CANIBAIS INAUGURAM NOVA SEDE

O MPLA, partido no poder em Angola desde 1975, assinalou hoje o 69.º aniversário com a inauguração de uma nova sede em Luanda, numa cerimónia que simboliza também a renovação, segundo a vice-presidente Mara Quiosa. Vinte milhões de pobres aplaudiram a iniciativa e parabenizaram o partido do maior genocida angolano, António Agostinho Neto.

Por Orlando Castro

Antes do corte da fita, pelas mãos do presidente do partido e, por inerência desse cargo, Presidente da República, general João Lourenço, militantes e dirigentes concentraram-se esta manhã em frente ao edifício, numa celebração efusiva marcada pelas cores amarelo e vermelho, também as da bandeira do MPLA feita de Angola, espelhadas nos balões e bandeirinhas que decoravam as ruas adjacentes.

Para Mara Quiosa, vice-presidente do MPLA, este é um dia “de profundo simbolismo” para a história do partido, que “marca não apenas a abertura a um espaço renovado, moderno e funcional, mas simboliza sobretudo a vitalidade, a resistência e a (…) capacidade de renovação”.

“Que este espaço seja um centro de inspiração, trabalho e tomada de decisões estratégicas que continuarão a determinar o destino do nosso partido e do nosso país”, exortou, antes da inauguração da infra-estrutura, construída de raiz com o dinheiro roubado ao Povo que, há 50 anos, continua a tentar aprender a viver sem… comer.

A nova sede, substitui a antiga instalada num edifício de época colonial dos portugueses, os tais que – segundo João Lourenço – fizerem menos em 500 anos do que o MPLA em 59, com nove andares, situa-se no coração da Ingombota, numa área central da capital angolana. Foi projectada pela empresa Dar e construída pelo Pan-China Construction Group, tendo criado 1.188 postos de trabalho, dos quais 900 ocupados por angolanos. A obra foi concluída em 11 meses.

Entre as melhorias mais relevantes contam-se um parque de estacionamento exclusivo para os carros de luxo dos funcionários, um auditório de dois níveis para eventos e conferências e uma galeria histórica dedicada ao percurso do partido mas que, é claro, vai omitir (entre outros) os massacres de 80 mil angolanos ordenados por Agostinho Neto no dia 27 de Maio de 1977.

Em declarações à margem da inauguração, Boavida Neto afirmou que o MPLA é “uma força política que trabalha para melhorar as condições da (…) população” e que pretende manter-se no poder para materializar esses objectivos que, em síntese, visam enriquecer os poucos que têm milhões em detrimento dos milhões que têm pouco ou… nada.

“Obviamente que o caminho tem altos e baixos, mas é um caminho, o caminho faz-se caminhando (…) é o caminho que o MPLA tem que fazer para atingir a felicidade do nosso povo”, frisou o militante e membro do Comité Central.

Boavida Neto admitiu que existem problemas sociais a resolver: “As populações têm razões de reclamar por aquilo que é legítimo e nós temos que dar (…)”, ressaltou, acrescentando que “o mais importante é não perder o foco” e resolver os problemas.

Questionado sobre a coesão interna do partido, o deputado afirmou que “é um problema da consciência de cada um”, reconhecendo que existem diferenças.

Quanto às eleições gerais de 2027, considerou que os processos eleitorais são “um barómetro, um processo dinâmico”.

“Hoje o MPLA está em cima, a UNITA está em baixo”, afirmou, sublinhando que “o povo é que é soberano e sabe o que quer”, manifestando confiança de que os angolanos vão “continuar a escolher bem”.

VEJAMOS A ANGOLA QUE O MPLA HERDOU

Angola, em 1974, era o terceiro maior produtor mundial de café, o quarto maior produtor mundial de algodão, o primeiro exportador africano de carne bovina; o segundo exportador africano de sisal; o segundo maior exportador mundial de farinha de peixe; por via do Grémio do Milho tinha a melhor rede de silos de África; tinha o CFB — Caminho de Ferro de Benguela, do Lobito ao Dilolo‒RDC, o CFM — Caminho de Ferro de Moçâmedes, do Namibe até Menongue, o CFA — Caminho de Ferro de Angola, de Luanda até Malange e o CFA — Caminho de Ferro do Amboim, de Porto Amboim até à Gabela.

Também tinha no Lobito estaleiros de construção naval da SOREFAME; tinha pelo menos três fábricas de salchicharia; quatro empresas produtoras de cerveja, de proprietários diferentes; quatro fábricas diferentes de tintas; duas fábricas independentes de fabricação ou montagem de motorizadas e bicicletas; seis fábricas independentes de refrigerantes, nomeadamente da Coca-Cola, Pepsi-Cola e Canada-Dry, bebidas alcoólicas à base de ananás ou de laranja. E havia ainda a SBEL, Sociedades de Bebidas Espirituosas do Lobito.

Além disso também tinha a fábrica de pneus da Mabor; três fábricas de açúcar, a da Tentativa, a da Catumbela e a do Dombe Grande; era o maior exportador mundial de banana, graças ao Vale do Cavaco; uma linha de montagem da Hitachi, dos óleos alimentares da Algodoeira Agrícola de Angola, e da portentosa indústria pesqueira da Baía Farta e de Moçâmedes, e da EPAL, fábrica de conservas de sardinha e de atum.

