Para compreender o que hoje se está a passar em Angola depois das eleições do 23 de Agosto passado, o Folha 8 vai aqui adiante descrever o que está na sua origem. “Flash-back”.

Por Arlindo Santana

A pretensa democratização do actual regime político de Angola começou com um sinal claro de que o MPLA não era o partido único do país. Nas eleições gerais realizadas em Setembro de 1992 a UNITA demonstrou que tinha popularidade de sobra para brigar o poder pelo número de votos que alcançou, forçando Zedú e o MPLA a uma segunda volta eleitoral. Mas, por suspeição irredutível de ter havido fraude na contagem dos votos da primeira volta, segunda volta não houve, e o país mergulhou no pior que lhe podia ter acontecido, uma sangrenta guerra que se prolongou até 2002.

Os anos sucederam-se e fomos vendo a UNITA a perder o seu tecido intelectual para o MPLA por obra duma propaganda feroz, que pautou por transformar uma anunciada reconciliação nacional em diabolização sistemática dos “maninhos” e, ao mesmo tempo, inspirar o surgimento de trânsfugas do Galo Negro para o partido no poder, no quadro duma estratégia em que estes últimos eram, e ainda hoje são, aproveitados pelos órgãos de comunicação social públicos para enxovalhar o seu ex-partido. Em destaque, entre os desertores da UNITA, destacam-se personalidades como Jorge Valentim e Nzau Puna no passado, mais tarde George Chicoty, Nfuka Muzemba e Fernando Heitor, no presente. Isto sem se falar de muitos outros que não se evidenciaram ou não deram a conhecer a sua decisão de mudar.

Mesmo assim, a UNITA que sempre se tentou diabolizar está viva. Mais viva do que se pensava e se esperava. Querem provas? São muitas e, diga-se de passagem, com tendência para aumentar com o passar do tempo.

Noves-fora a denúncia do flagrante, mutilado e aparentemente indesmentível resultado provisório da votação da primeira volta, a verdade é que Adalberto da Costa, Júnior, Liberty Chyaca, Cachiungo, Raul Danda, Ana Margoso, Sapinãla e Mihaela Webba, contam-se entre os rostos mais visíveis dessa surpreendente energia revitalizada, na medida em que – é inegável – esta nova vaga têm somado pontos que ajudam a ganhar. Ganhar a confiança dos eleitores pela competência e nível intelectual, muito mais alto do que a dos doutores especialistas em bajulação, especialistas em maquilhagem de beleza do regime vigente.

Sejamos realistas, na serenidade e na contenção que a actual conjuntura exige, a máscara do MPLA caiu e só nos resta esperar que não seja na lama. Nem no sangue!

Institucionalizar a batota – eis a questão

Ponhamo-nos no lugar do partido do poder. Depois de ter adulterado a contagem de votos em plena impunidade nas eleições de 2008 e de 2012, o problema agora, neste recente pleito, era como evitar que a verdade pudesse vir ao de cima.

Uma possibilidade seria executar o mesmo plano que tanto sucesso teve nesse ano de 2008 e foi cuidadosamente aprimorado nas eleições gerais de 2012. Outra solução seria a de não fazer batota, mas aí os riscos ainda seriam maiores, na medida em que a queda do MPLA poderia ser tão grande que talvez nem sequer desse para ultrapassar a fasquia dos 50% de votos na primeira volta. Eles sabiam.

Portanto, “alea jacta est”, a batota começou cedo. Para começar fomos espectadores duma frenética propaganda partidária que se estendeu no tempo desde 2012 até aos dias de hoje e foi pontuada pela decisão de ser o MAT (Ministério da Administração do Território) a fazer o que não lhe cabe fazer, pelo menos segundo o que está escrito na própria Constituição de Angola. Caso bicudo.

Felizmente, José Eduardo dos Santos, que já deu o mote várias vezes e por certo daria mais uma ou duas de mão na nova-velha táctica de sempre, baseada invariavelmente no apelo aos fantasmas da guerra civil e na diabolização, desta vez não só do partido do Galo Negro, mas também no denegrimento da coligação CASA-CE. A rotina, se ele tivesse ficado a governar, mas não está, embora ainda, talvez, esteja, numa maneira de actuar que lhe é característica!

