O presidente da Câmara Municipal do Porto, Rui Moreira, é nesta altura a mais proeminente figura na bajulação ao regime de José Eduardo dos Santos e ao seu clã. Na óptica dos donos de um dos países mais corruptos do mundo o autarca está de parabéns. E está mesmo. Chafurdar nessa realidade é para muitos políticos portugueses uma questão de vida.

Por Orlando Castro

Pois é, Presidente Rui Moreira: Uma em cada seis crianças angolanas morre antes de completar cinco anos. Os dados são da Unicef. O dono do país, o seu amigo José Eduardo dos Santos, sorri e a você aplaude.

“Este é um país repleto de petróleo, diamantes e milionários que conduzem Porsches e crianças a morrer à fome”, diz Nicholas Kristof na sua reportagem sobre a mortalidade infantil em Angola e publicada no The New York Times.

Pois é, Presidente Rui Moreira: Para além dos números preocupantes relativos à mortalidade infantil, os dados indicam ainda que mais de um quarto das crianças está fisicamente afectado pela subnutrição e que os casos de morte materna durante o parto são de 1 em 35. O dono do país, o seu amigo José Eduardo dos Santos, sorri e a você aplaude.

A taxa de mortalidade das crianças até aos 5 anos de idade é um indicador do bem-estar infantil e calcula a probabilidade de morrer entre o nascimento e os 5 anos, expresso por cada 1000 nascimentos vivos. Segundo um novo relatório da Unicef, Angola registou um valor de 164 crianças – um número apenas ultrapassado pela Serra Leoa, que ocupa o 1º lugar da tabela com uma taxa de mortalidade de 182 crianças. O dono do país, José Eduardo dos Santos, sorri e Rui Moreira aplaude.

Vejamos o que disse o Presidente da República de Angola, não eleito nominalmente e no poder desde 1979 , José Eduardo dos Santos, por ocasião do 1 de Junho de 2011, Dia Internacional da Criança.

Na mensagem do dono disto tudo lia-se: “Hoje, Dia Internacional da Criança, queremos saudar as crianças do nosso país e do mundo, fazendo votos para que lhes seja prestada uma atenção cada vez mais activa e empenhada na resolução dos seus múltiplos problemas”.

Eduardo dos Santos, tal como faz com os adultos que o não idolatram, enxovalha desde logo 45% das crianças angolanas que sofrem de má nutrição crónica, gozando com a chipala faminta de 25% delas (uma em cada quatro) que morrem antes de atingir os cinco anos de idade, bem como com as que são geradas com fome, nascem com fome e morrem pouco depois… com fome. E enquanto o dono do país sorri, Rui Moreira aplaude.

Dando sequência ao seu ADN, o regime de Eduardo dos Santos conseguiu manter Angola entre os seis países considerados mais corruptos no novo Índice de Percepção de Corrupção da Transparência Internacional. A comunidade internacional sorri e, é claro, Rui Moreira aplaude.

No espaço de um ano, como revela a DW, Angola desceu duas posições no Índice de Percepção de Corrupção de 2015, divulgado pela organização Transparência Internacional. Está agora entre os seis países considerados mais corruptos, num total de 168 Estados analisados. Ficou na posição 163 em ex-aequo com o Sudão do Sul. Atrás ficam apenas o Sudão, Afeganistão, Coreia do Norte e Somália. A comunidade internacional sorri e, é claro, Rui Moreira aplaude.

A Transparência Internacional acentua as dificuldades em levar “responsáveis públicos corruptos” às barras dos tribunais angolanos. Alerta ainda para a “intimidação de cidadãos que denunciam corrupção”.

Enquanto Angola desce, todos os outros Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP) sobem no Índice da Transparência Internacional (embora alguns apenas devido ao sobe e desce dos outros Estados no ranking).

A Guiné-Bissau, por exemplo, subiu três posições, para o lugar 158, mas teve pior avaliação do que em 2014 . Moçambique ficou em 112˚ lugar (no ano anterior, ficou em 119˚). São Tomé e Príncipe subiu dez posições, para o lugar 66, mantendo, no entanto, a mesma avaliação que em 2014. Cabo Verde continua a ter a melhor nota de todos os PALOP: subiu, duas posições, para o lugar 40. O Botswana continua a liderar o ranking da África subsaariana.

De acordo com esta análise, que já leva mais de duas décadas, “ao todo, dois terços dos 168 países listados no índice de 2015 têm uma pontuação abaixo de 50, numa escala de 0 (considerado o mais corrupto) a 100 (considerado o menos corrupto)”.

Alguém ouviu Rui Moreira recordar que 68% da população angolana é afectada pela pobreza, que a taxa de mortalidade infantil é a terceira mais alta do mundo, com 250 mortes por cada 1.000 crianças?

Alguém ouviu Rui Moreira recordar que apenas 38% da população angolana tem acesso a água potável e somente 44% dispõe de saneamento básico?

Alguém ouviu Rui Moreira recordar que apenas um quarto da população angolana tem acesso a serviços de saúde, que, na maior parte dos casos, são de fraca qualidade?

Alguém ouviu Rui Moreira recordar que 12% dos hospitais, 11% dos centros de saúde e 85% dos postos de saúde existentes no país apresentam problemas ao nível das instalações, da falta de pessoal e de carência de medicamentos?

Alguém ouviu Rui Moreira dizer que 45% das crianças angolanas sofrerem de má nutrição crónica, sendo que uma em cada quatro (25%) morre antes de atingir os cinco anos?

Alguém ouviu Rui Moreira dizer que, em Angola, a dependência sócio-económica a favores, privilégios e bens, ou seja, o cabritismo, é o método utilizado pelo MPLA para amordaçar os angolanos?

Alguém alguma vez ouviu Rui Moreira dizer que, em Angola, o acesso à boa educação, aos condomínios, ao capital accionista dos bancos e das seguradoras, aos grandes negócios, às licitações dos blocos petrolíferos, está limitado a um grupo muito restrito de famílias ligadas ao regime no poder?

Não. Rui Moreira só está interessado nos poucos que têm milhões, tipo Sindika Dokolo a quem atribuiu a medalha de ouro da cidade do Porto, estando-se nas tintas para os milhões que têm pouco… ou nada.

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