José Eduardo Agualusa disse hoje, em Óbidos, Portugal, que os 15 jovens presos em Angola já são vencedores, pois conseguiram dinamizar os movimentos pró-democracia no país e levaram o debate para dentro do próprio MPLA.

“O lado positivo desta situação é que se criou um movimento de solidariedade para com os jovens presos políticos, que está em crescente expansão e, neste momento, levou o debate para dentro do próprio partido no poder. Portanto, mesmo dentro do MPLA hoje há um debate acalorado que tem a ver com esta situação”, disse José Eduardo Agualusa.

Segundo o escritor angolano, os jovens, “em particular Luaty Beirão, que está em greve de fome há quase um mês, já venceram porque conseguiram criar esta dinâmica, este movimento pró-democracia e conseguiram levar o debate sobre esta situação para todos os estratos e áreas da sociedade angolana”.

“A prisão dos jovens democratas aconteceu num contexto que acho que todos conhecemos. Eles estavam a ler e discutir um livro e é significativo que tenham sido presos nesse momento, fazendo algo que o próprio Estado devia dinamizar, ou seja, deveria ser o próprio Estado angolano a fomentar a discussão”, sublinhou Agualusa.

“Eu gostaria que todos os jovens angolanos se reunissem para discutir livros e para debater ideias. Os jovens não podem ser penalizados por algo que, pelo contrário, deveriam ser felicitados”, acrescentou o escritor angolano.

José Eduardo Agualusa referiu ainda que “os jovens deveriam ser incentivados a ter este tipo de acções”.

Em causa está a situação de um grupo de 17 jovens – duas em liberdade provisória – acusados formalmente, desde 16 de Setembro passado, de prepararem uma rebelião e um atentado contra o Presidente angolano, mas sem que haja uma decisão do tribunal de Luanda sobre a prorrogação da prisão preventiva em que se encontram.

O ‘rapper’ e activista angolano Luaty Beirão, em greve de fome desde 21 de Setembro, foi transferido na quinta-feira de uma cadeia de Luanda para uma clínica privada, por “precaução”.

O jovem, de 33 anos, é um dos 15 activistas detidos desde 20 de Junho e acusados em Setembro, pelo Ministério Público do regime, de actos preparatórios para uma rebelião e um atentado contra o Presidente angolano.

O escritor disse ainda que a sucessão do Presidente José Eduardo dos Santos no poder em Angola constitui uma “incógnita”.

“O problema é que, realmente, num contexto totalitário como aquele que vivemos em Angola, as sucessões dos dirigentes é sempre complicado. Num contexto democrático não haveria agitação nenhuma, seria absolutamente natural”, avaliou.

“No contexto angolano, infelizmente, o que poderá acontecer, não sabemos. É uma incógnita, tudo pode acontecer. Esperamos que haja alguém, enfim, que o próprio partido no poder consiga retomar o processo democrático e avançar para uma democracia plena, mas a verdade é que tudo pode acontecer, não sabemos”, acrescentou Agualusa.

José Eduardo Agualusa está em Óbidos, onde é o curador da secção de autores no Festival Literário Internacional (FOLIO), que ocorre de 15 a 25 de Outubro.

Foto: Miguel Oliveira/Porto24

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