Ainda não chegamos ao termo dos 100 dias de estado de Graça referente à governação do presidente João Manuel Gonçalves Lourenço, mas, em virtude do rumo que têm tomado os acontecimentos, já podemos fazer o ponto da situação nesta altura, em que o dilema está centrado na indispensável harmonia entre o poder Executivo e o MPLA, partido ainda liderado pelo ex-presidente José Eduardo dos Santos.

Como já foi escrito neste espaço, num país onde a maioria dos cidadãos evidencia amnésia política e já canta hosanas ao novo Presidente da República, torna-se quase despercebido que há uma evidente distância entre um reformador e a figura de um JLo com uma mão cheia de promessas e actos de charme político.

JLo vai às províncias para seguir de perto e informar-se, in loco, sobre os problemas do povo, aboliu o espectacular, ridículo e dispendioso espectáculo protagonizado pela UGP a seguir o Presidente da República para o proteger aquando das suas deslocações ao terreno, tal como fazia o megalómano José Eduardo dos Santos.

Vai de visita aos hospitais para se informar do lastimável estado de saúde da Saúde, chega à um multicaixa (multibanco) e, suportando a fila, espera pacientemente pela sua vez para poder realizar a operação que pretendia. Faz parar a viatura protocolar da Presidência, que lhe assiste, quando nas ruas de Luanda o semáforo vira ao vermelho, e deixa passar os motoqueiros e os taxistas.

Os cidadãos ficam extasiados, a pontos de que muitos quase o enchem de beijos, como comentou um usuário do Facebook.

Com actos de charme político como os acima descritos e outros, JLo tem levado a cabo uma espécie de propaganda de si mesmo, sem prejuízo de que seja essa a sua natural maneira de agir, como um presidente de trato simples, acessível ao cidadão e desprovido da mania dos protocolos e dos primeiros lugares. Mais do que isso, João Lourenço tem passado a ideia-promessa de que ele é o Reformador de Angola. Quanto a este último ponto, “calmex”, estamos longe do cômputo final.

No que toca aos seus actos concretizados até esta data, as exonerações em cascada, o controlo mais apurado dos gastos públicos e as medidas tomadas para repor nos cofres do Estado o dinheiro que um número indefinido mas grandioso de criminosos do poder roubaram na era passada, a do “Eduardismo” exacerbado, a que se juntam a exoneração de Isabel dos Santos do poleiro supremo da Sonangol e de dois outros filhotes que tinham invadido, alegadamente por orientação sua, o canal 2 da TPA, o que podemos dizer que é urge aconselhar ao PR que se cuide.

Eles não brincam, se for preciso matam, para depois serem heróis. Nestas andanças, JES não deixou passar a ocasião para dar um ar da sua graça, num lamento elegante em que se adivinham ameaças nas entrelinhas.

Veio a público afirmar com força, que o seu partido, o MPLA, é que tem por função histórica o dever de “liderar o combate à corrupção e ao nepotismo no país, males que mancham a imagem do Estado e do Governo angolano”, como quem dissesse, «Deixa-te de M…., tira-te lá daí e cala a boca».

No que diz respeito às exonerações dos seus filhotes também veio a público mais tarde. Fez uma tristíssima figura. Começou por dizer que ser parente de um dirigente supremo não impedia de ocupar cargos de direcção por opção deste último e que, heu… porque… heu, heu!… Nada saiu da sua boca, abanou a cabeça da esquerda para a direita e da direita para a esquerda e lá conseguiu dizer que «as regras agora mudaram».

Passou ao outro assunto triste… E tanto mais triste que da última sessão do Comité Central do MPLA saiu um documento estranho e surpreendente em que está plasmado que o MPLA e todos os seus militantes têm por dever dar inteiro apoio ao presidente João Lourenço.

O cúmulo da hipocrisia numa demonstração digna do seu comprovado maquiavelismo. Que se cuide o corajoso JLo, eles vão fazer tudo e mesmo mais que tudo, o que é imaginável num Estado de Direito para lhe tirar as rédeas do poder e pô-lo fora da carroça.

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