Em Angola está cada vez mais difícil adquirir telemóveis nas lojas das operadoras de telefonia Unitel e Movicel. As agências comerciais existentes na capital estão praticamente vazias. Até os acessórios estão escassos, e quando aparecem custam o triplo dos preços anteriores.

Por Sedrick de Carvalho

O Folha 8 fez uma ronda por várias agências de telefonia móvel. Para além da escassez de telemóveis, percebemos que também não há placas de internet. Questionamos aos trabalhadores das operadoras a razão da escassez e ouvimos em resposta: “estamos com rotura de stock”.

Os poucos aparelhos encontrados estão a ser vendidos a preços exorbitantes. Por exemplo, telefones que custavam três mil kwanzas, como o Mercury F37 e o Nokia 220, estão a ser vendidos por mais de 20 mil kwanzas. O “unitel laranjinha”, muito conhecido dentre os clientes da primeira operadora de telefonia móvel no país, quando aparece, pode ser comprado por 21 mil kwanzas, quando antes era vendido por 2.500 kwanzas.

Nas lojas Movicel estão disponíveis uns aparelhos tablet ao preço de 15 mil kwanzas. De baixa qualidade, tais produtos têm sido desprezados pelos clientes atentos às características do aparelho. Igualmente, a Unitel colocou à disposição dos clientes tablets de baixa gama, isto com intuito de colmatar a falta de materiais electrónicos.

As placas de internet estão mais difíceis ainda. Tanto nas agências da Unitel como da Movicel, não aparecem. Deslocamo-nos à principal loja da última operadora, na Vila Alice. Sem titubear, uma funcionária disse-nos que “não há placas de dados no país”. A causa, segundo ela, é a falta de dólares no mercado.

“Está difícil importar material devido à crise dos dólares. Não somos só nós [Movicel] mas também a Unitel”, explicou a funcionária.

Aparelhos nas ruas

Entretanto, os produtos que não se encontram no interior das lojas podem ser adquiridos fora delas. Jovens equipados com pequenas mochilas ficam defronte às agências prontos para “oferecer” aos clientes o que estes não conseguem formalmente.

“Cota, estás a procurar modem? Tenho aqui”, disse à nossa equipa de reportagem um indivíduo alto que estava exactamente na porta da loja Movicel na Vila Alice.

Perguntamos pelo preço da placa de internet. “Só 15 mil paus, mô cota”, retorquiu. Pedimos para ver o material. Era uma placa que custava aproximadamente quatro mil kwanzas nas agências. Quando questionamos pela capacidade da placa, outro vendedor ambulante encostou e disse: “Não importa se é 3G ou 4G. O teu kumbú é que fala”.

Encerramento de lojas

Devido ao actual cenário económico do país, alguns trabalhadores das operadores contactadas suspeitam que brevemente várias agências serão encerradas.

“Há lojas onde não se atende um cliente sequer ao longo do dia. Esta situação leva-me a pensar que vão começar a fechar lojas e a despedir pessoal”, contou, angustiado, um trabalhador da Unitel.

Em tempos, a direcção de Marketing do Departamento de Comunicação e Imagem da Movicel admitiu a um jornal que a escassez de aparelhos electrónicos nas suas lojas “se deve, sobretudo, à conjuntura socioeconómica e à carência de divisas estrangeiras no mercado para efectivar transacções destes bens que são importados aos fornecedores”.

Angola não produz sequer auriculares – nem botão para roupa, diga-se de passagem -, pelo que a subida dos preços é explicada pela direcção de marketing como “inerente à crise financeira e cambial que afectou, no geral, as importações”.

Quanto a eventuais encerramentos de lojas, a empresa descarta essa possibilidade: “Estamos a fazer esforços para ter os produtos nas lojas e satisfazer os clientes”.

Websites desactualizados

Fizemos uma ronda pelas páginas na internet das referidas empresas de telefonia. Constatamos que o site da Unitel está desactualizado quanto ao conteúdo ali existente e os que realmente existem nas lojas. É possível encontrar na página telemóveis até de cinco mil e quinhentos kwanzas, de marca “Unitel Laranjinha 1”, quando, efectivamente, em nenhuma loja aparecem.

Ao preço de sete mil e seiscentos kwanzas, as placas de dados também podem ser observadas no site. Mas só observadas mesmo, porque é falsa a informação de disponibilidade nas lojas. Nem o router fixo “Net casa” está disponível, depois de tanta publicidade feita pela operadora. O site diz que há nas lojas ao preço de 35 mil kwanzas.

O site da Movicel está fora de serviço. A última publicação feita na sua página no Facebook foi no dia 18 de Agosto dando conta de uma promoção.

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