uma viatura de marca Land Rover, foi entregue ao rei Ekuikui IV “Katehiotololo” do Bailundo, na sede comunal do Alto Hama, município do Lunduimbali, província do Huambo.

E quem foi o portador de tal oferta? O carro foi entregue pelo coordenador adjunto para a campanha eleitoral do MPLA, João Lourenço, “à margem de um acto político de massas, na sequência do realizado no dia anterior na cidade do Huambo, ao qual o soberano fez questão de assistir”.

“O rei Ekuikui IV do Bailundo, acompanhado por uma das suas esposas, agradeceu o gesto de José Eduardo dos Santos, ao mesmo tempo expressou a sua satisfação pela reabilitação das estradas e progressiva melhoria das condições de vida das populações do Bailundo”, salientou então a agência oficial do regime, ou seja, do MPLA e do seu presidente, José Eduardo dos Santos.

O soberano anunciou então, em declarações à imprensa, que em Setembro desse ano, por ocasião das eleições legislativas, diria algo importante aos angolanos.

Nessa altura ficou a dúvida se o rei iria ao volante do seu Land Rover fazer as anunciadas importantes declarações e, igualmente, uma certeza – o rei não iria cuspir no prato de quem lhe ofereceu a viatura. E foi isso que aconteceu. Ekuikui IV, também conhecido pelo soba dos sobas, manifestou o seu apoio ao MPLA.

De acordo com o comunicado do bureau político do MPLA, “o partido que serviu durante vários anos reconhece nele um exemplo de resistência tenaz contra o colonialismo português, de amor à pátria, de trabalho e de muita devoção à causa da paz, da unidade e reconciliação nacional, da liberdade e desenvolvimento do país”.

Com tantas qualidades só poderia ser do MPLA. Aliás, Ekuikui IV só passou de besta a bestial quando, para além do Land Rover, aceitou filiar-se no partido que governa Angola desde 1975.

Ainda em termos de memória, com a morte do líder da UNITA, Jonas Savimbi, em 2002, e o fim da guerra, Ekuikui IV passou a ser o dono do trono.

E foi depois de 2002 que o até então poderoso, respeitado e honorável reino do Bailundo entrou na sua fase mais descendente com uma inaudita vassalagem ao rei do MPLA, José Eduardo dos Santos.

Vassalagem que, de acordo com a estratégia o MPLA e com a colaboração activa de Ekuikui IV, levou em 2008 à eliminação física do rei Utondossi II.

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