No passado dia 16 de Abril, quinta-feira, sete agentes da Polícia angolana foram mortos a tiro, incluindo o comandante municipal da cidade de Caála, na província do Huambo, no sul de Angola. Outros dois foram feridos gravemente e vieram a falecer mais tarde, na segunda-feira, dia 20.

Por Arlindo Santana

A s vítimas faziam parte duma brigada policial da PNA que se dirigia a uma zona rural na Serra Sumé, a 25 quilómetros da Caála, com mandados de captura em mão contra o chefe duma seita religiosa, numa missão de proceder à retaliação de vários desmandos cometidos por membros da sua igreja, denominada “Sétimo Dia a Luz do Mundo”, também conhecida por Kalupeteka, do nome do seu chefe supremo, auto-denominado “profeta”.

Desde as primeiras notícias sobre esta algarada mortífera, divulgadas em primeira mão pelos órgãos de imprensa estatal e seguidas pelas da não estatal e redes sociais, apenas nos foi dado a saber que nove polícias tinham sido assassinados perto da cidade da Caála, ao que se juntava uma referência lacónica à resposta imediata das forças policiais apoiadas pelas Forças Armadas Angolanas (FAA).

De facto, não obstante essas notícias revelarem que a operação foi muito musculada, elas não mencionavam o número de mortos do lado dos fiéis. A mídia estatal apenas anunciou que o profeta Kalupeteka foi preso com seu filho e alguns de seus seguidores. Nada mais, nem mesmo disse que o estado de sítio tinha sido declarado na região.

Esta acção, que custou a vida a nove polícias, remete-nos aos primórdios do grupo terrorista Boko Haram, com a diferença de que esse defende o Alcorão e Kalupeteka praticamente não defende nada, a não ser uma visão da Apocalipse, mas assinale-se em seu favor, sem desejar implementar essa ideia no resto do país. Ler mais adiante a explicação.

Uma visão apocalíptica

O ilustre cronista e académico Sousa Jamba relembrou no Facebook uma pequena faceta da história do nosso continente, fazendo notar que o fenómeno Kalupeteka faz parte de uma longa tradição na África de profetas com uma mensagem apocalíptica: “Na África do Sul, no século dezanove, havia a Nongqawuse que instruiu aos seguidores dela xhosa para venderem todo o seu gado. Na Zâmbia, nos anos 50, houve o fenómeno da Alice Lenshina, que fundou uma seita com princípios que não alinhavam com as estratégias das autoridades coloniais Britânicas e mesmo com alguns líderes negros da Zambia. Na Nigéria, há várias seitas vindas da corrente dominante do Cristianismo. Em certos casos estas seitas chocaram com a policia. Há casos que os antropólogos chamam de sincretismo — fusão de várias crenças, incluindo religiões tradicionais”.

A “igreja” Kalupeteka insere-se no âmbito dessa tradição africana. Tem cerca de 4.000 seguidores, não só na região, mas também nas províncias de Luanda, Bié e Benguela. No seu historial regista-se algum protagonismo da sua parte em cenas de confusão, inclusive na que levou o profeta a instigar os seus seguidores a se recusar a participar no recenseamento da população que foi organizado pelo governo angolano em Maio/Junho do ano passado.

Recentemente, a seita criou uma espécie de Serviço de Segurança, constituída por cerca de 400 fiéis, dedicados de corpo e alma à defesa da integridade física do seu chefe, enquanto este se esgrimia a espalhar entre os seus seguidores a ideia de queimar livros porque, segundo ele, “Jesus não foi para a escola e era sábio.” “Nenhuma vacina!”, decretou ele, relembrando a miúde que não valia a pena, porque o mundo vai acabar no final deste ano de 2015.

Para reforçar estas orientações, o “profeta” também conseguiu convencer muitos dos fiéis a deixar as suas casas – que depois ele recuperava para uso próprio – e a segui-lo numa retirada mística nas montanhas do Planalto Central de Angola. Para não perturbar o país, dizia ele.

Uma revelação aterrorizante

O Folha 8 conseguiu estabelecer um contacto com as autoridades do Huambo para saber o que se estava realmente a passar, mas estas remeteram-se ao habitual silêncio e só foi possível saber alguma coisa por intermédio de gente da oposição.

Foi uma fonte segura, adstrita à cúpula da PNA (um amigo do comandante da polícia municipal da Caála que foi assassinado) que nos revelou o seguinte:

“Mano! Os dados da Caála são aterrorizantes! Primeiro, os fiéis de Kalupeteka assassinaram barbaramente o comandante municipal da polícia e a sua escolta! Diz-se que a cabeça do comandante municipal (era meu amigo) foi perfurada por um pau!!! O grosso da Polícia quando se apercebeu de que o comandante municipal e o escolta que tinham ido para deter o Kalupeteka, tinham sido mortos, a reacção foi extremamente violenta e indescritível !!! Fala-se em mais de 800 fiéis mortos!!! A caça aos fiéis continua e até a população da vizinhança está a pagar!!! A área toda continua cercada! Os mortos foram enterrados em valas comuns por um Caterpillar!!! Como são dados que ainda não posso confirmar, prefiro tratar sob anonimato!”.

As armas usadas pelos fiéis de Kalupeteka foram capturadas da PNA e depois usaram-nas contra os outros 7 polícias! O delegado do SINSE (Secreta angolana) foi morto à facada!!!

Para terminar, salientemos a deveras estapafúrdia e não menos provocante reacção do presidente José Eduardo dos Santos, “guia mortal” de Angola (o “imortal” já morreu, paz à sua alma).

O homem disse: “A seita “Sétimo dia a Luz do Mundo” é uma ameaça à paz em Angola e à unidade nacional”.

O Folha 8 já reagiu a esta diatribe delirante por intermédio do seu redactor-chefe, Orlando de Castro, que passamos a citar:

“Como é que uma seita como a “Kalupeteca”, que terá no máximo quatro mil seguidores numa população superior a 21 milhões, é uma “ameaça à Paz e à unidade nacional”?

Claro está que não é possível responder a esta pergunta, pelo que nos ficamos por aqui. Mas vamos voltar.

Foto: Kalupeteca antes e depois de ser capturado.

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