Quase 2.600 figurantes (delegados na linguagem do regime), em representação de quase… 25 milhões de simpatizantes, fingem que escolhem em Agosto, em Luanda, durante o VII congresso ordinário do MPLA, a liderança do partido e o Comité Central.

A informação sobre o número de delegados ao congresso, num total de 2.591, foi transmitida hoje no final de uma reunião do Bureau Político do Comité Central do MPLA, presidida por José Eduardo dos Santos, igualmente chefe de Estado, Titular do Poder Executivo e rei, a qual serviu para supostamente apreciar anteprojectos de regulamento interno, do programa, das comissões de trabalho e da agenda do conclave de Agosto.

Entre outras questões, os delegados a este congresso – eleitos nas últimas semanas em todas as 18 províncias juntamente com os secretários provinciais do partido -, que se realiza em Luanda entre 17 e 20 de Agosto, vão eleger o presidente do MPLA e o Comité Central, preparando as eleições gerais de 2017.

O Presidente José Eduardo dos Santos, que anunciou que deixa a vida política activa em 2018, foi o único a avançar com uma candidatura à liderança do MPLA, anunciou anteriormente o vice-presidente do partido, Roberto de Almeida, acrescentando que o processo de recepção de candidaturas para quem quiser entrar na cadeia alimentar dos jacarés do Bengo “continua aberto até finais de Junho”.

José Eduardo dos Santos nomeou no início deste mês a filha mais velha, a empresária e herdeira do trono Isabel dos Santos, para Presidente do Conselho de Administração da empresa concessionária do regime do sector dos petróleos, Sonangol.

A herdeira Isabel dos Santos assume-se publicamente como militante do MPLA desde 1992 e está a ser apontada por como possibilidade para entrar no Comité Central do partido e mesmo sucessora de José Eduardo dos Santos. Coisa normal, acrescente-se, numa monarquia.

De acordo com o comunicado final da reunião, a candidatura foi do rei José Eduardo dos Santos foi aprovada por unanimidade (pudera!) pelos 264 membros do Comité Central do partido, presentes no evento, de um total de 311 que integram aquele órgão deliberativo.

José Eduardo dos Santos, presidente do MPLA e chefe de Estado angolano há 36 anos (sem nunca ter sido nominalmente eleito), anunciou no mesmo dia, antes desta aprovação, que deixa a vida política activa em 2018, ano em que completará 76 anos.

“Em 2012, em eleições gerais, fui eleito Presidente da República e empossado para cumprir um mandato que nos termos da Constituição da República termina em 2017. Assim, eu tomei a decisão de deixar a vida política activa em 2018”, anunciou José Eduardo dos Santos.

Entre outros momentos, recordou na ocasião que integrou o movimento anticolonial em 1960, aos 18 anos, e que em 1974 foi eleito membro da Direcção do MPLA.

Contudo, o chefe de Estado angolano não clarificou em que moldes será feita a sua saída da vida política e se ainda estará disponível para concorrer às eleições gerais previstas para Agosto de 2017, antes da sua retirada.

José Eduardo dos Santos é Presidente de Angola desde Setembro de 1979, cargo que assumiu após a morte de Agostinho Neto, o primeiro Presidente angolano.

Só depois do Prémio Nobel

Provavelmente sua majestade o rei só deixará a vida política activa quando vencer um, mais do que justo, Prémio Nobel. E, na verdade, já esteve muito perto. Se este ano a Academia Real Sueca se esquecer outra vez de dar o prémio ao “escolhido de Deus”, a revolta vai instalar-se no regime. O MPLA através dos impolutos órgãos de comunicação social do regime, nomeadamente, do Jornal de Angola, vai com certeza declarar a Academia Real Sueca “persona non grata”, prevendo-se a promulgação de um decreto, com efeitos retroactivos, em que se corta todo o tipo de relações com aquela instituição.

De facto, e aqui o F8 manifesta a sua solidariedade, não se compreende que tenha atribuído o Prémio Nobel da Paz a, por exemplo, Malala Yousafzai, a jovem paquistanesa que alertou o mundo para o direito à educação, em particular das raparigas, juntamente com o activista indiano pelos direitos das crianças, Kailash Satyarthi, esquecendo-se de José Eduardo dos Santos.

Estas escolha foi, aliás, um escândalo. Ninguém compreende. O que fizeram Kailash Satyarthi e Malala Yousafzai que se possa comparar ao que tem feito, desde 1979 (e mesmo antes), o monarca vitalício de Angola?

Segundo o Jornal de Angola (JA), órgão oficial do regime do “querido líder”, nome herdado do velho amigo e aliado Kim Jong-il, José Eduardo dos Santos foi e será sempre a figura africana de todos os anos nos últimos 36 anos e, certamente, a figura mundial dos últimos 14.

