O embaixador do regime angolano em Portugal, Marcos Barrica, transmitiu ao Ministério dos Negócios Estrangeiros português “desagrado” pela aprovação de um voto de solidariedade com os 15 activistas detidos em Luanda desde Junho, apontando uma ingerência nos assuntos nacionais.

A posição foi transmitida por José Marcos Barrica em declarações emitidas hoje pela rádio pública do regime, que se seguem a outra posição assumida pelo embaixador do regime, no domingo, ao jornal do regime.

“Posicionámos também ao Ministério dos Negócios Estrangeiros que não vemos com bons olhos esta atitude, que no fundo vai interferir com os assuntos do país e portanto manifestamos o nosso desagrado”, afirmou o embaixador do MPLA em Lisboa, nas declarações de hoje.

O diplomata referia-se à aprovação, a 13 de Outubro, pela Assembleia Municipal de Lisboa, de um voto de solidariedade com Luaty Beirão – um dos 15 detidos e que hoje anunciou o fim da greve de fome que levou 36 dias – e os restantes activistas detidos em Junho, em Luanda.

A posição, aprovada naquele órgão por maioria, com o voto contra do PCP e a abstenção dos Verdes, exprimia solidariedade com os activistas e recomendava a sua “imediata libertação”, posição que Marcos Barrica disse ter sido “instigada pelo partido Bloco de Esquerda”.

“É uma moção que no fundo visa atacar a legitimidade das autoridades angolanas, em face a um problema que a si diz respeito”, enfatizou o diplomata, sublinhando que o assunto, nomeadamente a eventual libertação dos activistas, é da exclusiva competência dos tribunais.

No domingo, o embaixador tinha já acusado “sectores maléficos” da sociedade portuguesa de utilizarem o caso dos 15 activistas como “pretexto” para voltar a “diabolizar Angola”, ironizando que no país se fala mais de Luaty Beirão do que do Papa.

“O problema do cidadão Luaty Beirão é apenas um pretexto para fazer ressurgir aquilo que em Portugal sempre se pretendeu: diabolizar Angola”, apontou o embaixador, na declaração anterior publicada pelo órgão oficial do regime.

Luaty Beirão, de 33 anos e também com nacionalidade portuguesa, é um dos 15 activistas detidos desde 20 de Junho e acusados em Setembro, pelo Ministério Público do regime, de actos preparatórios para uma rebelião e um atentado contra o Presidente angolano.

Em Portugal, sucederam-se nos últimos dias vigílias e outras manifestações de apoio ao grupo de 15 activistas, perante as críticas, que se sucedem nos últimos dias, de elementos do regime angolano, que alegam pressão e ingerência nos assuntos internos.

“As pessoas são as mesmas, tirando duas figurinhas bonitinhas que estão a aparecer aí no Bloco de Esquerda. Mas as pessoas que foram contra Angola são as mesmas [agora]. Eles acham que Angola até hoje é escravo, que nós somos escravos de Portugal (…) não podemos ser ouvidos e que Portugal é que manda, que Portugal é que diz e que Portugal é que faz. Os portugueses têm que saber que Angola é um Estado soberano”, apontou, em declarações à Lusa, em Luanda, na segunda-feira, o general Bento dos Santos Kangamba, sobrinho de Eduardo dos Santos e um dos altos dirigentes do MPLA, partido no poder há 40 anos.

Luaty Beirão iniciou uma greve de fome a 21 de Setembro em protesto contra o que considera ser a sua prisão ilegal por se ter esgotado o prazo máximo de 90 dias de prisão preventiva (20 de Junho a 20 de Setembro) sem uma justificação fundamentada para a manutenção da medida.

Esse protesto terminou hoje, numa altura em que a defesa dos arguidos – mais duas jovens aguardam em liberdade – prepara o julgamento, com início previsto para 16 de Novembro, no tribunal de Cacuaco, nos arredores de Luanda.

Partilhe este Artigo