O ministro da Defesa Nacional, João Lourenço, afirmou hoje, em Menongue, que entre as batalhas ocorridas no país, a do Cuito Cuanavale, na província do Cuando Cubango, foi a maior de todas, porque marcou o ponto de viragem do conflito em Angola e em toda a África Austral.

Por Orlando Castro

S e parasse por aqui, João Lourenço estaria perto da verdade. Mas não. Como está no ADN do regime, o Ministro continuou a propagar a mentira oficial, continuando a acreditar que dizendo vezes sem conta uma mentira ela se tornará verdade. Mas não é assim.

O ministro, que discursava no acto central do 55º aniversário do início da luta armada de libertação nacional, afirmou que a batalha do Cuito Cuanavale foi a maior de todas ocorridas no país, porque vergou o regime do Apartheid da África do Sul e abriu o caminho à liberdade dos povos da África do Sul e da Namíbia.

“Aqui, nesta província, foram escritas páginas gloriosas da história recente de África, de que nos devemos todos orgulhar e transmitir às gerações vindouras”, sublinhou João Lourenço, defendendo ser importante recordar e exaltar o rico passado de Angola de resistência de luta e de vitórias.

Se recorrermos ao pasquim do regime (Jornal de Angola), o “imponente edifício de aproximadamente 35 metros de altura, sob a forma de pirâmide, erguido de raiz logo à entrada da sede municipal do Cuito Cuanavale, com a denominação de “Monumento Histórico”, é sem margem de dúvidas a maior dádiva do Governo angolano para honrar a memória de todos aqueles que lutaram para defender aquela localidade da ocupação sul-africana”.

Não sabemos, embora eles saibam, onde é que o regime do MPLA (por sinal no poder desde 1975) quer chegar ao construir monumentos que enaltecem o contributo dos angolanos que consideram de primeira (todos os que são do MPLA) e, é claro, amesquinham todos os outros.

Importa, contudo, desmistificar as teses oficiais que não têm suporte histórico, militar, social ou qualquer outro. Apenas têm um objectivo: idolatrar uma mentira na esperança de que ele, um dia, seja vista como verdade.

De acordo com o Pravda de Luanda, “logo à entrada do pátio do monumento histórico, o visitante tem como cartão de visita uma gigantesca estátua de dois soldados, sendo um combatente das ex-FAPLA e outro cubano, com os punhos erguidos em sinal de vitória no fim dos combates da já conhecida, nos quatro cantos do mundo, “Batalha do Cuito Cuanavale”, que se desenrolou no dia 23 de Março de 1988”.

Não está mal. A (re)conciliação nacional não se solidifica glorificando apenas e só os angolanos de primeira (MPLA/FAPLA) e os seus amigos, os cubanos. Mas, também é verdade, que o regime angolano está-se nas tintas para os angolanos de segunda (afectos à UNITA). Até um dia, como é óbvio.

Diz o Pravda a batalha do Cuito Cuanavale terminou “com uma retumbante vitória das FAPLA e das FARC (Forças Armadas Revolucionárias de Cuba)”.

Importa por isso, ontem como hoje e amanhã, perceber o que leva o MPLA, como fez hoje o Ministro João Lourenço, a enaltecer esta batalha como se a vitória fosse do regime.

Visivelmente o regime continua a ter medo da verdade e aposta na criação de focos de tensão na sociedade angolana, eventualmente com o objectivo de levar acabo uma das suas especialidades: a purga.

Sabendo que a UNITA considera ter vencido essa batalha, idolatrá-la como se fosse uma vitória das forças do MPLA, russas e cubanas visa provocar, para além da verdade, a UNITA.

Além disso começa a ser hábito do MPLA, tentar adaptar a História às suas necessidades. Se alterar a História resultou parcialmente no passado, com a globalização e os trabalhos científicos que vão surgindo não funciona. O regime ainda não aprendeu. Continua a seguir a máxima nazi de que se insistir mil vezes numa mentira ela pode ser vista como uma verdade. Mas não funciona.

A batalha do Cuito Cuanavale começou em Setembro de 1987, com uma ofensiva das forças coligadas FAPLA/russos/cubanos tentando chegar à Jamba. Um exército poderosamente armado, com centenas de blindados e tanques pesados, artilharia auto-transportada e outra, apoiado por helicópteros e aviões avançaram a partir de Menongue.

Depois da batalha, o General França Ndalu, veio dizer a um jornalista que o objectivo não era esse, mas sim cortar o apoio logístico à UNITA. O que é visivelmente uma desculpa, porque o apoio logístico era feito de sul e do leste para a Jamba e nunca entre o Cuito Cuanavale e o rio Lomba.

Pela frente a coligação encontrou a artilharia e a infantaria da UNITA (FALA), organizada em batalhões regulares e de guerrilha, apoiados por artilharia pesada das forças sul-africanas. Com o avolumar da ofensiva, a África do Sul coloca na batalha mais infantaria, blindados e helicópteros.

A batalha durou mais ou menos seis meses. As forças FAPLA/russos/cubanos, com dezenas de milhares de homens na ofensiva, não conseguiram passar de Cuito Cuanavale.

Segundo os analistas imparciais, as perdas dos dois lados foram as seguintes:

Do lado UNITA/África do Sul – 230 militares da UNITA, 31 sul-africanos, 3 tanques, 5 veículos, 3 aviões de observação.

Do lado FAPLA/russos/cubanos – 4600 homens (dos quais não se sabe quantos foram russos, cubanos ou soldados das FAPLA, mas segundo os arquivos russos, já consultáveis, as perdas russas nesta batalha poderão ultrapassar a centena), 94 tanques, 100 veículos e 9 Migs.

A batalha acabou em Março de 1988 com a retirada das forças FAPLA/russos/cubanos para o Menongue.

As consequências foram diversas. O exército cubano aceita retirar-se de Angola. A África do Sul aceita que a Namíbia ascenda à independência, desde que os seus interesses económicos não sejam tocados, que a Namíbia continue dentro da união aduaneira que tem com a RAS e que o porto de Walbis Bay (o único da Namíbia) continue a ser administrado pela RAS. O MPLA aceita finalmente entrar em negociações com a UNITA (o que virá a acontecer em Portugal), aceita o pluripartidarismo, aceita as eleições.

E a UNITA, o que teve de ceder? Nada. Os seus bastiões continuaram intocados, nenhuma linha logística foi tocada, o seu exército não teve perdas em homens e material significativas.

Mais ou menos um ano mais tarde, e já na mesa das negociações, o MPLA tentará uma segunda ofensiva, de novo com milhares de homens, tanques, veículos, helicópteros e aviões. Foi a chamada operação “Ultimo Assalto”, e mais uma vez foi derrotado, desta vez sem os sul-africanos estarem presentes.

Em resumo, se houve vencedores, não foram as forças do MPLA e os seus aliados.

Então o que comemora o MPLA? Nada a não ser o que a sua propaganda inventa.

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