O encerramento da Embaixada de Angola em Otava “deita por terra um trabalho da comunidade no Canadá ao longo de 20 anos”, disse hoje um dos seus líderes comunitários, Rui da Silva. A nossa comunidade está, por isso, preocupada e apelo ao Presidente João Lourenço para ponderar a decisão.

“D urante os últimos 20 anos crescemos enquanto comunidade no Canadá. Todos contribuímos para o engrandecimento de Angola neste país. Com o encerramento da Embaixada em Otava, recuámos no tempo”, lamentou Rui da Silva, de 48 anos.

O Governo angolano tinha este ano anunciado o encerramento até Novembro de 2018 das embaixadas no Canadá, México, Grécia e junto da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, e dos consulados em Faro (Portugal), Califórnia (EUA), Durban (África do Sul) e em Frankfurt (Alemanha).

No Canadá há 20 anos, natural de Golungo Alto (província de Kuanza Norte), Rui da Silva, foi presidente da direcção da Comunidade Angolana do Ontário (ACO), entre 2014 a 2016.

O líder comunitário mostrou-se ainda apreensivo pelo impacto negativo do encerramento dos serviços diplomáticos de Angola no Canadá: “Vai ser muito negativo. O impacto será muito devastador para toda a comunidade residente no Canadá. A comunidade angolana será afectada em questões legais como o registo de nascimento, união matrimoniais e falecimentos”.

As relações bilaterais entre Angola e o Canadá, com início em 1978, “vão ficar mais distantes”, não tem dúvidas Rui da Silva.

“Angola está a perder uma excelente oportunidade perante o Canadá que pode ser um parceiro estratégico em áreas como o sector tecnológico, comércio, indústria e na formação profissional”, sugeriu.

A grande experiência canadiana na indústria petrolífera é uma “mais-valia que deveria ser aproveitada” por Luanda na vertente de formação profissional. Para que haja uma aproximação entre os países, perante o Canadá como uma das Nações que prima pelo cumprimento dos direitos humanos, “Angola deve dar passos nesse sentido”.

“Devemos trabalhar no sentido de melhorar os padrões dos direitos humanos. Estou confiante de que com isso, o Canadá terá uma melhor aproximação diplomática com Angola”, declarou.

No entanto, o encerramento da embaixada em Luanda “será uma barreira para os países”. “Gostávamos que o Governo de Angola reconsiderasse a sua decisão porque tem muito a ganhar na procura de melhores relações diplomáticas com o Canadá. Precisamos de diplomatas de carreira, patriotas, que façam a diferença”, apelou Rui da Silva.

Os serviços diplomáticos mais próximos dos angolanos no Canadá estão localizados em Washington DC, nos Estados Unidos da América.

Calcula-se que existem cerca de 5.000 angolanos no Canadá, estando a grande maioria localizada na província do Ontário.

Em Agosto de 2015, Rui da Silva, então líder da ACO, procurou “unir” todas as associações lusófonas no Canadá para criar uma grande colectividade da lusofonia.

“A emigração angolana para o Canadá é recente, comparando com outros países lusófonos. Convidamos as associações portuguesas e brasileiras a juntarem-se a nós, os demais Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP), para, todos juntos, fazermos uma grande associação da lusofonia”, disse na altura Rui da Silva.

A Comunidade Angolana do Ontário assinalou nesse ano o seu 25º aniversário, num evento que decorreu na sua sede, localizada no 1685 da Dundas Street West, em Toronto, que juntou dezenas de angolanos. Além da degustação de gastronomia típica do nosso país, foi exibido o filme “Rastos de Sangue”.

Segundo aquele responsável, a ACO é mais do que uma associação, é a “casa dos angolanos” no Canadá, no Ontário, mais concretamente na cidade de Toronto.

“Acolhemos todos os angolanos desta área da cidade. Esta é a sede de um conjunto de outras associações que colaboram connosco, como é o caso da Associação de Angolanos em Otava, a Casa de Angola de Hamilton e temos outra filial em St. Catharines”, frisou.

Rui da Silva explicou na altura que a ACO tem nas suas instalações aulas destinadas a crianças sobre a História e Geografia de Angola, e de língua portuguesa. São também disponibilizadas aulas de explicação para Matemática, Geografia e História para ajudar os mais novos na sua integração com a cultura angolana.

A ACO tem colaborado com a Embaixada em Otava, disponibilizando as suas instalações em Toronto como um “verdadeiro consulado”, visto que são disponibilizados serviços de registos consulares, cédulas e registos de nascimento, passaportes, e ajuda no preenchimento de formulários de imigração no Canadá.

Em 5 de Abril de 2016, a Embaixada do Canadá para Angola emitiu a seguinte declaração a propósito do que considerava ser uma “sentença duvidosa de 17 activistas políticos em Angola”:

“No dia 28 de Março de 2016, 17 activistas políticos Angolanos foram condenados a penas de prisão que variam entre 2 a 8 anos, após serem julgados e considerados culpados por actos d rebelião contra o Estado e associação criminosa na sequência da sua captura e detenção, por se terem reunido, em 2015, para ler um livro de conteúdo político.

A Embaixada do Canadá está profundamente preocupada com a aparente falta de aplicação de um processo legal a este caso, bem como as implicações para o Estado de Direito em Angola.

Em particular, o Canadá está particularmente desapontado com a recusa de acesso ao julgamento para observadores internacionais e não está convencido quanto à proporcionalidade das penas resultantes do processo.

A Embaixada do Canadá apela ao Governo de Angola a envidar todos esforços para assegurar que as condições sejam criadas para os recursos; que aos acusados seja assegurado um processo justo e que a justiça prevaleça – consistente com a obrigação constitucional do Governo, de promover e defender os direitos humanos e liberdades fundamentais, bem como garantir a sua implementação.

O Canadá apoia o Governo de Angola nos esforços internacionais perante a cidadania global e a promoção de direitos humanos justos para um estado democrático que se baseie no Estado de Direito.”

Foto de Arquivo

Folha 8 com Lusa

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