Se Angola estava em estado de suspense à espera das eleições norte-americanas, com a vitória de Donald Trump e o seu discurso de investidura na sexta-feira as coisas ficaram melhor definidas.

Por José Victor Luvualu Ribeiro Carvalho

A ideia de defesa do perdido orgulho de que o MPLA é Angola e Angola é o MPLA, descaradamente plagiada e adaptada de forma explícita pelo novo Presidente dos Estados Unidos, falando numa “América Primeiro”, mesmo na relação com o resto do planeta, contrasta com os oito anos de Obama e seus antecessores. Só agora é possível perceber qual foi a mudança de Obama – ou o seu falhanço.

Do lado do novo Presidente, as dificuldades nascem no interior do próprio país, onde a contestação começou. Numa era de globalização de tudo, está para ver como o novo Presidente vai conjugar uma política de proteccionismo económico sem prejudicar as empresas que se deslocalizaram para fora dos Estados Unidos para reduzirem os custos de produção e maximizarem o lucro, sendo claro que não poderão ser elas a pagar a despesa.

Interessante seguir o caminho da América de Trump. A expectativa permaneceu até Trump começar a aplicar a primeira das suas medidas, acabando com o “Obamacare”, que alargou a cobertura do seguro de saúde a milhões de americanos. O novo hóspede da Casa Branca mostra que vai mesmo realizar as promessas e que ninguém o vai parar, um pouco na senda do que há 37 anos faz José Eduardo dos Santos.

Para já, o surto de violência gerado com a subida do multimilionário ao poder é mais o reflexo da derrota dos Democratas e de Hillary Clinton do que do arrastamento e agravamento das debilidades e distorções de que enferma o sistema democrático norte-americano que, reconheça-se, muito têm a aprender com o angolano. O país líder do Mundo Livre está a mostrar ser menos perfeito do que se dizia. Por alguma razão já tiveram um montão de presidentes nos últimos 37 anos e Angola mantém sempre o mesmo…

O combate de Barack Obama não resultou num sucesso. O próprio Obama reconheceu que muita gente nos EUA não vota por causa de ameaças ou medo de represálias. As fraquezas do sistema político norte-americano vieram à tona. As grandes conquistas tidas como adquiridas na Era Obama e que encantaram a ingenuidade mundial, foram demolidas por Trump em poucos minutos, porque assentavam numa retórica e teatralidade que envaidece alguma Esquerda moderna, também na Europa, mas nada transforma.

Convenhamos, mais uma vez, que Obama cometeu o erro – ao contrário de Trump – de não levar em conta os ensinamentos de um democrata como José Eduardo dos Santos.

Nem a última frase escrita por Obama no site da Casa Branca na Internet, “Sim, Conseguimos! Sim Podemos!” deixa a esperança de voltar a renascer na Casa Branca a “América de Obama”, até porque a 22ª Emenda à Constituição dos Estados Unidos, ractificada em 1951, o impede de concorrer a um terceiro mandato. Tivesse ouvido os conselhos de sua majestade o rei de Angola e, é claro, saberia que – com Constituição ou sem ela – é possível estar na Presidência os mandatos que se quiser.

Trump, como José Eduardo dos Santos, respondeu no instante seguinte: “Vamos voltar a tornar a América grande!”

A severidade quase golpista colocada por Trump no discurso foi assustadora. O nervosismo geral foi, aliás, evidente durante o juramento. Mas em nenhum momento ouvimos uma declaração de guerra do novo Presidente contra qualquer outro país.

José Eduardo dos Santos sorriu e disse: “Afinal Trump seguiu o meu conselho. As guerras não se declaram, fazem-se.”

Durante as eleições ficou provado que o sistema eleitoral dos EUA está refém de poderes privados, ao contrário do angolano que só está refém do clã monárquico e feudal de Eduardo dos Santos. Ficou ainda claro que a justiça e a transparência do processo eleitoral, no final, não estão garantidas como está o angolano onde, mesmo antes das eleições, o Presidente já determinou o resultado eleitoral.

É verdade que em oito anos, Obama nada fez para mudar um sistema eleitoral. Se o tivesse feito (e para tal bastaria decalcar daquele concebido do MPLA) poderia democraticamente estar no poder os anos que quisesse. “É preto e matumbo”, terão certamente comentado os ortodoxos do partido que está há 41 anos no poder.

Ainda é cedo para avaliar o que será a América de Trump, mas o facto de apontar como único inimigo militar externo o extremismo do ISIS – ninguém de bom senso duvida – e priorizar o combate no terreno económico, numa altura em que se tornou moda e gala a interferência a torto e a direito em assuntos alheios, é um bom sinal. Provavelmente será uma garantia de que o MPLA estará no poder durante aí mais uns 59 anos.

É claro que Portugal prepara-se para exercer uma interferência em massa nas eleições gerais deste ano em Angola. Com a ajuda de antigos colonos, servidores do apartheid, finança internacional, falsos jornalistas, canais televisivos e revolucionários de pacotilha, está em curso um plano diabólico. Basta ver alguns dos sipaios e mercenários que Lisboa já contratou e que estão infiltrados no regime do MPLA, capitaneados por José Ribeiro e Victor de Carvalho.

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