A cada eleição angolana que se aproxima desde o fim da guerra civil, tem-se assistido a uma profusão de propostas, promessas e tentativas de cooptação de certos funcionários de Cabinda por parte da UNITA, o principal partido da oposição angolana. É com isto em mente que hoje peguei na caneta para me dirigir ao Presidente Adalberto Costa Júnior, cuja coragem e audácia admiro, através desta carta aberta.
Por Osvaldo Franque Buela (*)
Por um diálogo franco, direto e respeitoso da soberania do povo cabindense. Senhor Presidente da UNITA, Independentemente do que se possa dizer, admiro a sua coragem política e aprecio as suas tomadas de posição de sempre sobre Cabinda, mesmo que muitas delas permaneçam profundamente discutíveis e debatidas. É precisamente por reconhecer essa audácia que me dirijo a si hoje, com a franqueza que a gravidade da situação exige.
Há mais de duas décadas, sobretudo desde o fim da guerra civil, Cabinda parece ter-se tornado o terreno de uma conquista intelectual e política onde certas elites oriundas da nossa sociedade civil são incorporadas, quando não instrumentalizadas, nas estratégias eleitorais da oposição angolana que representa.
A cada ciclo político, projetos elaborados longe das nossas realidades são apresentados para o futuro da nossa terra. Já que a UNITA diz que é favorável para uma solução para Cabinda, porque não levar a cabo uma espécie de recolha de contribuições popular em todos os municípios de Cabinda a serem submetidas no parlamento angolano?
Recentemente, a sua intervenção detalhando a visão económica que o senhor e a UNITA pretendem aplicar a Cabinda, caso cheguem ao poder, foi uma ilustração marcante disso mesmo. Mais uma vez, este projeto foi bem pensado, estruturado e anunciado sem a mínima consulta popular interna prévia junto do povo cabindense.
Senhor Presidente, não basta cercar-se de dois ou três deputados originários do território ou de algumas figuras afetas à sua causa para decretar o que é bom para Cabinda. O povo cabindense e a sua elite intelectual atingiram uma maturidade política inquestionável, e além disso, o senhor esquece sempre uma componente essencial do nosso povo: a diáspora cabindense.
Quando se desloca à Europa, nunca reserva tempo para a encontrar, escutar e dialogar com ela, apesar de ela carregar uma parte fundamental da nossa voz, da nossa memória e da nossa reflexão política no plano internacional. Cabinda não se limita às fronteiras do território; vibra também no exterior.
Não precisamos de tutores, nem de projetos decididos sem nós, venham eles do MPLA ou da UNITA.
Por meio desta carta aberta, lanço-lhe um desafio à altura da sua reputação de homem político corajoso: tenha a coragem de vir discutir e escutar diretamente os cabindenses, tanto na nossa terra como no seio da sua diáspora na Europa.
Cabinda não se resume a um trunfo eleitoral nem a discursos de circunstância. Exigimos um debate de igual para igual:
- Uma verdadeira consulta popular e da diáspora: Escute o que os cabindenses, daqui e do exterior, realmente desejam para o seu futuro, em vez de lhes impor soluções unilaterais.
- Um diálogo direto com a diáspora: Integre finalmente os representantes e intelectuais da diáspora cabindense na Europa na sua agenda durante as suas deslocações.
- O respeito pela nossa maturidade política: Reconheça a maturidade da sociedade civil cabindense e trate os seus representantes como interlocutores de pleno direito, e não como simples extensão de estratégias partidárias.
Se defende a mudança e a alternância democrática, demonstre-o escutando finalmente o povo cabindense em todas as suas dimensões.
Na expectativa de uma tomada de posição à altura dos desafios e do respeito devido aos cabindenses.