O MPLA, partido que “só” está no poder desde a independência, saúda todos os angolanos (os 20 milhões de pobres não são angolanos) pelo 50.º aniversário da proclamação da independência (mais exactamente da troca dos colonos portugueses pelos colonos do MPLA) do país, apelando a que contribuam “com actos de cidadania e elevado patriotismo” (ou seja, que continuem a aprender a viver sem comer) para que Angola se torne uma nação de referência.

O MPLA encoraja o seu Presidente, que por inerência é também Presidente da República e Titular do Poder Executivo (não nominalmente eleito), e Comandante-em-Chefe das Forças Armadas (ditas apartidárias) general João Lourenço, “a continuar a implementar medidas de políticas que visam melhorar o Índice de Desenvolvimento Humano, impulsionar o aumento da produção, o crescimento económico e a prosperidade da nação”.

Ou seja, fazer tudo o que não conseguiu fazer ao longo dos últimos 50 anos, 23 dos quais de paz total.

O MPLA homenageia igualmente os que pagaram “com a própria vida o empenho directo e abnegado na luta de libertação” e reafirma-se como “vanguarda da promoção e reinserção política, económica e social de todas as forças vivas da nação, combatendo as várias formas de injustiça e discriminação”.

“Neste dia jubiloso, marcado pela libertação do povo angolano da dominação colonial portuguesa, o MPLA, em nome dos militantes, simpatizantes e amigos do Partido, apela todos os cidadãos a celebrarem o aniversário da independência nacional com manifestações de incontida alegria, que reforçam a crença na elevação dos níveis de unidade nacional e de coesão interna”.

Alguém ouviu alguma vez o general João Lourenço reconhecer que 68% da população angolana é afectada pela pobreza, que a taxa de mortalidade infantil é das mais altas do mundo, com 250 mortes por cada 1.000 crianças? Alguém o ouviu dizer que apenas 38% da população angolana tem acesso a água potável e somente 44% dispõe de saneamento básico?

Alguém ouviu alguma vez o general João Lourenço reconhecer que apenas um quarto da população angolana tem acesso a serviços de saúde, que, na maior parte dos casos, são de fraca qualidade? Alguém o ouviu dizer que 12% dos hospitais, 11% dos centros de saúde e 85% dos postos de saúde existentes no país apresentam problemas ao nível das instalações, da falta de pessoal e de carência de medicamentos?

Alguém ouviu alguma vez o general João Lourenço reconhecer que 45% das crianças angolanas sofrerem de má nutrição crónica, sendo que uma em cada quatro (25%) morre antes de atingir os cinco anos? Alguém o ouviu dizer que, em Angola, a dependência sócio-económica a favores, privilégios e bens, ou seja, o cabritismo, é o método utilizado pelo MPLA para amordaçar os angolanos?

Alguém alguma vez ouviu o general João Lourenço reconhecer que, em Angola, o acesso à boa educação, aos condomínios, ao capital accionista dos bancos e das seguradoras, aos grandes negócios, às licitações dos blocos petrolíferos, está limitado a um grupo muito restrito de famílias ligadas ao regime no poder?

Alguém ouviu alguma vez o general João Lourenço reconhecer que Angola é um dos países mais corruptos do mundo e que tem mais de 20 milhões de pobres?

“Muitos governantes que têm grandes carros, numerosas amantes, muita riqueza roubada ao povo, são aparentemente reluzentes mas estão podres por dentro”. Esta foi e é, por muito que nos custe, a realidade do nosso país.

Alguém do MPLA se recorda, por exemplo, o que D. José de Queirós Alves, arcebispo do Huambo, afirmou em Julho de 2012 na comuna de Chilata, município do Longonjo, a propósito das eleições?

O prelado referiu que o povo angolano tinha muitas soluções para construir uma sociedade feliz e criar um ambiente de liberdade onde cada um devia escolher quem entender.

“Temos de humanizar este tempo das eleições, onde cada um apresenta as suas ideias. Temos de mostrar que somos um povo rico, com muitas soluções para a construção de uma sociedade feliz, criar um ambiente de liberdade. É tempo de riqueza e não de luta ou de murros”, frisou.

”Em Angola, a administração da justiça é muito lenta e os mais pobres continuam a ser os que menos acesso têm aos tribunais”, afirmou em 2009 (nada de substancial mudou até agora), no mais elementar cumprimento do seu dever, D. José de Queirós Alves, em conversa com o então Procurador-Geral da República, João Maria Moreira de Sousa.

D. José de Queirós Alves admitia também (tudo continua na mesma) que ainda subsiste no país uma mentalidade em que o poder económico se sobrepõe à justiça.

O arcebispo pediu maior esforço dos órgãos de justiça no sentido das pessoas se sentirem cada vez mais defendidas e seguras: “O vosso trabalho é difícil, precisam ter atenção muito grande na solução dos vários problemas de pessoas sem força, mas com razão”.

Importa ainda recordar, a bem dos que não têm força mas têm razão (e que, por isso, não são do MPLA), que numa entrevista ao jornal português “O Diabo”, em 21 de Março de 2006 (19 anos depois tudo continua na mesma), D. José de Queirós Alves disse que “o povo vive miseravelmente enquanto o grupo ligado ao poder vive muito, muito bem”.

Nessa mesma entrevista ao Jornalista João Naia, o arcebispo do Huambo considerou a má distribuição das receitas públicas como uma das causas da “situação social muito vulnerável” que se vive Angola.

D. Queirós Alves disse então que, “falta transparência aos políticos na gestão dos fundos” e denunciou que “os que têm contacto com o poder e com os grandes negócios vivem bem”, enquanto a grande massa populacional faz parte da “classe dos miseráveis”.

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