O Presidente da República, João Lourenço, vai conceder na sexta-feira, a sua segunda entrevista colectiva a jornalistas (e similares) angolanos e estrangeiros, desde que tomou posse no cargo, a 26 de Setembro de 2017. Não está previsto que algum familiar das vítimas dos massacres do 27 de Maio de 1977 peça ao “Comandante” autorização para ler um poema…

O Chefe de Estado, Presidente do MPLA e Titular do Poder Executivo concedeu a primeira entrevista colectiva a 8 de Janeiro deste ano, no quadro de um programa de fictícia mas mirífica aproximação à imprensa.

Segundo o secretário para os Assuntos de Comunicação Institucional e de Imprensa do Presidente da República, Luís Fernando, que avançou a informação, João Lourenço estará disponível para responder a uma pergunta por cada órgão.

Pelo sim e pelo não, Luís Fernando espera que seja mais um exercício de comunicação e que venha a decorrer dentro dos marcos da urbanidade e da cooperação. Isto porque poderão aparecer jornalistas carnívoros, eventualmente preparados para fazer algum golpe… de Estado.

A entrevista colectiva, referiu Luís Fenando, constituiu um ganho para o país, na medida em que fica salvaguardado o direito dos angolanos à informação. E bem salvaguardado. Uma entrevista por ano é mais do que suficiente. Se calhar uma no início do mandato e outra no fim chegavam bem…

Quando foi anunciada, com pompa e circunstância, a primeira entrevista colectiva, os mais ingénuos (entre eles, como é óbvio, o Folha 8) pensaram que a periodicidade destes encontros seria, talvez, semanal, mensal ou – no máximo – Semestral. Errado. Era anual. Como atestado de matumbez e menoridade intelectual passado aos jornalistas foi, reconheça-se, genial.

Na sua declaração da altura, Luís Fernando referiu que as futuras entrevistas, que o chefe de Estado angolano prevê tenha uma periodicidade anual, têm o propósito de permitir que a agenda pública do Presidente da República tenha um melhor acompanhamento e atenção da imprensa. Com uma periodicidade anual não está mal… Foi, como é timbre do Luís Fernando, a descoberta do Ovo de Colombo.

Nem Paul Joseph Goebbels, Ministro alemão da Propaganda na Alemanha Nazi entre 1933 e 1945, teria uma ideia tão… brilhante, tão exacta do que o MPLA pensa dos jornalistas.

“É nosso propósito, e dentro de um estilo arejado, próximo e de grande inclusão, que o Presidente da República imprime para o seu mandato, estabelecermos essa ponte humanizada entre os que fazemos vida profissional e servimos a pátria no interior das paredes e salões do palácio presidencial e todos vós que para lá destes limites dão o melhor à profissão jornalística e à missão de informar o grande público sobre os actos da governação”, disse Luís Fernando.

A entrada para o “Guinness Book”, secção de anedotas, foi directa. É que, para além da calendarização anual, a justificação poética (mas sem direito à leitura de poemas) do secretário para os Assuntos de Comunicação Institucional e de Imprensa do Presidente da República mostra o elevado nível intelectual e pragmático dos assessores de João Lourenço. Algo ao estilo de “para quem é (jornalistas) farelo basta”.

Quem melhor do que Luís Fernando, um profissional de qualquer coisa que enquanto “jornalista” levava ao fanatismo o seu amor (ou seria outra coisa?) pelo MPLA, para ser secretário para os Assuntos de Comunicação (e Propaganda, dizemos nós) Institucional e de Imprensa do Presidente do MPLA, na circunstância também Presidente da República?

Segundo aquele responsável, é decisão do Presidente angolano conceder, no mínimo, uma “entrevista colectiva” por ano, com a participação dos jornalistas acreditados ou não junto do Palácio Presidencial, juntamente com os correspondentes de imprensa dos diferentes meios internacionais em missão no território da República de Angola.

A primeira destas “entrevistas colectivas” passou a ser considerada com um marco na história de Angola, nomeadamente por ser a mais elementar forma de tratar os jornalistas abaixo de cão (com o natural respeito por estes)… com dor de dentes.

É verdade que a decisão contrasta com a praticamente ausência de entrevistas concedidas pelo anterior chefe de Estado, José Eduardo dos Santos, que esteve 38 anos no poder. Mas também contrastaria se fosse feita apenas uma por mandato ou por década.

Luís Fernando reiterou que esta “entrevista colectiva” será “aberta a todos os jornalistas sem distinção e que dela queiram participar, tanto os residentes em Angola, quer os que pretendem viajar a Luanda para esse propósito”. Assinale-se a descoberta da pólvora (seca): “Aberta a todos os jornalistas sem distinção”. Isto é, sem cartão (visível) do MPLA.

“A entrevista é aberta, ou seja, os senhores jornalistas terão a oportunidade de conversar com o senhor Presidente da República sobre os mais variados assuntos, enquadrados, naturalmente, dentro do interesse que eles possam suscitar na opinião pública”, referiu.

Na primeira entrevista, João Lourenço respondeu (isto é como quem diz) a 23 perguntas de jornalistas nacionais e estrangeiros, grande parte delas de foro político e económico.

Foto: Na primeira entrevista colectiva o Folha 8 esteve presente

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