Em toda a Lusofonia, os que têm, pelo menos, três refeições por dia têm razões para cantar e rir. E os milhões que nem um prato de pirão têm? Bem, esses não são propriamente pessoas. São uma espécie de escravos modernos, livres para estarem sempre de acordo com os senhores feudais.

Por Orlando Castro

Em todo o Mundo, milhões e milhões de pessoas sentem todos os dias, a todas as horas, o que é a fome. Quase todas nasceram com fome, sobreviveram com fome e morrem com fome.

Muitas delas pertencem à Lusofonia, apesar de os responsáveis pela Comunidade de Países de Língua Portuguesa continuarem a ter (pelo menos) três refeições por dia. O contributo lusófono para esta dramática cifra é relevante, pese a passividade e indiferença dos países que integram esse elefante branco que se chama CPLP.

Mais do que o peixe, os milhões de famintos da Lusofonia precisam de aprender a pescar. Mas quem é que os pode ensinar?

Em todo o Mundo, 1,1 mil milhões de pessoas não têm acesso a água potável; 2,5 mil milhões não têm saneamento básico; 30 mil morrem diariamente devido ao consumo de água imprópria. Esta é, igualmente, uma realidade da Lusofonia. Seja como for, os responsáveis da CPLP continuam a beber da melhor água… no mínimo.

A Sida já infectou mais de 60 milhões de pessoas e tirou a vida a um terço destas; e a malária mata 2,5 milhões de pessoas anualmente. Esta continua a ser uma outra vertente da Lusofonia. E a CPLP…

Por esse Mundo, 1,6 mil milhões de pessoas não têm acesso a electricidade e a maioria recorre à queima de combustíveis que provocam a poluição do ar e problemas respiratórios. Queiramos ou não, também aqui a Lusofonia dá o seu contributo.

Uma superfície de floresta tropical húmida do tamanho de um estádio de futebol é destruída em cada cinco segundos; e dentro de 30 anos um quarto dos mamíferos terá desaparecido. Novamente encontramos uma quota-parte desta verdade na Lusofonia.

Há quatro ano, Judith Lewis, do Programa Alimentar Mundial (PAM) da ONU, afirmava que cerca de 12 milhões de pessoas poderão morrer de fome em Angola, Botswana, Lesoto, Malaui, Moçambique, Suazilândia, Zâmbia e Zimbabwe se não forem distribuídos toneladas e toneladas de cereais. Aqui figuram dois lusófonos.

Até há pouco, o argumento da guerra (em Angola, na Guiné, em Moçambique e em Timor) serviu às mil maravilhas para que a CPLP, enquanto organização que congrega os países lusófonos, dissesse que só podia – quando podia – mandar algum peixe. Para ensinar a pescar era imprescindível a paz. E agora?

Segundo declarações do vitalício Presidente de Angola, José Eduardo dos Santos, feitas há quatro anos, existe a esperança de que “a vontade política que norteia a CPLP, bem como as excelentes relações entre os seus membros dêem lugar a programas concretos que fomentem o crescimento económico, a erradicação da pobreza e a integração social, para que a médio/largo prazo pudéssemos estar todos no mesmo patamar de desenvolvimento”.

E acrescentou: “deve-se, por isso, pensar muito seriamente na criação de facilidades financeiras para a promoção recíproca do investimento e da cooperação económica”.

Todos estão de acordo. Só que… continua a não fazer sentido pedir aos pobres dos países ricos para dar aos ricos dos países pobres. Continua a não fazer sentido ter, como acontece em Angola, um clã presidencial híper, mega milionário e um Povo que na sua esmagadora maioria passa fome.

Em vez de se preocupar com o povo que não pode tomar antibióticos (e não pode porque eles, quando existem, são para tomar depois de uma coisa que o povo não tem: refeições), a comunidade internacional apenas se preocupa em manter no poder os ditadores que considera bons, pouco se importando com os escravos que existem nesses países. É verdade. Nós sabemos. Os escravos morrem mas as riquezas não.

Que adiantará ter supostas democracia quando se tem a barriga vazia? Valerá a pena pedir, ou exigir, aos jovens activistas angolanos que respeitem a suposta legalidade se o que eles querem é apenas que o povo não morra à fome?

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