O primeiro-ministro de Cabo Verde pediu hoje a mesma solidariedade da comunidade internacional aos muitos atentados terroristas e actos violentos nos países africanos, tal como aconteceu recentemente nos atentados de Paris.

“O mundo reagiu muito bem aos ataques que aconteceram em Paris. Houve uma grande solidariedade de todo o mundo livre, de toda a humanidade. Mas vejam a reacção em relação a um conjunto de atentados terroristas no continente africano, não tivemos a mesma solidariedade ou a mesma dimensão da solidariedade no mundo inteiro”, sustentou José Maria Neves.

O chefe do Governo cabo-verdiano, que falava aos jornalistas na Cidade da Praia no âmbito de um congresso sobre a história de África, deu como exemplo o rapto no ano passado de mais de 200 jovens na Nigéria por parte da organização extremista islâmica Boko Haram, de várias bombas que explodem em marcados, hotéis, de várias crianças violadas e assassinadas.

“É preciso que todos os seres humanos da África, da Europa, das Américas, que todo o ser humano seja tratado da mesma forma, somos todos iguais e merecemos todos a mesma solidariedade”, pediu José Maria Neves, para quem é preciso maior conhecimento, redescobrir e “contar a verdadeira história” de África para se poder enfrentar os desafios de hoje.

“Designadamente questões que têm a ver com o crescimento económico, a construção do Estado, a afirmação das liberdades, o reforço da cidadania. São questões que merecem a nossa atenção, mas só poderemos sair delas com sucesso se afectivamente conhecermos a história do nosso continente”, prosseguiu.

Para José Maria Neves, a história de África, que tem sido contada a partir de fenómenos negativos, como guerras, desigualdades, violência, doenças, corrupção, fomes, intolerância, deve ser reescrita e reforçada, para se poder conhecer melhor o percurso do continente, formular as melhores questões e equacionar as melhores respostas para os desafios.

O chefe do Governo afirmou que o contributo de Cabo Verde já está a ser dado com a realização do primeiro Congresso sobre a História de África, Ancestralidade e Africanidades (CHAAA), uma iniciativa do Ministério da Educação e Desporto e da Universidade de Santiago (US).

O evento, que terá duração de três dias, pretende promover uma reflexão pluridisciplinar e transnacional sobre a história de África e mostrar o contributo e a importância de Cabo Verde na história do continente e no novo mundo, no ano em que o país assinada os 555 anos da sua descoberta e os 40 anos da independência.

As conferências vão acontecer nos campos da Universidade de Santiago, na Praia e em Assomada, envolvendo especialistas cabo-verdianos e estrangeiros, de países como Brasil, Portugal, Cuba, França, Suécia, São Tomé e Príncipe, México.

O reitor da Universidade de Santiago, Gabriel Fernandes, salientou que a ideia é a “assunção conjunta” das responsabilidades para com as futuras gerações, revalorização do legado comum e reinterpretação da história do continente africano.

“Não podemos continuar a consumir acriticamente aquilo que nos é disponibilizado. É fundamental que se faça uma reanálise, que se traga para a arena reflexiva e crítica aquilo que é oferecido no âmbito académico, social e político”, afirmou o reitor, garantindo que resultados serão divulgados e publicados em livro.

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