A ONU pretende estabelecer uma relação de parceria entre os doadores internacionais e o Executivo de Luanda no combate à crise humanitária em Angola, afirmou hoje em Joanesburgo o director executivo do Programa Alimentar Mundial (PAM).

“A credito que a comunidade doadora será muito mais generosa se souber que o Governo está não só empenhado como envolvido na tomada de passos concretos”, referiu James Morris.

Segundo o jornal Público, o director executivo do PAM chega amanhã para Luanda, para uma visita de três dias, em que tem previstos encontros com o Presidente angolano, José Eduardo dos Santos, membros do Governo e responsáveis de agências humanitárias, de países doadores e do sector privado local.

“Queremos escutar primeiro quais são os projectos e o investimento que o Governo angolano pretende fazer nesse esforço”, adiantou. “Angola tem recursos próprios suficientes e tem de ser um parceiro neste processo”, sustentou.

James Morris adiantou que, apesar de o PAM alimentar actualmente cerca de 1,7 milhões de pessoas em Angola, projecta que o número de angolanos em situação carenciada ascenda nos próximos meses a 2,4 milhões, muitos deles instalados em zonas isoladas, sem estradas de acesso e minadas.

Radiografia demasiado negra

Mais de 56 milhões de pessoas de 17 países afectados por conflitos internos, como a Guiné-Bissau, estão numa situação de crise ou emergência alimentar, segundo duas agências das Nações Unidas.

A Organização para a Alimentação e Agricultura (FAO) e o Programa Alimentar Mundial (PAM) entregaram um relatório ao Conselho de Segurança da ONU sobre esses sete países e os obstáculos aos “esforços globais para erradicar a má nutrição” no mundo.

As duas agências, que têm sede em Roma, dizem que a situação é particularmente preocupante no Iémen, Síria, Sudão do Sul, Burundi e na bacia do lago Chade.

Cerca de metade da população do Iémen, 14 milhões de pessoas, estão numa situação de crise ou emergência por causa da fome. Na Síria, 8,7 milhões de pessoas (37% da população anterior ao início da guerra) precisam com urgência de ajuda alimentar, tal como 4,8 milhões no Sudão do Sul (40% da população).

Em países que estão num processo de saída de longas guerras civis, como a Colômbia, há milhões de pessoas que continuam a estar num alto grau de insegurança alimentar. Noutras regiões, as pessoas nessa situação representam uma grande fatia da população, como acontece no Burundi (23%), Haiti (19%) ou República Centro-africana (50%).

As agências estimam ainda que 80% dos refugiados sírios que vivem actualmente no Líbano precisem de ajuda alimentar urgente.

Há também uma série de países em que conflitos internos afectaram de forma significativa a segurança alimentar: República Democrática do Congo, Guiné-Bissau, Costa do Marfim, Libéria, Mali, Somália, Sudão, Iraque e Afeganistão.

A FAO e o PAM destacam que os conflitos internos são das principais causas da fome porque destroem campos em cultivo, gado e infra-estruturas agrícolas, além de bloquearam mercados e forçarem ao deslocamento da população. Além disso, contribuem para a propagação de doenças e dificultam o acesso dos governos e organizações humanitárias às pessoas afectadas, entre outros impactos.

Sudão do Sul – o paradigma

Em Fevereiro deste ano, pelo menos 40 mil pessoas estavam a ser deixadas a morrer à fome nas zonas de guerra do Sudão do Sul. Quem o disse, com todas as letras, foi ONU num dos muitos relatórios que produz. Relatórios não faltam. Falta é tudo o resto. Além disso, cerca de 2,8 milhões de pessoas já precisam de ajuda, perto de um quarto da população do Sudão do Sul.

Os dados divulgados no relatório da ONU revelam que a situação nunca esteve pior em dois anos de guerra civil, marcada por atrocidades e acusações de crimes de guerra, incluindo o bloqueio do fornecimento de alimentos.

