O escritor angolano José Eduardo Agualusa considerou que, passados 40 anos da independência de Angola, a educação e a cultura continuam a ter pouco investimento, levando a uma baixa produção cultural, afectada ainda pela falta de liberdade de expressão.

“O maior apoio (para os escritores) são os seus leitores, mas para haver leitores é preciso haver, em primeiro lugar, uma aposta na educação básica, na formação, na alfabetização, na formação de leitores. Depois é preciso investir na criação de redes de bibliotecas públicas, na criação de livrarias, no apoio às editoras e, nestes 40 anos, nada disso foi feito” em Angola, disse José Eduardo Agualusa, em entrevista à Lusa.

O autor disse, por exemplo, não se lembrar “de alguma boa biblioteca criada depois da independência”.

“O que é extraordinário, pois são 40 anos que se passaram e vemos investimentos enormes em Angola em sectores que, à partida, não seriam tão prioritários. Mas vemos, de facto, muito pouco investimento na educação e na cultura”, sublinhou o escritor.

José Eduardo Agualusa referiu ainda a importância da liberdade de expressão para a criação artística.

“Num contexto de pensamento único não é possível fazer avançar nenhuma forma de arte porque todas as formas de arte dependem da discussão, do debate. Não é possível esperar que num contexto de condicionamento de liberdade de expressão surjam grandes obras artísticas, isso não acontece”, afirmou.

Segundo o autor, nos últimos 40 anos muita coisa aconteceu em Angola — que se tornou independente de Portugal a 11 de Novembro de 1975 – e houve vários períodos que se podem assinalar.

“Infelizmente, a independência aconteceu num contexto de guerra civil e com a imposição imediatamente de um sistema totalitário, de partido único, que acabou por ser muito prejudicial de todas as formas, para a expressão cultural de maneira geral, porque havia apenas um ponto de vista, um pensamento único. Isto afectou a literatura, as artes plásticas, o cinema, a música, tudo”, acrescentou.

Agualusa referiu que na música popular, até à data da independência, havia “uma pujança, uma vitalidade muito grande, mesmo em discos produzidos Angola estava, provavelmente, à frente de todo o continente africano, e aí houve uma rotura enorme”.

“Vários músicos importantes foram fuzilados após a independência e houve uma repressão muito grande, sendo a música popular a primeira a ser atingida”, referiu ainda.

Segundo o autor, a literatura foi muito afectada pelo facto de as editoras independentes, da rede de distribuição e das livrarias terem desaparecido.

“Houve um período grande, após a independência, que durou quase todo o tempo do partido único (MPLA) que afectou muitíssimo todas essas formas de expressão cultural”, avaliou.

Em relação à literatura, considerou que existem hoje em Angola “propostas diferentes”, alguns escritores já com presença internacional, apesar de “não serem muitos”, uma vez que “as condições de Angola evidentemente limitam tudo o resto”.

José Eduardo Agualusa citou alguns nomes que se destacam na literatura angolana como Pepetela e Rui Duarte Carvalho (já falecido) e, entre os mais jovens, Ana Paula Tavares e Ondjaki.

Quanto à música, considerou que “é a área que se tem desenvolvimento mais nos últimos tempos, juntamente com as artes plásticas”, destacando uma série de novos nomes, “dois ou três que começam ter uma presença internacional, como o Paulo Flores, Aline Frazão”, além dos mais antigos como Waldemar Bastos e Bonga, referiu.

José Eduardo Agualusa, que vive entre o Brasil, Portugal e Angola, escreveu várias obras, tais como “Um Estranho em Goa” e “Nação Crioula: correspondência secreta de Fradique Mendes”, “A Educação Sentimental dos Pássaros” ou a “A Rainha Ginga”, entre outras.

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