O embaixador português em Luanda, João da Câmara, admitiu ao Rede Angola que está disposto a ponderar a hipótese de visitar o activista Luaty Beirão na prisão, caso ele ou a família solicitem a intervenção da embaixada.

Por Orlando Castro

P or outras palavras, a medo e com o rabinho entre as pernas para não irritar o patrão, o mais alto representante português no nosso país admite reagir mas escusa-se a agir. Ou seja, se não for solicitado, o embaixador fecha os olhos e assobia para o lado.

“No caso de haver um pedido, então a embaixada ponderará”, disse o diplomata em conversa telefónica com o Rede Angola, lembrando que esta condição aplica-se apenas a Luaty Beirão, uma vez que é o único com nacionalidade portuguesa.

Muito bem. Estamos esclarecidos. Se mesmo com um cidadão que tem nacionalidade portuguesa, Portugal se comporta assim, é evidente que nunca, em tempo algum, jamais se atreveria a tomar qualquer atitude em relação a quem tenha outra nacionalidade.

João da Câmara sabe que não pode fugir às determinações do regime. Aliás, poderia mesmo ser acusado de rebelião ou tentativa de golpe de Estado. A atitude de Portugal é hipócrita, servil, subserviente, bajuladora do regime. Mas nem sequer é algo de novo.

“Por si só a embaixada nunca poderá tomar essa iniciativa”, acrescentou João da Câmara, recusando-se a comentar as declarações do Ministério dos Negócios Estrangeiros Português, que na semana passada disse estar “muito atento” à greve de fome do activista luso-angolano.

João da Câmara tem prevista uma reunião com o ministro da Justiça, Rui Mangueira, juntamente com outros três embaixadores de países da União Europeia em Luanda.

Sobre o caso de Luaty Beirão, irá com certeza receber instruções de Rui Mangueira e garantir que Portugal se está nas tintas para os direitos humanos em Angola.

Não se julgue, contudo, que a invertebrada posição de Portugal é nova. De há muito que assim é. José Eduardo dos Santos, um presidente que está no poder há 36 anos sem nunca ter sido nominalmente eleito, perdeu um velho amigo, José Sócrates, mas encontrou na dupla Passos Coelho/Paulo Portas – com o apoio de Cavaco Silva – novos amigos que continuam a abrir as portas que existem e as que não existem à entrada triunfal do seu clã, facultando-lhe livre acesso a todas as lavandarias do país.

Tal como José Sócrates, também o actual governo português não está interessado em que o MPLA alguma vez deixe de ser dono de Angola. O processo de bajulação continua a bem, dizem, de uma diplomacia económica que – neste caso – se está nas tintas para os angolanos.

Embora já não tendo, como no tempo de José Sócrates, tantos ditadores para idolatrar, o governo português continua a querer dar-se bem com os que existem, sobretudo com aqueles que têm dinheiro para ajudar a flutuar as ocidentais praias lusitanas.

Paulo Portas, que até foi recebido pelo dono de Angola com mordomias que ele nunca conhecera, acredita que o importante para Portugal são os poucos que têm milhões e não, claro, os milhões que têm pouco… ou nada. E tem razão. São esses que poderão garantir a sobrevivência de algumas elites portuguesas.

E se Cavaco Silva, Passos Coelho e Paulo Portas dizem que as relações com Angola são excelentes, é porque são mesmo. Sobretudo na óptica da permanente Oferta Pública de Aquisição lançada por Angola (que não pelos angolanos) sobre Portugal.

Tão excelentes como os 68% (68 em cada 100) de angolanos que são gerados com fome, nascem com fome e morrem pouco depois com fome.

Tão excelentes como o facto de 45% das crianças angolanas sofrerem de má nutrição crónica, sendo que uma em cada quatro (25%) morre antes de atingir os cinco anos.

Tão excelentes como Angola ser um dos países mais corruptos do mundo.

Como se já não bastasse a recente bajulação socialista de Lisboa ao regime angolano, os portugueses continuam agora a assistir a novos episódios da mesma bajulação, embora com diferentes protagonistas.

Parafraseando José Sócrates, não basta ser primeiro-ministro para saber contar até doze sem ter de se descalçar… Mas, é claro, ser do governo é suficiente para, por ajuste directo, entregar ao dono de Angola tudo o que ele quiser. Esperam, aliás, que queira tudo e mais alguma coisa.

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