Em Junho de 2017, muito antes das eleições, os estudantes angolanos na Polónia, receberam pela primeira vez seis meses de subsídio adiantado. Muitos dos estudantes, mais cépticos ou, talvez, mais atentos à realidade do país, diziam que tudo fazia parte da campanha eleitoral, prevendo que depois das eleições tudo seria diferente.

Infelizmente, reconhecem os que acreditaram nas boas intenções do MPLA/Estado, o pior aconteceu mesmo. Desde o início de 2018 o Instituto Nacional de Gestão de Bolsas Estudo (INAGBE) pagou apenas aos estudantes angolanos na Polónia um mês. Em Março.

Feitas as contas, que até não são difíceis, os estudantes caminham para os cinco meses sem pagamentos. Sempre que contactam o INAGBE recebem a mesma desculpa: Tenham paciência.

“Como vamos ter paciência se temos colegas a dormir nas ruas, a serem expulsos das suas casas, com dívidas aos bancos, doentes sem poderem ir ao hospital por não terem pago os seguros de saúde?”, pergunta um estudante em declarações ao Folha 8.

E acrescenta: “Estamos em fase de exames, temos que estudar, não temos como ir à escola porque vivemos muito distante e não temos dinheiro para comprar bilhetes de transporte público”.

A falta destas verbas, ou o atraso no pagamento dos subsídios, põem em causa o desenvolvimento académico dos estudantes… por muita paciência e patriotismo que tenham. Acresce que a maioria dos estudantes bolseiro do INAGBE são filhos de camponeses, pelo que as suas famílias não têm de onde tirar dinheiro para socorrer os estudantes.

De vez em quando A embaixada angolana na Polónia, na pessoa do embaixador Domingos Culolo, vai dando ajudas pontuais para acudir aos casos mais dramáticos. Do mesmo modo tem procurado sensibilizar os senhorios e as direcções das casas de estudantes, pedindo que tenham paciência para e explicando a situação em que o país se encontra.

Mas mesmo esta estratégia do embaixador está a revelar-se infrutífera. Os senhorios e os directores dos dormitórios ignoram as explicações porque os angolanos são cada vez mais conotados como único grupo de africanos que sempre se atrasam nos pagamentos, ou sempre têm dificuldades financeiras.

Como os estudantes de outros países de África não tem essas dificuldades, os polacos tendem a pensar que os angolanos são mentirosos.

Vejamos agora uma carta enviada a Ana Paula Tuavange Elias, Directora Geral do Instituto Nacional de Gestão de Bolsas de Estudo (INAGBE), pela Associação dos Estudantes Angolanos na República da Polónia:

«A Associação dos Estudantes Angolanos na República da Polónia, vem por intermédio desta carta informar e solicitar a intervenção da Vossa Excelência Sra. Directora, na situação crítica que os estudantes bolseiros do INAGBE na República da Polónia estão a enfrentar.

Durante os 5 meses de 2018 e já a caminho do sexto mês do ano, o Instituto Nacional de Gestão de Bolsas de Estudo (INAGBE), fez pagamento de apenas um mês que equivale a 750 USD (2500 PLN ) isso em Março. Visto que, com este valor pagamos tão somente o aluguel da casa de um mês e o restante usamos para a alimentação no mesmo mês em que nos foi pago.

Actualmente, muitos dos colegas estão a receber cartas com ameaças de expulsões e outros já foram expulsos pelos seus senhorios por atrasos de pagamento, elevadas dívidas e alegadas falsas promessas de pagamento de aluguel de casa. Muitos colegas não podem ser atendidos em hospitais públicos por não possuírem seguros de saúde pago ou actualizado e em contrapartida, não podem ir a clínicas privadas por falta de verbas.

Encontramo-nos na recta final do ano lectivo e ao mesmo tempo numa situação muito difícil. Estamos a perder o controle, os exames se aproximam e muitos de nós temos que andar a pé longas distâncias até a universidade porque não podemos andar de transporte público sem bilhetes para não sermos multados. Toda vez que entramos em contacto com INAGBE recebemos nada mais que simples promessas de pagamento ou nos pedem que tenhamos calma e paciência.

Acreditamos que, todas estas dificuldades que estamos a enfrentar pode vir a intervir directa ou indirectamente no desenvolvimento e aproveitamento académico dos estudantes.

Razão pela qual, venho mui respeitosamente solicitar a intervenção da Vossa Excelência Sra. Dra. Ana Paula Elias neste assunto tão delicado que muito aflige a comunidade estudantil na República da Polónia.

Sem mais assunto de momento, agradecemos a atenção e enviamos os nossos votos de elevada estima e consideração.»

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