A essa clássica «malandrice» com ares de ser em defesa dos valores patrióticos juntar-se-iam, nessa ideia de gerir as eleições, o «Bulldozer M», com JES à cabeça e toda a clique partidária a segui-lo em «améns», o dinheiro, em expensas astronómicas de propaganda – só na campanha eleitoral 70% do Estado e 30% de empresas privadas -, a compra de opiniões, os contratos com arautos «lá de fora», convidados para dar piropos à governança, e, claro está, a imprensa estatal e a sacrossanta e imprescindível mentira, ou melhor, o esquecimento de todos os factos agravantes denunciadores da assustadora incapacidade dos agentes do Estado de se comportarem nos limites da honra, da honestidade e do sentido de Estado, uma vez que as suas vestes de servidores do povo angolano, embora sejam curtas, obediência a JES obriga, eles enviaram-nas ao alfaiate M, que lhes juntou mangas para meter trunfos e bolsas para o dinheiro!

A pré-campanha e a democracia

Cerca de um ano e meio antes da data do pleito eleitoral deste ano em curso, foi posta em prática uma estratégia global de uma das mais grandiosas campanhas políticas da história mundial contemporânea (pré-campanha disseram eles). Na sua concepção, trata-se de um baile de máscaras, tão grande que o controlo total e unilateral dos eleitores que, sub-repticiamente, já tinha começado, pouco tempo tiveram os angolanos de esperar para vivê-lo de olhos esbugalhados, sem nada poder fazer, porque a oposição, impotente, nada pôde fazer. Vejamos o que aconteceu.

Nos primórdios de 2016, a Comissão Nacional Eleitoral (CNE) teve de se vergar às apetências de poder de JES, quando o seu ministro do MAT (Ministério de Administração do Território), Bornito de Sousa, num mascarado apelo ao civismo dos angolanos, incentivou o povo, com todas as forças que o exorbitante poder político do MPLA tem, a exercer em massa o seu direito de voto. O objectivo era controlar a massa de eleitores, ordens obscuras foram dadas, um novo registo eleitor foi exigido para substituir o de 2012, exigência de registar os números de cada cidadão detentor de um telemóvel na Unitel e Movicel (nunca se viu em Angola uma campanha realizada com tanta força de vontade) e, ainda pior, desde o dia 15 de Junho de 2016 que Bornito de Sousa, mandatado por JES, herdou todas as competências da CNE no que toca à organização do registo eleitoral.

Aberta a campanha pré-eleitoral a 10 de Dezembro desse mesmo ano, na cidade do Lubango (capital da província da Huíla, Sul de Angola), ou seja, cerca de 8 meses antes da data para as eleições gerais, os aficionados do candidato do M foram assediados para assistir à primeira reunião pública do candidato no dia 18 de Fevereiro do ano em curso, realizada nesta mesma cidade. Em seguida, a pré-campanha continuou com grande intensidade em várias capitais provinciais e principais distritos do Sul de Angola, nomeadamente, Huambo, Bié, Nharea, com reuniões quase todos os dias que se estenderam a todas as províncias de Angola, sob a quase exaustiva cobertura da mídia de Estado: todos os dias, de manhã, à tarde e à noite (70% dos custos pagos pelo Estado 30% por empresas privadas).

Resumindo, a pré-campanha eleitoral do MPLA foi um grandiloquente hino ao totalitarismo político, florido com promessas utópicas e iniciada mais de oito meses antes da data das eleições gerais. O que daí pode advir, em função do cumprimento ou incumprimento das promessas feitas pelo candidato do MPLA, João Lourenço (JLo), é uma grande, mas mesmo muito grande maka no seio do próprio MPLA no primeiro caso, ou uma enorme agitação social, se as promessas não forem cumpridas.

Para terminar esta abordagem, no que diz respeito à pré-campanha eleitoral, é mister assinalar que o tempo de antena de um minuto consagrado pela TPA à oposição, enquanto as campanhas eram noticiadas, correspondia, a cerca de vinte minutos de propaganda ao MPLA e a João Lourenço; os transportes de JLo e da sua numerosa comitiva foram pagos, por uma boa parte, pelo erário público; os espectadores dos seus eventos de massas eram, primeiro, assediados ou mesmo obrigados a ir à festa do partido e, depois, muitos deles foram transportados por camiões de 40 tonelada, de pé, atrás da cabine, como se fossem bestas de carga, Mas iam, havia comida e bebida para todos ! Etc…

Quanto às esperanças do povo, das duas uma, se forem cumpridas as promessas que JLo fez, o mwangolé vai viver no “temor tremendo” duma implosão no seio do MPLA, se não forem, vamos constatar que não será possível o milagre de levar o rio caudaloso da opressão e da pré-falência económica fraudulenta ao mar livre da expressão oral e de pensamento, da honestidade política e, muito menos, de qualquer expressiva demonstração do ideal democrático.

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