A Comissão Nacional Eleitoral (CNE) admitiu hoje “pequenas falhas” no processo de votação das eleições gerais angolanas, entre elas a rejeição pelos presidentes das assembleias de voto da presença de delegados de lista dos partidos políticos para fiscalização. Pequenas? Claro. Se a sucursal do MPLA o diz…

Há por todo o país, sobretudo em locais menos mediáticos, assembleias de voto onde não é preciso pôr o dedo no tinteiro nem apresentar a identificação. Um nosso leitor (devidamente identificado mas sobre o qual mantemos o anonimato) explicou ao Folha 8 que recebeu do MPLA uma lista com vários nomes que deve adoptar quando for votar.

“Nesses locais digo apenas o meu suposto nome. Eles dão baixa e nem fingem que verificam a identidade. Eles dão baixa, eu voto e vou embora,” explica. Fazendo fé na explicação do presidente da CNA, André da Silva Neto, é apenas e só uma “pequena falha”.

Um outro leitor que vota no Huambo, conta: “Fui votar e lá disseram-me que não podia porque já tinha votado. Como assim? Estava lá registado. Protestei. Então disseram-me: Não há problema, vota novamente. E votei.” Apenas e só uma outra “pequena falha”.

Será que, como no caso das galinha que grão a grão enchem o papo, a soma das pequenas falhas não darão um grande jeito a alguns? Provavelmente não, dirá André da Silva Neto.

A situação das “pequenas falhas” foi relatada pelo presidente da CNE, André da Silva Neto, quando procedia ao balanço provisório do processo de votação das eleições gerais angolanas, a decorrer hoje.

André da Silva Neto reconheceu que este foi “um incidente que não se ultrapassou facilmente”, a alteração decidida, terça-feira, pelo plenário da CNE sobre a forma como os delegados de lista deveriam fiscalizar o acto de votação.

Segundo o responsável do órgão eleitoral do MPLA, inicialmente a CNE tinha decidido que em cada mesa de voto deveriam estar um delegado de lista de cada um dos partidos concorrentes e um suplente.

Face aos atrasos no credenciamento destes delegados de lista, cuja responsabilidade encarna uma “enorme falha” da CNE, na ordem dos 51.000 para cada uma das formações políticas concorrentes, o órgão eleitoral, por reclamação dos partidos, alterou o figurino, informou André da Silva Neto.

“Decidimos que os suplentes naqueles locais em que havia mesas por se colocar delegados efectivos, os delegados suplentes se convertessem em delegados efectivos”, explicou.

Questionado pela agência Lusa, sobre o número de delegados de lista credenciados pela CNE, André da Silva Neto apontou para cerca de 168.890 pessoas, uma cifra aquém da quantidade apresentada pelos partidos políticos. Uma “peque falha”, dirá o MPLA pela boca do presidente da CNE.

Acrescentou que a decisão foi tomada já noite e encaminhada a deliberação às comissões municipais eleitorais, mas, por sua vez, “tiveram algumas dificuldades inicialmente para fazer chegar este procedimento às respectivas assembleias de voto”.

“E quando esses delegados suplentes se dirigiram às mesas, para exercer esse direito como delegados efectivos, esbarraram na autoridade natural do presidente da assembleia de voto que desconhecia em princípio esta orientação”, avançou.

Desconhecia? Como é natural, desconhecer o que não interessa é uma excelente forma de alimentar e potenciar o que interessa. A bem, é claro, do regime e do seu candidato.

Chegado ao conhecimento da CNE, a situação foi “rapidamente” alterada, fazendo chegar a comunicação aos presidentes das assembleias de voto. Daria para rir. É mais uma peça da palhaça da CNE na sua caminhada para liderar o ranking do anedotário nacional.

“E neste momento a situação está regularizada, os delegados de lista suplentes estão a cobrir as mesas vazias, fazendo a vez dos delegados efectivos e está ultrapassada, felizmente, esta pequena falha que se verificou em relação aos delegados de lista”, disse.

Disse e pode continuar a dizer. No entanto, André da Silva Neto não pode fazer de nós débeis mentais e matumbos congénitos. Confundir o corredor de fundo com o fundo do corredor pode ser uma boa estratégia para os acólitos do regime, tipo TPA, RNA, TV Zimbo e Cª, mas connosco não pega.

Ainda sobre falhas registadas no processo de votação, o presidente da CNE indicou o atraso na abertura de algumas assembleias de voto, em alguns pontos do país, sobretudo em zonas de difícil acesso.

“Naquelas zonas onde sobretudo só se pode chegar por via aérea registaram-se alguns atrasos, quer porque os aviões preparados para o efeito, nomeadamente helicópteros, registaram algumas avarias, mas já foram superadas e neste momento todas as assembleias de voto estão abertas e o povo continua a votar de forma despreocupada, alegre e em forma festiva”, regozijou-se.

Até os helicópteros avariam. É preciso ter azar…

Trabalhar de barriga vazia

Areduzida afluência de eleitores era o cenário que se verificava esta tarde, muito perto já do encerramento das eleições em grande parte das assembleias de voto em Luanda, uma delas a número 674, que reclama ainda pouca logística e défice de delegados de lista.

A funcionar na escola do I ciclo 3012, no município do Cazenga, arredores de Luanda, o presidente daquela assembleia de voto, João Manuel, contou que a “grande preocupação” que marcou o dia foi sobretudo “a falta de alimentação para os delegados de lista dos partidos concorrentes”.

“Até agora apenas os delegados de lista do MPLA tiveram acesso à alimentação directa, o resto, estamos aqui apenas dependentes da solidariedade da equipa em trabalho e compramos uma ou outra coisa para comer. A situação é preocupante e muito complicada, trabalhar com fome”, disse.

Uma outra preocupação relatada tem a ver com “o défice de delegados de lista, sobretudo dos partidos FNLA, APN e PRS”, que estava a ser colmatada “com alguns delegados suplentes, que vão surgindo já a última da hora”.

Quanto à adesão de eleitores, o presidente da assembleia de voto número 674, a funcionar com seis mesas de voto, fez saber que a grande afluência de eleitores se registou no período da manhã, e que “a esta altura os eleitores vão surgindo a conta-gotas”.

É o caso de Paciência Manuel, que apenas se dirigiu à sua assembleia de voto, esta tarde, devido a ocupações profissionais.

“Apenas agora porque até a esta altura encontrava-me a trabalhar e como sei que o voto encerra às 18:00, vim cá cumprir o meu dever e foi rápido”, disse a balconista de 33 anos.

Folha com Lusa
Foto: Garcia Mayamona

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