Médico da prisão, Manuel Freire, diz que “estamos a fazer tudo o que está ao nosso alcance para salvarmos a vida do Luaty”. O director nacional dos Serviços Prisionais do regime, António Fortunato, diz que ele não corre perigo de vida.

A s autoridades do regime de Eduardo dos Santos negam (isto é… ) que Luaty Beirão, a cumprir hoje o 22º dia de greve de fome, esteja em risco de vida, contrariando a versão da família, dos amigos, da sociedade civil, dos médicos. Ou seja, enquanto estiver vivo… não morreu.

Visivelmente debilitado e deitado na cama de uma das enfermarias do estabelecimento prisional, o jovem, de 33 anos, um dos 15 detidos em Luanda desde Junho por suposta e não provada preparação de um golpe de Estado, não respondeu a qualquer pergunta da Lusa, numa visita cirúrgica autorizada pela director nacional dos Serviços Prisionais do regime, António Fortunato.

Será mesmo que a Lusa viu o Luaty Beirão “visivelmente debilitado”? É que a versão oficial do regime (e foi para isso que a Lusa foi autorizada a fazer a visita) diz que ele está apenas incompatibilizado com a alimentação.

“Clinicamente, o Luaty está estável, embora debilitado pelo tempo que leva sem ingestão de alimentos. Neste momento está a ingerir apenas água e chá com um pouco de açúcar”, explicou o médico Manuel Freire, chefe nacional do departamento de saúde dos Serviços Prisionais, que acompanhou (como não podia deixar de ser) a visita ao activista no hospital-prisão de São Paulo, em prisão preventiva desde 20 de Junho.

Na visita, Luaty Beirão, que também tem nacionalidade portuguesa, limitou-se a acenar com a cabeça, sem qualquer outra explicação, apesar da insistência. Provavelmente uma birra ou, como poderia ter explicado Manuel Freire ou António Fortunato, a confirmação de que estava a preparar um golpe de Estado.

De acordo com o médico, Luaty Beirão aceitou, desde domingo, que lhe fossem administrados soros, nomeadamente complexo B e fisiológico, para “reidratar”.

“Ele neste momento não está a fazer qualquer esforço físico, pode ser que isso leve a uma resistência maior. Mas nós estamos a fazer tudo o que está ao nosso alcance para salvarmos a vida do Luaty. Estamos a tentar convencê-lo a alimentar-se, o mínimo que for possível, para que ele saia dessa situação”, disse ainda Manuel Freire.

Então como é? Não corre perigo de vida, “mas nós estamos a fazer tudo o que está ao nosso alcance para salvarmos a vida do Luaty”. Será que se salva a vida de quem não corre risco de vida?

Em causa está a situação de um grupo de 17 jovens – duas em liberdade provisória – acusados formalmente, desde 16 de Setembro passado, de prepararem uma rebelião e um atentado contra o Presidente Eduardo dos Santos (no poder há 36 anos sem nunca ter sido nominalmente eleito), mas sem que haja uma decisão do tribunal de Luanda sobre a prorrogação da prisão preventiva em que se encontram.

Os 15 jovens, entre os quais Luaty Beirão, estão detidos, em prisão preventiva, desde 20 de Junho.

Denunciando que está detido ilegalmente, por se ter esgotado o prazo máximo de 90 dias de prisão preventiva sem nova decisão, Luaty Beirão, engenheiro de formação, entrou em greve de fome. Ou seja, de acordo com a TPR – Televisão Pública do Regime (que usa a sigla TPA), incompatibilizou-se com a alimentação.

“Neste momento não há risco, neste momento há risco de vida nenhum. Todos os órgãos estão em funcionamento. Ele está numa situação razoável, não vou dizer que está bem, bem, porque está debilitado. Mas até ao momento não corre risco de vida”, corroborou o chefe nacional do departamento de saúde dos Serviços Prisionais angolanos.

“Nós estamos a fazer tudo o que está ao nosso alcance para salvarmos a vida do Luaty”, disse o médico. Recordam-se?

A família de Luaty afirma que o activista – que assina com os heterónimos musicais “Brigadeiro Mata Frakuzx” ou, mais recentemente, “Ikonoklasta” – corre “risco de vida”, face à frágil situação de saúde, sendo, por isso, o foco principal das vigílias que se realizaram nos últimos cinco dias em Luanda.

A última das quais aconteceu no domingo e, como Folha 8 profusamente noticiou, mobilizou um forte aparato policial levando os cerca de 100 participantes, concentrados na escadaria da igreja da Sagrada Família, a desmobilizar, por recearem a intervenção da Polícia de Intervenção Rápida.

Luaty Beirão é um dos rostos mais visíveis da contestação ao regime angolano e já chegou a ser preso e agredido pela polícia do regime em manifestações de protesto.

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