O analista da Standard & Poor’s que segue Angola considera que o maior desafio do país é construir uma economia que seja mais diversificada e menos dependente das receitas do petróleo. É quase, dir-se-ia, a descoberta do ovo de Colombo.

E m entrevista à Lusa a propósito da celebração dos 40 anos de independência de Angola, Gardner Rusike afirma que “o maior desafio do país é diversificar a economia e reduzir o peso do petróleo, o que baixaria a vulnerabilidade aos choques externos”.

Para Rusike, as crises de 2008 e de 2014 mostram bem a vulnerabilidade de um país que deixou as receitas petrolíferas valerem mais de três quartos do total da receita do Estado, e cujas exportações valem mais de 95% do total.

A história dos últimos 40 anos ficam marcadas, considera o analista de uma das três maiores agências de ‘rating’ do mundo, pelo fim da guerra civil, pelo aumento da produção de petróleo e pelo sucesso na retirada das minas do país, para além da forte migração do interior para os maiores centros urbanos e pelo sucesso no desenvolvimento da agricultura.

“O fim da guerra civil em 2002 e a estabilidade política permitiu o crescimento e desenvolvimento do sector petrolífero, que multiplicou a produção desde 2000 e está agora próximos dos 1,8 milhões de barris por dia”, disse Gardner Rusike, salientando que também o processo de desminagem e o êxodo da população para as cidades, nomeadamente Luanda, merecem fazer parte da história recente do país.

Além da diversificação da economia, outro dos grandes desafios de Angola passa pela política: “José Eduardo dos Santos tem estado no poder há décadas e Angola é um dos países africanos que ainda não foi testado em termos de sucessão presidencial, o que é mais problemático porque há uma grande centralização da decisão política nele”.

Para Gardner Rusike, o risco de turbulência política foi recentemente reduzido com as alterações constitucionais, “que dão ao líder do partido mais votado automaticamente a Presidência da República, reduzindo o risco”.

Reduzindo risco e aumentando os poderes ditatoriais, afastando o país das regras de um sã democracia e de um verdadeiro Estado de Direito.

Outro dos factores que terão de merecer atenção no futuro de Angola tem a ver com a população jovem, “que quer empregos, habitação e serviços”.

Sobre a situação financeira actual de forte abrandamento do crescimento e de aumento do défice das contas públicas, Rusike explica que o pedido de vários empréstimos a entidades bancárias internacionais pode ter duas leituras.

“Os juros cobrados nos empréstimos bancários podem ter como objectivo estabelecer uma referência para as emissões de dívida que Luanda prepara, até porque Angola nem sempre teve necessidade de pedir emprestado, principalmente aos bancos internacionais, dado o conforto dos excedentes orçamentais dos últimos anos”, afirma Gardner Rusike.

Questionado sobre a aparente contradição de ter um Fundo Soberano (liderado pelo filho do Presidente Eduardo dos Santos) artilhado com 5 mil milhões de dólares e, ao mesmo tempo, contrair empréstimos internacionais que rondam os 2 mil milhões de dólares, o analista explicou que, para além da questão de tentar estabelecer uma referência para os juros internacionais, as autoridades “podem não estar em condições de usar as verbas do Fundo de forma rápida, uma vez que o foco é, preferencialmente, investimentos em infra-estruturas e projectos a médio ou longo prazo”.

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