A UNITA defende um diálogo aberto e construtivo entre o Governo de Angola e Cabinda, disse o vice-presidente Raúl Danda, que participou hoje no funeral do líder cabindense Nzita Tiago, em Paris.

“A UNITA defende permanente e insistentemente a realização de um diálogo construtivo, honesto, aberto transparente entre o Governo de Angola e a sociedade cabindense no sentido de se encontrar uma solução que dignifique as partes e que confira dignidade também a Cabinda”, declarou à Lusa Raúl Danda.

“É um desejo da UNITA, que exprime esse desejo, de que de facto se possa chegar a esta solução e estou seguro que é não com o passamento de Nzita Tiago que as coisas vão mudar, antes pelo contrário, precisam ser reforçadas”, declarou Danda.

O líder histórico da FLEC/FAC, Nzita Henriques Tiago, 88 anos, faleceu no dia 3 deste mês em Paris, vítima de doença prolongada.

A FLEC luta pela independência de Cabinda, alegando com toda a legitimidade não só histórica como legal, que o enclave é um protectorado português, tal como ficou estabelecido no Tratado de Simulambuco, assinado em 1885, e não parte integrante do território angolano.

“Enquanto organização, a UNITA emitiu um comunicado a lamentar o passamento físico do presidente Nzita Tiago”, referiu Raúl Danda, que disse estar num momento de reflexão, pois também era parente de Nzita Tiago.

A FLEC precisa, segundo o vice-presidente da UNITA, no seu quadro interno, de encontrar uma forma de cobrir “a lacuna que deixa Nzita Tiago”.

Emmanuel Nzita, filho de Nzita Tiago, foi eleito presidente da Frente de Libertação do Enclave de Cabinda/Forças Armadas de Cabinda (FLEC/FAC) pelo Alto Comando Militar do movimento, no dia 7 de Maio.

“Tenho muita pena que o Presidente Eduardo dos Santos tenha deixado morrer Nzita Tiago, que insistentemente lhe vinha enviando cartas e mandando recados, quer de maneira formal e informal, para que se chegasse a um diálogo para que pudesse levar ao fim o conflito em Cabinda”, referiu Raúl Danda.

Raúl Danda insistiu em dizer que existe sim um conflito em Cabinda e que não se pode negar e nem esconder essa situação.

“Enfim, (o Presidente angolano) pode ir a tempo de redimir-se diante do povo de Cabinda, dialogando com o povo irmão de Cabinda para se encontrar uma solução para terminar o conflito”, argumentou Danda.

Também esteve presente no funeral o secretário-geral da Frente Consensual Cabindense (FCC), Belchior Tati, entre outras personalidades de Cabinda e de outras países.

Num comunicado, o Fórum Cabindense para o Diálogo (FCD) também lamentou a morte do líder histórico da FLEC/FAC, Nzita Tiago.

“Nesta hora de luto, a direcção do FCD, em nome dos seus membros, militantes, afiliados, simpatizantes e amigos, verga-se perante a sua memória e endereça à família enlutada os maiores sentimentos de pesar”, referiu a nota.

Dos Santos usa tese de Salazar

Talvez quando Angola for uma democracia e um Estado de Direito se encontra uma solução para Cabinda. Até lá, José Eduardo dos Santos terá de ser ele responsabilizado, entre muitas outras coisas, por defender para Cabinda o que o regime de Salazar defendia para Angola. Ou seja, um regime colonialista onde impera a regra (também praticada pelo regime em Angola) de que até prova em contrário… todos são culpados.

A verdade é que o regime de Angola sonega aos cabindas os seus mais elementares direitos, amordaçando pela força todas as tentativas de colocar a força da razão acima da razão da força. E enquanto assim for, os cabindas têm de fazer suas as palavras do MPLA: a luta continua, a vitória é certa.

Não nos esqueçamos, por exemplo, que o sipaio director do Boletim Oficial do regime, José Ribeiro, afirma que os amigos de Raúl Danda são os que “encomendam a morte de civis isolados, desportistas e jornalistas nas estradas de Cabinda”, são os que “compraram explosivos e armas para destruir o aeroporto de Cabinda”.

Faltou ao sipaio acrescentar, mas certamente não faltarão oportunidades, que os amigos do deputado são também aqueles que assassinaram mais de 80.000 angolanos depois dos acontecimentos de 27 de Maio de 1977, acusados de serem apoiantes de Nito Alves.

