Várias personalidades da sociedade civil consideraram hoje simbólico e um passo em frente para a construção de um diálogo nacional o encontro com o Presidente angolano, João Lourenço. Rafael Marques foi convidado e depois desconvidado. Certamente a bem do (tal) diálogo.

Falando à imprensa, vários dirigentes e líderes de organizações não-governamentais e da sociedade civil angolana destacaram a importância do encontro em que lhes foi permitido manifestar “todas as preocupações de forma frontal e sem quaisquer receios”.

O activista Luaty Beirão optou por, no final de uma hora e meia de reunião, não falar aos jornalistas, mantendo a promessa de só falar depois de terminado o prazo, a 26 deste mês, para o repatriamento de capitais por parte de altas figuras angolanas, exigido pelo Governo angolano.

Entre os activistas que falaram aos jornalistas, José Patrocínio, líder da Associação religiosa Omunga, Alexandra Semeão, da Associação Handeca, e Maria Lúcia Silveira, da Associação Justiça, Paz e Desenvolvimento, destacaram também “a franqueza e respeito manifestado por João Lourenço”, salientando o facto de este tipo de encontro ser inédito em Angola.

A explicação de Rafael Marques

“Gerou-se alguma expectativa, ao nível da opinião pública, sobre a minha participação na audiência que o presidente da República está a conceder a representantes da sociedade civil. Essa expectativa foi, sobretudo, criada pelo comunicado de imprensa da PR sobre o encontro, que foi amplamente difundido nos órgãos de comunicação social, os quais destacavam o meu nome.

Infelizmente, não participo do encontro que o ministro da comunicação social, João Melo, sempre fascista de espírito, qualifica como incluindo alguns “activistas antigovernamentais”. Foi-me recusada a entrada no palácio, por não constar da lista de convidados.

Durante cerca de 20 minutos, tive a oportunidade de conversar com o Luaty Beirão, a Alexandra Simeão e o Frei Júlio Candeeiro numa das salas de espera do Protocolo da Presidência. Durante esse período, passaram por nós, a seu tempo, dois funcionários com listas, a confirmar a nossa presença, entre outros que nos cumprimentaram à distância.

Fomos encaminhados ao palácio, do outro lado da rua, onde nos aglomerámos junto ao detector de metais para a certificação final dos convidados. Cumprimentei e troquei breves impressões com a Lúcia Silveira, o José Patrocínio, o Salvador Freire, assim como outros dignos representantes da sociedade civil e colegas de profissão, como o Gito Micoli e o Borralho Ndomba.

Após a entrada prioritária dos jornalistas, fez-se então a chamada dos convidados. Havia uma segundo indivíduo com outra lista de chamadas a confirmar. E assim foram todos passando pelo detector de metais e devidos procedimentos de segurança. Fui o último. O chamador referiu que já só tinha na lista o nome do Job Capapinha, um dirigente do MPLA nas vestes de sociedade civil, e leu mais uma ou duas organizações também ligadas ao partido no poder. Disse que o meu nome não constava da lista e que eu não podia entrar. O outro confirmou. Agradeci.

Porque acredito na boa vontade do presidente João Lourenço, acedi ao convite para participar do encontro.

Regressei ontem ao país e, para meu espanto, ouvi a difusão de um comunicado de imprensa da PR, no qual sou referido como representante da Open Society, uma organização com o qual não tenho qualquer vínculo há 15 anos. Isto apesar de eu ter esclarecido e reiterado com a assessoria para os Assuntos Sociais do PR que não represento nenhuma instituição. O meu trabalho é do conhecimento público. Fundei o portal www.makaangola.org, através do qual há muito me dedico a investigar a alta corrupção no país e a violação dos direitos humanos.

Serve a presente nota para esclarecer a verdadeira razão da minha ausência no encontro do PR João Lourenço com a sociedade civil. A segurança não permitiu a minha entrada, por eu não constar da lista final de convidados. Os serviços de apoio do PR até podem ter uma melhor explicação. Vi à porta altos funcionários da Presidência e da assessoria de imprensa.

Eu estive lá, mas não me deixaram entrar.”

Foto: Lusa

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