O Presidente angolano, João Lourenço, pediu hoje uma mudança radical na gestão do Ministério das Relações Exteriores, que para racionalizar recursos vai reduzir as missões diplomáticas e consulares, bem como o pessoal que nelas trabalha. Talvez também fosse útil instituir o primado da competência e não só o da filiação no MPLA.

João Lourenço discursava na abertura da VIII reunião de embaixadores de Angola no exterior, encontro em que serão abordados aspectos administrativos e financeiros do Ministério das Relações Exteriores.

O chefe de Estado referiu que, na actual conjuntura de crise económica e financeira (um guarda-chuva que cobre uma doença mortífera – a incompetência), em que a diversificação da economia está no topo da agenda, é necessário que a diplomacia angolana se torne mais eficiente e “virada para a promoção da boa imagem do país, captação de investimento privado estrangeiro e promoção de Angola como destino turístico”.

Para se atingir estas metas, é preciso, além de maior racionalização de recursos, através da redução de missões diplomáticas e consulares e consequentemente pessoal, enveredar para o aumento do número de países onde existirão embaixadores acreditados, mas não residentes.

Segundo o Presidente, esta prática, a que recorrem de uma forma geral todos os países, “em nada diminui a eficiência no atendimento aos países com quem mantêm relações diplomáticas”.

João Lourenço considerou que estas medidas, “corajosas, mas necessárias” e em que “o mérito deve ser premiado”, devem ser tomadas agora. Certo. Deveriam ter sido tomadas há décadas, mas mais vale tarde do que nunca. Quanto a premiar o mérito, a teoria é boa, mas a prática é antagónica. O Presidente sabe, ou não fosse há décadas um homem do regime, que entre um néscio do MPLA e um génio da oposição as “ordens superiores” são bem claras: escolhe-se o néscio.

“Esta deve ser uma oportunidade que o senhor ministro com certeza não perderá para mexer naqueles funcionários sem qualificações, que foram nomeados apenas por serem familiares ou de alguma forma protegidos deste ou daquele político”, referiu.

Ora aí está. João Lourenço vem agora dizer o mesmo que, por exemplo, o Folha 8 diz há muitos, muitos anos. Não queremos direitos de autor, mas apenas que o Presidente não se limite a dizer: olhem para o que eu digo e não para o que eu faço.

De acordo com João Lourenço, Angola quer inaugurar uma era de maior responsabilização, na qual não será tolerada a “má gestão financeira e patrimonial ou ainda o nepotismo praticado por alguns quadros responsáveis do próprio ministério ou por chefes de missões diplomáticas”.

Outra preocupação actual, referiu o chefe de Estado, é a necessidade urgente de se actualizar a relação das entidades com direito ao uso do passaporte diplomático, “que venha a pôr cobro ao actual estado de banalização deste importante documento com validade internacional”.

João Lourenço orientou a recolha ou não renovação de passaportes diplomáticos na posse de cidadãos “que até prova em contrário não exercem, nunca exerceram ou deixaram de exercer qualquer função que os habilita a ser detentores do mesmo”.

“Trabalhemos para uma mudança radical na gestão do Ministério das Relações Exteriores. Peço, por isso ao senhor ministro das Relações Exteriores e à sua equipa, aos senhores embaixadores e a todos quantos trabalham directamente com fundos do MIREX que façam uma gestão parcimoniosa e exemplar dos fundos e do património desta instituição, tanto em Angola como no exterior”, disse.

Estas medidas, salientou o Presidente, visam ter um Ministério das Relações Exteriores “organizado e funcional, onde se respeita a carreira diplomática, promovendo-se uma rotação normal de embaixadores e de pessoal, permitindo-se assim a estabilização do ministério e a sua adequação aos melhores padrões internacionais”.

Folha 8 com Lusa

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