O escritor moçambicano Mia Couto lançou em Maputo o romance “Mulheres de Cinza”, o primeiro volume da trilogia “As Areias do Imperador”, e que aborda o império de Gaza e Gungunhana para falar de um país ainda em construção.

“O passado é só um pretexto, estou a falar do presente, estamos a inventar um tempo nosso, uma nação, em que todos têm cabimento”, explicou o escritor à margem do lançamento da obra e também do seu novo livro de poemas “Vagas e Lumes”, na fundação que tem o nome do seu pai e antigo editor, Fernando Leite Couto.

Para o romancista, prémio Camões em 2013, “um tempo plural parece uma coisa já simples e conquistada em Portugal”, mas em Moçambique, “que é resultado de nações diversas, culturas diversas, línguas diversas, é um processo que vai levar o seu tempo”.

No novo livro, o escritor recupera a memória do período do antigo Estado de Gaza, sul de Moçambique, liderado por Gungunhana, que acabou por ser derrotado em 1895 pelas forças portuguesas comandadas por Mouzinho de Albuquerque e o imperador foi deportado para os Açores, onde morreu em 1906.

O corpo de Gungunhana foi repatriado para Moçambique em 1985, mas persistem relatos de que, em vez dos seus ossos, o caixão continha apenas areia colhida em solo português, o que, segundo Mia Couto, traz “uma ideia de fragilidade, de uma figura que se pode esfarelar”.

O romancista não tem dúvidas de que “Mulheres de Cinza” vai ter interpretações diversas em Moçambique e em Portugal, onde estará na próxima semana para lançar o novo romance.

Sobre Moçambique e, num momento em que o país atravessa uma fase de instabilidade política, Mia Couto destaca o sentido contemporâneo da sua nova obra.

“O passado pode ser algo que nos prende, que nos limita”, disse o escritor na apresentação do livro, citando as palavras de um dos personagens que criou: “A minha sepultura não mora no futuro, a minha cova é o meu passado”.

Para o autor, os moçambicanos continuam “ainda prisioneiros de uma versão única do passado” e precisam de se libertar de uma narrativa solitária e assumir que há outras.

“Hoje fala-se muito num discurso pluralista em que os moçambicanos se aceitem diversos, mas não teremos um presente com essa diversidade se não soubermos que temos um passado com muitas versões e são todas válidas”, defendeu o escritor, que recentemente recebeu um doutoramento “honoris causa” da Universidade Eduardo Mondlane, a maior instituição de ensino superior do país.

Mia Couto admitiu hoje que este livro contém riscos, “numa situação tensa” em Moçambique, em que “pode haver aproveitamentos do ponto de vista étnico e memórias e reaproveitadas ao serviço de interesses”.

Mia Couto recordou hoje uma conversa com o Presidente moçambicano, quando ainda estava a escrever “Mulheres de Cinza”, dando-lhe conta da sua inquietação de que este livro pudesse servir para despertar fantasmas.

“Mais vale sermos nós a despertar fantasmas do que eles a nós”, comentou Filipe Nyusi, na conversa hoje reproduzida pelo romancista.

Perante uma plateia cheia, “Mulheres de Cinza” foi apresentado pelo académico Nataniel Ngomane, que considerou esta obra como “o livro completo, que completa a obra de Mia Couto”, elogiando não só a capacidade narrativa como a profunda pesquisa histórica, na senda do que já tinham feito outros autores moçambicanos, como Ungulani Ba Ka Khosa em “Ualalapi” e João Paulo Borges Coelho em “O olho de Hertzog”.

Para Nataniel Ngomane, Mia Couto deixou de ser só um escritor e tornou-se numa “escola de um género moçambicano narrativo”, uma ideia depois retomada pelo ministro da Educação de Moçambique, Jorge Ferrão, para quem o romancista é “uma das mais importantes escolas que este país tem”.

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