“Perto de 25% da população do país tem necessidade urgente de ajuda alimentar e pelo menos 40 mil pessoas estão à beira da catástrofe”, disseram a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) e o Programa Alimentar Mundial (PAM) num comunicado conjunto.

“As famílias têm feito tudo o que podem para sobreviver, mas estão a ficar sem opções”, diz Jonathan Veitch, responsável da UNICEF para o país, acrescentando que “muitas das áreas onde as necessidades são maiores estão fora de alcance devido à situação da segurança”.

O papel dos “amigos” chineses

Julho de 2008. A China ajuda militarmente o Governo do Sudão nas acções levadas a cabo em Darfur, revelou o programa “Panorama” da BBC. Ajuda dada apesar do embargo da ONU.

Os investigadores encontraram, entre outras provas, camiões militares de fabrico chinês em Darfur, exportados em 2005, apesar do embargo de armas imposto pela ONU. Foram também registados testemunhos de que Pequim treinava pilotos sudaneses para os caças chineses A5 Fantan.

O embargo imposto pela ONU exigia que os governos estrangeiros não ajudassem militarmente nenhum dos grupos envolvidos no conflito.

Segundo observadores internacionais que regularmente enviam informações sobre a situação para as Nações Unidas, os meios da força multinacional de paz em Darfur deviam ser reforçados e a China pressionada para que a violência terminasse nesta província do Sudão.

Segundo Daoud Hari, um refugiado de Darfur que vive nos EUA e que na altura esteve em Portugal para promover o seu livro sobre este drama (“O Intérprete”), “as forças de paz, se tiverem meios, podem fazer a diferença”. O problema está, contudo, no facto de “os países ocidentais não querem agir por causa da China”. E o que querem os chineses? “Querem o petróleo, pouco se importando com tudo o resto”, afirmou Daoud Hari.

No contexto africano é cada vez maior a influência chinesa, seja através de “meras” relações comerciais ou de uma crescente influência política e militar, da qual o Zimbabué e Angola são exemplos palpáveis.

Primeiro, recorde-se, com a crise que envolveu um navio carregado de armas para o regime de Robert Mugabe e ao vetar no Conselho de Segurança das Nações Unidas a resolução que pretendia impor sanções a Harare.

Segundo a União Africana, que em 2008 reconhecia não ter meios para controlar a situação, o problema residia no facto de a comunidade internacional estar, por exemplo, mais preocupada com o que se passava no Líbano do que com a catástrofe em Darfur.

“Em relação a África parece que o problema é só o da fome”, lamentava Daoud Hari, acrescentando que “em Darfur não tinham fome antes desta crise, o que revela que a questão fundamental é de segurança”.

Em África, as vítimas, sejam de guerra, de fome, de doenças, contam-se sempre por muitos milhares. A ONU reviu as contas dos últimos cinco anos – isto em 2008 – do conflito em Darfur e chegou à cifra de 300 mil mortos, mais 100 mil do que os dados anteriores. Embora ainda não revistos, os dados sobre os 15 anos de guerra civil no Burundi também apontavam para mais de 300 mil mortos.

No entanto, o então embaixador sudanês na ONU, Abdalmahmoud Abdalhaleem, qualificou de “exagero grosseiro” o balanço de John Holmes, subsecretário-geral das Nações Unidas para as questões humanitárias, embora não avançando com estatísticas oficiais e reconhecendo que não sabia se, nesse ano, o Sudão tinha a população estimada pelas Nações Unidas, em 38 milhões de habitantes.

Abdalmahmoud Abdalhaleem disse, aliás, que, “no máximo, o número de mortos provocados pelo conflito de Darfur era de dez mil”.

África, ora num país ora noutro, continua a mostrar o que todos sabem, mas que ninguém quer ver. E qual será a razão pela qual ninguém quer saber a verdade? Não querem pela simples razão de que são pretos e para muita gente da Europa, dos EUA e restantes potências, ser preto não é sinónimo de ser gente.

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