O Presidente da República de Angola, João Lourenço, reafirmou hoje, em Luanda, que o repatriamento coercivo de capitais começa a contar a partir de 26 de Dezembro mas avisando que o processo pode levar mais de 20 anos a estar concluído. Por alguma razão, a somar aos 43 anos que já leva no Poder, se admite que o MPLA precisa de mais 57 para pôr a casa em ordem…

Falando na sua segunda entrevista colectiva, o Chefe de Estado – que é igualmente Presidente do MPLA e Titular do Poder Executivo – admitiu que é preciso ter calma para, como diz o cantor português Pedro Abrunhosa, fazer o que ainda não foi feito. E assim sendo, nada como esperar mais uns longos anos para, definitivamente, se concluir que a montanha continuará cheia de dores mas sem conseguir parir um rato.

“É um fenómeno que ocorreu ao longo de anos e não me parece que pudéssemos resolver em seis meses, referente ao período de graça”, frisou João Lourenço. E frisou muito bem. Se Roma e Pavia não se fizeram num dia, se em 43 anos de independência ainda só conseguimos gerar ricos e não riqueza, “produzir” 20 milhões de pobres e ter a certeza de que 86% das nossas crianças dos 0 aos 23 meses estão privadas de uma alimentação adequada e nesta faixa cerca de 75% estão igualmente privadas de uma habitação, 71,8% da saúde, 53,8% da água potável, não é preciso ter pressa.

Aliás, embora se saiba que o Angola é uma espécie de automóvel que te o motor gripado, os nossos ilustres e intelectualmente superiores dignitários político-governativos acham que não é preciso substituir, ou pelo menos reparar, o motor. Basta, dizem, mudar o motorista. Portanto, siga a farra!

Para João Lourenço, o facto de haver um prazo de início do programa, não permite pensar-se (“não é justo”) que na data exacta todos os recursos regressam ao país. Anda bem que o Presidente esclareceu este aspecto. É que todos estávamos a pensar que, graças a ele, substituindo a antena do rádio o morto começava logo a trabalhar. Obrigado, Presidente, pela pedagogia.

“Arranca a 26 de Dezembro e não tem data limite. Pode levar dez anos, 20 anos, leva o tempo que for necessário, no meu mandato ou de quem me for substituir nos próximos anos. Isto é um programa para ter continuidade”, sublinhou João Lourenço, omitindo, contudo, um pormenor que é vital para o entendimento deste programa. É que todos precisam de saber que a continuidade só pode ser conseguida (assim aprendemos nos últimos 43 anos) se o MPLA nunca deixar de estar no Poder.

João Lourenço também referiu que as relações com o ex-chefe de Estado, do qual foi número dois no MPLA e ministro da Defesa, José Eduardo dos Santos, são normais. Afasta-se assim o receio dos alguns familiares de que o anterior presidente (uma espécie – no dizer de João Lourenço – de marimbondo traidor que deixou os cofres vazios) poderia ser preso ou até mesmo assassinado. Poderia? Poderá? Veremos…

O princípio da separação de poderes entre o Executivo, Legislativo e Judicial foi hoje referido pelo Presidente da República, João Lourenço, como marco que não se pretende violar.

Mais uma vez o Presidente acertou na muche. Só falta saber, e a explicação será dada com certeza daqui a um ano na próxima entrevista colectiva, como é possível separar um marco que faz parte da identidade, do ADN, do MPLA. É que não existe essa separação de poderes. Em todos os sectores (Executivo, Legislativo e Judicial) quem manda e mais ordena é o MPLA, e que manda no MPLA é o seu Presidente, por sinal também Presidente da República e Titular do Poder Executivo.

João Lourenço admite que é preciso reduzir a monstruosa máquina do Estado, mas sugere que ela deve ser feita por fases. Deu, aliás, um paradigmático exemplo que só por si merecia um Nobel pelo esforço feito. Então é que conseguiu reduzir a composição do Executivo, passando dos 35 ministros anteriores para menos de 30? É obra. Assim se vê que tudo irá continuar na mesma, transferindo algumas “moscas” mas mantendo o essencial do seu meio ambiente.

“Nada pode ser feito de forma brusca, sob pena de se resolver um problema e se abrirem dois outros”, realçou o Presidente da República, fazendo uso da sua sábia e messiânica capacidade de liderança. Por outras palavras, vamos tentar novamente pôr o motor (gripado) a funcionar, desta vez usando um rádio de pilhas…

De uma forma geral, o Presidente esteve igual a si próprio, debitando lugares-comuns, verdades de La Palice. A criação de um bom ambiente de negócios, para que as empresas funcionem e criem bens e serviços, consta dentre as acções do Executivo para o aumento da oferta de emprego no país, afirmou esta sexta-feira, em Luanda, o Presidente da República, João Lourenço.

De acordo com o Chefe do Estado, a diversificação da economia, significa também aumentar a oferta de trabalho, para beneficiar, principalmente, a juventude, sendo que o programa de governação do MPLA tem duração de cinco anos.

João Lourenço afirmou que, num espaço de um ano, em função da importância que o Executivo dá ao sector social, se aumentou a fatia do Orçamento Geral do Estado de 3.6 por cento, em 2018, para 6.6 por cento para o OGE de 2019.

De acordo com o Chefe de Estado, há seis meses, os hospitais Josina Machel, Pediátrico de Luanda, Geral de Luanda e Américo Boavida estão em condições de responder à demanda dos pacientes em termos de medicamentos.

O Presidente da República respondeu, não respondendo, à pergunta do Folha 8 sobre a necessidade de um pacto de regime para a questão do combate à corrupção e para o repatriamento de capitais. Confira no vídeo, a partir do minuto 25.

A primeira destas “entrevistas colectivas”, em Janeiro, passou a ser considerada com um marco na história de Angola. É verdade que a decisão contrastou com a praticamente ausência de entrevistas concedidas pelo anterior chefe de Estado, José Eduardo dos Santos, que esteve 38 anos no poder. Mas também contrastaria se fosse feita apenas uma por mandato ou por década.