O embaixador itinerante do regime de José Eduardo dos Santos, Luvualu de Carvalho, considerou que a sucessão do Presidente angolano, José Eduardo dos Santos, não vai provocar cisões no MPLA, partido no Governo há 40 anos. Foi isso que o patrão o mandou dizer, foi isso que ele disse.

Em entrevista à agência Lusa, o diplomata itinerante do regime justificou que não acredita em cisões porque o MPLA “mostrou sempre ser um partido sério” e “com maturidade”, recordando os esforços da formação política, não apenas na libertação de angola, mas também da África Austral. Foi isso que o patrão o mandou dizer, foi isso que ele disse.

O embaixador referiu que este assunto vai ser debatido pelos delegados no próximo congresso do partido, previsto para agosto próximo, em que serão também debatidas as eleições de 2017 e o futuro de Angola.

Questionado como imagina Angola pós-Eduardo dos Santos, Luvualu de Carvalho referiu que espera “um país com um grande futuro, onde a juventude, acima de tudo, continuará a ter um papel fundamental para a manutenção da sociedade”. Foi isso que o patrão o mandou dizer, foi isso que ele disse.

“Acredito que continuará a ser este país de sucesso que é e a vencer estas dificuldades do século XXI”, disse. Foi isso que o patrão o mandou dizer, foi isso que ele disse.

José Eduardo dos Santos, presidente do MPLA e chefe do Estado angolano há 36 anos (nunca nominalmente eleito), anunciou a 11 de Março que deixa a vida política activa em 2018, ano em que completará 76 anos.

O anúncio foi feito em Luanda na abertura da 11.ª reunião ordinária do Comité Central do MPLA, convocado por José Eduardo dos Santos para preparar o congresso do partido, agendado para agosto e que servirá para preparar as candidaturas às eleições gerais de 2017 em Angola.

“Em 2012, em eleições gerais, fui eleito Presidente da República e empossado para cumprir um mandato que nos termos da Constituição da República termina em 2017. Assim, eu tomei a decisão de deixar a vida política activa em 2018”, anunciou José Eduardo dos Santos na sua declaração.

Contudo, neste discurso, o Presidente angolano não clarificou em que moldes será feita a sua saída da vida política e se ainda estará disponível para concorrer às eleições gerais de agosto de 2017 ou à liderança do partido, este ano, antes da sua retirada.

José Eduardo dos Santos é Presidente de Angola desde Setembro de 1979, cargo que assumiu após a morte de Agostinho Neto, o primeiro Presidente do país depois da independência.

Luvualu de Carvalho não se ficou por aqui. O patrão tinha outros recados para dar e, mais uma vez, o embaixador do regime tinha de os transmitir.

Assim, segundo o patrão José Eduardo dos Santos – embora pela voz do seu embaixador – a sentença dos activistas acusados de tudo o que fava jeito ao regime não interessa a 99% dos angolanos, acrescentando que este caso não afecta a imagem externa do país. Será que o patrão mandou dizer 99% ou 110%?

Assim, José Eduardo dos Santos (sempre pela voz do seu sipaio de serviço) disse não acreditar que a decisão de condenar os 17 activistas a penas de até oito anos e meio de cadeia “venha aumentar ou diminuir alguma contestação social” porque, “com certeza que 99% da população angolana não está interessada neste acórdão do Tribunal de Luanda”.

“Não existe nenhuma manifestação, não existe nenhum levantamento, existem naturalmente, e aceitam-se, opiniões contrárias, porque uma sociedade de unanimidades só em livros utópicos, mas a vida na sociedade angolana continua e o país há-de continuar também”, referiu Luvualu de Carvalho citando, é claro, ipsis verbis o seu patrão.
Questionado sobre se este caso pode afectar a imagem externa de Angola, Luvualu de Carvalho recorreu às instruções do “querido líder” e considerou que não porque “a comunidade internacional não são 26 pessoas que se reúnem no Rossio para gritar ‘Liberdade já’”.

“De maneira alguma, a imagem externa de Angola é a imagem de um Estado independente, de um Estado soberano, que tem as suas instituições bem conhecidas, que é livre há 40 anos”, referiu o Presidente do MPLA, o Titular do Poder Executivo e o Presidente da República, José Eduardo dos Santos, sempre através do seu reprodutor de eleição.

Escusando-se a comentar (não estava no guião fornecido pelo patrão) se esta condenação foi justa, o bobo do regime referiu apenas que neste caso “os cidadãos tiveram as suas garantias processuais em processo penal garantidas, tiveram acesso a advogado, tiveram um julgamento livre”.

“O facto de poder haver recurso para um tribunal superior deixa-nos garantias de que nem sempre aquilo que é propalado de que existe falta de justiça em Angola é verdade”, disse o rapazola após consulta à ordem de serviço.

Confrontado com a posição manifestada pela União Europeia, na terça-feira, de que este caso tem vindo a suscitar reservas sobre o respeito pelas garantias processuais e pelo princípio de proporcionalidade, Luvualu de Carvalho citou o seu patrão para dizer que “não há de ser uma comunicação de um grupo de embaixadores da União Europeia que vai mudar a imagem do país, que vai fazer com que o país deixe de ser o que é”.

A UE reiterou ainda o seu compromisso em “apoiar as autoridades angolanas na implementação das suas obrigações internacionais e em promover e proteger os direitos humanos”.

“Vamos crer que esta declaração é uma declaração de apoio para que a justiça seja feita, mas não acho que tenha a intenção de interferir na sentença ou no acórdão final que poderá haver do Tribunal Supremo ou do Tribunal Constitucional”, disse José Eduardo dos Santos, considerando que esta posição não vai afectar as relações de Angola com a UE.

Recorde-se que o tribunal do regime condenou na segunda-feira a penas entre dois anos e três meses e oito anos e seis meses de prisão efectiva os 17 activistas angolanos que estavam desde 16 de Novembro a ser julgados por co-autoria de supostos e nunca provados actos preparatórios para uma rebelião e associação criminosa.

Os activistas condenados rejeitaram sempre as acusações que lhes foram imputadas e garantiram, em tribunal, que os encontros semanais que promoviam – foram detidos durante um deles, a 20 de Junho do ano passado – visavam discutir política e não promover qualquer avção violenta para derrubar o regime.

Questionado sobre se estes activistas teriam meios para realizar um golpe de Estado, o Presidente de Angola referiu (sempre através do seu ventríloquo) que os serviços de informação angolanos, juntamente com o Ministério Público, decidiram tomar “medidas preventivas que impedissem que algo que estava a ser preparado e poderia tomar uma proporção descontrolada pudesse ocorrer”.

O dono de Angola (via sipaio Luvualu) considerou ainda que ficou provado em tribunal que os activistas “não estavam apenas a ler um livro, ideia que foi lançada erradamente por algumas pessoas de má-fé que pretendiam beliscar a imagem do Governo da República de Angola”.

“Estava-se a preparar um movimento de rebelião, como foi provado pelas imagens, um movimento de resistência, inclusive a prepararem-se técnicas de como pessoas podiam morrer perante a intervenção dos órgãos de defesa e segurança”, concluiu José Eduardo dos Santos.

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