Diz ainda o regime, no caso através do referido sipaio, que “Raúl Danda está habituado a dizer sobre Cabinda o que lhe vem à cabeça, sem contraditório”, mas que “tem agora que se habituar a partilhar esse palco com os antigos dirigentes da FLEC que estão empenhados na paz e na reconciliação nacional. E que sabem que isso só é possível com verdade e não por trás do biombo dos falsos activistas dos direitos humanos”.

Curiosamente, e na sua ânsia de ser mais do que um riacho, Ribeiro meteu água ao falar de paz e reconciliação nacional. O sipaio está a reconhecer e – mais do que isso – a contrariar as teses do seu patrão que, desde há muito, diz que em Cabinda está tudo bem, na santa paz do representante divino em Angola, de seu nome José Eduardo dos Santos.

Terroristas hoje, heróis amanhã

Ouvindo a verdade absoluta do regime, fica-se com a impressão que o nacionalismo cabinda, com as suas lídimas aspirações à autodeterminação, surge nos fins dos anos noventa. Essa é a estratégia oficial que, ao subverter a realidade, tenta passar a ideia de que os cabindas são terroristas e subversivos, justificando por isso prisões, raptos e assassinatos.

Importa, por isso, recordar (para além do facto de ninguém ser dono da verdade) que, por exemplo, FLEC/FAC foi fundada em Agosto de 1963, fruto de um longo processo político nos anos quarenta. Testemunhas, ainda vivas, atestam as idas, separadamente, de cabindas e angolanos à ONU.

Termos, como Paz, Reconciliação e Desenvolvimento, parecem ter, quando se fala de Cabinda, uma outra conotação e, simplesmente, esvaziados da força quer humana quer histórica que transportam, em princípio, consigo. A Paz que o regime impõe em Cabinda é ter as povoações cercadas de militares, é impedir que os cabindas vão livremente às lavras e à caça, é conviverem, sem direito à indignação, com a discriminação e permanentemente sob a mira de uma polícia com carta-branca para tudo, de uma Polícia de Investigação Criminal que primeiro prende e, posteriormente, investiga. Segundo o regime, para Cabinda é, até, impor-lhe um deus, uma igreja e um pastor à força da baioneta.

Reconciliação para os cabindas é, segundo o regime de Eduardo dos Santos, desaparecer como Povo e ajoelhar-se diante um poder sempre predisposto a humilhar e a descaracterizá-lo. Desenvolvimento para Cabinda é ter a mão estendida aos dois Congos para o frango, o feijão, o cimento e para a dor de dentes.

Em Cabinda vive-se uma guerra, desmentindo todos os que em Luanda dizem o contrário. Como se isso não bastasse, o regime confunde deliberadamente diálogo com monólogo. Tem sido sempre esta permanente sobranceria do Governo angolano, quando dialoga, monologando com o Povo de Cabinda, ao impor à FLEC as suas soluções unilaterais, amordaçando a Sociedade Civil, ao reduzir o seu espaço e calar a sua voz. Numa palavra; o cabinda não tem direito à cidadania.

As gerações sucedem-se, mas mantém-se indelével o sentimento profundo de um Povo, que uma acção política tendente simplesmente a cercear tudo o que cheira a cabinda: História (datas e momentos marcantes) e Cultura (nomes, língua e espaço vital) não logrou aniquilar. A política da palmatória não desenvolveu, até agora, no cabinda a Síndrome de Estocolmo, pelo contrário, enrijeceu a sua determinação em salvaguardar a sua especificidade.

Nenhuma solução será encontrada para Cabinda se o Governo e o MPLA, porque nem todo o Povo angolano pensa assim, continuarem a sofrer da psicose da ponte sobre-o rio Zaire. Esta unir-se-á com a RDC e não com Cabinda, se o cabinda não for poder em Cabinda.

A independência do Sudão do Sul, a queda de muitos Mubaraks e as grandes mudanças constitucionais levadas a cabo pelo próprio rei de Marrocos, Muhamed VI, deviam levar as elites do poder angolano a reflectirem seriamente sobre o futuro do território de Cabinda.

É um contra-senso que alguém que tenha lutado contra o colonialismo teima, agora, que um outro povo não viva a sua liberdade plena (mestre do seu destino colectivamente consentido e das suas riquezas) e que todos os dias lhe recordam que não é livre.

A FLEC e todos os seus líderes estiveram sempre abertos ao diálogo e a Sociedade Civil um facilitador, todavia, do lado do Governo meramente um fazer-de-contas com um monólogo insistente e ensurdecedor.

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