Todos os anos, quem manda no país diz que o Prémio Nobel para o presidente, não eleito nominalmente e no poder desde 1979, seria o mais elementar reconhecimento de que Eduardo dos Santos é “o líder de um ambicioso programa de Reconstrução Nacional”, que a “sua acção conduziu à destruição do regime de “apartheid”, teve “um papel de primeiro plano na SADC e na CDEAO”, que “a sua influência na região do Golfo da Guiné permitiu equilíbrios políticos, tal como permitiu avanços significativos na crise de Madagáscar”.

Ainda não há muito tempo que o JA escrevia que “Angola já foi um país ocupado por forças estrangeiras”, acrescentando que, “se por hipótese hoje Angola fosse a Líbia, o país estava novamente a atravessar um período de grande instabilidade e perturbação. Mas como o tempo não recua, Luanda é uma cidade livre”. E tudo graças a quem? A quem? Eduardo dos Santos, obviamente.

“Se Angola fosse a Líbia (e não é graças ao “querido líder”, ao “escolhido de Deus”) estava a ser cercada militarmente e bombardeada por uma aliança militar e submetida a todos os outros membros dessa organização bélica, que tinham escolhido para presidente de um qualquer CNT um “rapper” com nome de oxigénio, devidamente ajudado por outro com apelido de marechal”, dizia o JA do alto da sua cátedra de correia de transmissão de um regime que colocou o país no topo do mais corruptos do mundo. Deus não deve saber disso, mas a Academia Sueca sabe.

Mas é bom registar e relembrar as afirmações do JA. Desde logo porque, como sempre acontece nas ditaduras, ainda vamos ver os mesmos protagonistas embandeirar em arco quando Eduardo dos Santos passar de bestial a besta.

“Se Angola fosse a Líbia (e não é graças ao “querido líder”, ao “escolhido de Deus”), continua o JA, a esta hora as grandes petrolíferas estrangeiras estavam a roubar milhões de barris de petróleo por dia de Angola, antes que a resistência dos angolanos os impedisse de continuar o roubo. E os aviões da aliança, com a carta branca da Organização das Nações Unidas, estavam a despejar bombas sobre as nossas cidades, para proteger os civis do CNT”.

“Se Angola fosse a Líbia (e não é graças ao “querido líder”, ao “escolhido de Deus”) não havia partidos políticos nem liberdade de imprensa e muito menos eleições democráticas. A bela Constituição da República de Angola era rasgada na Praça da Independência, donde já tinham tirado o monumento a Agostinho Neto, aos gritos e com raiva para as câmaras de televisão mundiais repetirem de hora a hora de maneira interminável”, escreve o órgão do MPLA na senda do seu irmão Pravda, que foi o principal jornal da União Soviética e um órgão oficial do Comité Central do Partido Comunista da União Soviética entre 1918 e 1991.

“Se Angola fosse a Líbia (e não é graças ao “querido líder”, ao “escolhido de Deus”) este jornal não circulava e os seus jornalistas não se atreveriam a escrever estas verdades porque eram logo massacrados como estão a massacrar os negros em Tripoli e outras cidades líbias “libertadas” pela aliança militar”, considera o Pravda de Luanda.

Importa dizer, desde logo porque nem todas fomos comprados pelo regime, que o JA não tem jornalistas ao seu serviço. Tem, apenas isso, funcionários do partido que escrevem o que lhes mandam e que, em muitos casos, não assinam os textos porque ficaria mal em vez do nome colocar a impressão digital.

“Se Angola fosse a Líbia (e não é graças ao “querido líder”, ao “escolhido de Deus”), estávamos de novo a sofrer as investidas militares de regimes estrangeiros aliados a uma frente de oportunistas e intriguistas que procuram ignorar quem combateu e deu tudo pela concórdia e harmonia entre os angolanos”, afirma o órgão de propaganda do regime.

“O Presidente José Eduardo dos Santos não governa. Ele é o líder de um povo que teve de enfrentar de armas na mão a invasão de exércitos estrangeiros e os seus aliados internos”, escreve o JA, repescando as regras dos áureos tempos em que se impunha que o povo é o MPLA, o MPLA é o povo.

“José Eduardo dos Santos foi o líder militar que derrubou o regime de “apartheid”, o mesmo que tinha Nelson Mandela aprisionado. José Eduardo dos Santos só aceitou depor as armas quando a Namíbia e a África do Sul foram livres e os seus líderes puderam construir regimes livres e democráticos”, recorda com a sua habitual perspicácia o JA.

Neste aspecto, bem poderia ser menos modesto. É que foi graças a José Eduardo dos Santos que Portugal adoptou a democracia, que a escravatura foi abolida, que D. Afonso Henriques escorraçou os mouros, que Barack Obama foi eleito e que os rios passaram a correr para o mar…

“Os media portugueses pelo menos deviam reconhecer o que José Eduardo dos Santos tem feito para que os portugueses não vão ao fundo com a crise. Eles mais do que ninguém deviam propor o seu nome para Prémio Nobel da Paz”, salienta com raro sentido de oportunidade o Jornal de Angola.

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