Abílio Kamalata Numa, dirigente da UNITA, maior partido da oposição angolana, reafirmou hoje a sua vontade de voltar a candidatar-se à liderança do partido, em caso da saída do actual líder do partido, Isaías Samakuva.

O político falava hoje à margem da II reunião da comissão Política da UNITA, que decorre de hoje até sábado em Luanda, onde se vai decidir a continuidade ou não de Isaías Samakuva na liderança do partido.

Segundo Abílio Kamalata Numa, como antigo militante do partido, está à altura de dar o seu contributo para “o avanço da missão que a UNITA tem em Angola”.

“Eu sou dos jovens da minha geração que entrei para a UNITA muito cedo, em 1974, e naquela altura nãos nos passava pela cabeça chegarmos até este ponto, e por imperativo das missões geracionais, a minha geração tem neste preciso momento uma oportunidade de poder dar o seu contributo para o avanço da missão que a UNITA tem em Angola”, referiu.

O general e ex-deputado da UNITA salientou que “não são os militantes que decidem”, referindo-se à continuação ou não de Isaías Samakuva, que manifestou vontade de deixar o cargo, considerando que “um dirigente tem de assumir ele próprio a sua responsabilidade”.

Acrescentou que quando chegar o momento de o congresso extraordinário ser convocado para decidir uma nova liderança, estará preparado para se candidatar, como já fez no passado.

O encontro tem como objectivo analisar aspectos da vida interna do partido e do país, com destaque para o desempenho da UNITA nas eleições de 23 de Agosto deste ano, bem como o pronunciamento do presidente do partido sobre a sua posição na direcção.

Isaías Samakuva foi eleito presidente da UNITA em 2003, após a morte em combate do líder fundador do partido, Jonas Savimbi, em 2002.

A 8 de Novembro, o porta-voz da UNITA, Alcides Sakala, admitiu que existia um consenso para sensibilizar Isaías Samakuva a retroceder na intenção de abandonar a liderança.

O anúncio de que pretende abandonar a liderança do partido, foi feito por Isaías Samakuva a 27 de Setembro passado, numa reunião do Comité Permanente, colocando o seu lugar à disposição no arranque de um novo ciclo político em Angola, após as eleições gerais de agosto, em que a UNITA ficou no segundo lugar.

15 anos à espera da resposta

Desde 2002 que a pergunta se coloca. A resposta ainda não chegou. A UNITA prefere ser salva pela crítica ou assassinada pelo elogio? É a ética que deve dirigir a política? As batalhas ganham-se ou perdem-se por causa dos generais ou por causa dos soldados?

Os resultados das “eleições” em Angola mostram que, como dizia o Presidente Jonas Savimbi, só é derrotado quem deixa de lutar. Seria, por isso, necessário que a UNITA continue a luta política. Seria ou é?

Mas a luta, a luta necessária em prol do povo angolano, não se faz, em Luanda, contra travessas cheias de lagosta. Faz-se junto dos que, com alguma sorte, encontram mandioca nas lavras.

E, mais uma vez, o exemplo deve partir de cima. Não basta que o Presidente Isaías Samakuva assuma a responsabilidade política pelas derrotas. Ele tem, ou deve, dar o exemplo. Exemplo ético de quem mandou o seu “exército” pela picada errada pelo que, como em tudo na vida, deveria “dar” o lugar a outros.

Se em qualquer guerra, até mesmo nas muitas que a UNITA travou em prol dos angolanos, os generais que falharam foram punidos, a situação actual é, ou deveria ser, a mesma.

Aliás, se a UNITA responsabilizasse quem falhou, por muita honestidade que tivesse posto na luta, estaria a dar um bom exemplo aos angolanos para que estes percebessem que, afinal, existe uma substancial diferença entre a democracia que a UNITA defende e a que é imposta pelo MPLA. Mas não está.

E se a UNITA quer, admitamos que quer mesmo, ser diferente (para muito melhor, espera-se) do que o MPLA, não pode usar a máxima “olhai para o que dizemos e não para o que fazemos”.

Importa igualmente recordar agora, e mais uma vez, que Samakuva (mesmo que tenha sido alguém por ele não o iliba) afastou da direcção do partido quadros que constituíam não só mas também a nata da UNITA. A tendência para substituir a competência pela subserviência deu no que deu. Uma catástrofe.

Sempre que precisa de tentar (ao menos isso) derrotar o MPLA, Samakuva aposta em gente de boa vontade mas de nula competência ou experiência. Samakuva esquece-se que a competência ou a experiência não se conseguem por decreto.

Vejam-se alguns exemplos que revelaram boa vontade mas que, na verdade, só serviram para que o MPLA comesse a UNITA de cebolada.

Lembram-se dos tempos em que o porta-voz UNITA-Renovada para a Europa, Baltazar Capamba, abriu caminho ao encontro, em Paris, entre o enviado do MPLA e Isaías Samakuva que, desde sempre, foi considerado por Eduardo dos Santos o político ideal para liderar a UNITA depois da morte de Savimbi?

A seriedade, honestidade e patriotismo da Samakuva não são suficientes para lutar contra uma máquina que está no poder em Angola desde 1975.

Com Samakuva a UNITA continuará a ser liderada por alguém que é sério, honesto e patriota mas que não consegue pôr o país a mexer, não temendo dizer as verdades que os angolanos querem ouvir, não temendo dizer quais são as soluções necessárias para que Angola deixe de ser apenas Luanda.

Folha 8 com Lusa

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