O superior provincial da Congregação dos Missionários do Espírito Santo em Portugal, António Neves, acredita que o candidato do MPLA à presidência de Angola tem “uma visão mais larga” e é “mais tolerante”, incluindo em relação à imprensa.

Missionário em Angola entre 1989 e 1994, num período crítico da guerra civil, jornalista, com doutoramento sobre o impacto das intervenções da Igreja Católica no processo de paz angolano, e autor de vários livros sobre a missão da igreja em África, António (Tony) Neves diz que, apesar de o candidato à sucessão de José Eduardo dos Santos, João Lourenço, ser militar, há alguma “esperança”, que espera não ver defraudada.

Ao dizer que “espera não ver defraudada” alguma “esperança”, Tony Neves mostra que conhece bem os meandros da monolítica estratégia do regime, o mesmo é dizer, sabe já que o MPLA vai vencer as próximas eleições.

Para o responsável máximo dos Espiritanos em Portugal, a Igreja Católica tem gozado de “alguma intocabilidade” junto do Governo angolano porque durante a guerra civil esteve “ao lado das populações, procurando minorar o seu sofrimento” e manteve “um discurso equidistante”, sempre pronta para “denunciar as atrocidades, fosse quem fosse o responsável”.

Neste aspecto da equidistância, Tony Neves sabe o que diz mas não diz o que sabe. Ou seja, sabe bem que a Igreja Católica esteve, e está, sempre do lado dos que têm como única arma a razão da força, estando-se nas tintas (salvo raras excepções) para os que apenas têm do seu lado a força da razão.

“As relações entre o Estado e a Igreja são agora relativamente pacíficas” em Angola, embora o poder “não ache muita piada às críticas à acção do Governo, à apropriação de terras, à injustiça nos salários”, aos apelos “sobre direitos humanos e à paz” e à doutrina social da igreja, afirmou.

A última carta dos bispos angolanos é “demolidora”, nomeadamente na denúncia das carências na área da saúde, disse, salientando que a Igreja Católica expressa o que o povo não diz por receio. Raramente é assim, mas deveria ser assim… sempre.

Esta “autoridade moral” conquistada pela Igreja Católica tem permitido um reconhecimento, mesmo quando há “ataques bravos” na comunicação social “oficial”, apesar de se manterem “alguns sinais de falta de liberdade de expressão”, diz Tony Neves.

Como exemplo apontou a proibição de extensão do sinal da rádio Ecclesia para fora de Luanda, apesar de autorizada desde 1997.

Falando em Fátima, onde assistiu às celebrações do centenário das “aparições” presididas pelo papa Francisco, Tony Neves frisou a devoção de Angola a Nossa Senhora de Fátima, patente na presença de uma delegação com três bispos e de grupos de peregrinos de várias paróquias do país.

Depois de uma “crise forte” em 2002, ano em que terminou a guerra civil e se assistiu a um “esvaziamento de seminários e igrejas” pela procura de gente com formação para ocupar lugares na administração, a igreja angolana teve um “recrudescimento não esperado” a partir de 2007-2008, com o aparecimento de novos seminários e a reabertura de outros de norte a sul do país, situação que constatou numa visita que fez há um ano.

“Há uma vitalidade vocacional”, disse, salientando que a procura dos seminários acontece por devoção, já que a oferta de ensino e de formação superior “também explodiu”, com a abertura e reabertura de escolas e universidades nas províncias, o que permite que a língua portuguesa esteja “em alta” e “completamente difundida”.

Tony Neves sublinhou ainda a “boa relação” com as outras religiões cristãs em Angola, cimentada durante o “período crítico de perseguição” vivido durante a guerra, lamentando a “quantidade impressionante” de “seitas” que têm aparecido e são reconhecidas pelas autoridades, “fragilizando as igrejas clássicas”.

Livro de Tony Neves

“Angola – Justiça e Paz nas Intervenções da Igreja Católica 1989 -2002”, é o título do livro de Tony Neves, apresentado no final de 2012 no Auditório Municipal de Gondomar, e que tem prefácios de D. Manuel Clemente, então bispo do Porto e hoje Cardeal-Patriarca de Lisboa, e de Marcelo Rebelo de Sousa (hoje Presidente da República de Portugal) e posfácio de D. Gabriel Mbilingi (Arcebispo do Lubango).

A obra corresponde à tese de doutoramento em Ciências Políticas de Tony Neves, padre natural da Foz do Sousa (Porto) e que depois de ordenado sacerdote, em 1989, foi missionário em Angola durante a guerra civil, de 1989 a 1994.

“Angola – Justiça e Paz nas Intervenções da Igreja Católica 1989 -2002”, pode ser, segundo Marcelo Rebelo de Sousa, considerado um “trabalho único” pois apresenta “um conjunto de depoimentos valiosos” e dá a conhecer uma investigação “séria e criteriosa” sobre o ensino da hierarquia em relação aos conceitos de Justiça e Paz.

Tony Neves diz que com esta obra quis “provar que a Igreja Católica foi uma instituição muito importante no processo de paz” em Angola e que a instituição “interveio em contexto de alto risco, para reparar os danos causados pela guerra”. Mais do que um estudo científico, o livro é – de acordo com o autor – uma “tese de vida”.

Folha 8 com Lusa
Foto: Tony Neves durante a sessão de autógrafos do seu livro

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