O Presidente do MPLA, que por inerência é também Presidente da República, general João Lourenço, decretou luto nacional para sexta-feira, 22 de Maio, em homenagem às vítimas dos conflitos políticos ocorridos em Angola entre novembro de 1975 e abril de 2002, segundo um decreto presidencial. Só nos massacres de 27 de Maio de 1977, ordenados por Agostinho Neto, foram cerca de 80 mil mortos.
O decreto, divulgado na página do Facebook da presidência angolana, determina que na sexta-feira a bandeira nacional (do MPLA) seja colocada a meia haste e sejam cancelados todos os espectáculos e manifestações públicas em todo o território nacional, bem como nas missões diplomáticas e consulares angolanas. O luto tem a duração de um dia, das 00:00 às 23:59.
O diploma invoca “a necessidade de honrar a memória de todos os cidadãos angolanos que perderam a vida em consequência dos conflitos políticos que assolaram o País” e o “sofrimento colectivo vivido pelo povo angolano”, reafirmando “os valores da paz, reconciliação nacional e unidade entre todos os angolanos”.
O período coberto pelo decreto abrange a longa guerra civil angolana, de quase 30 anos, que opôs o Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA, no Poder há 50 anos)) à União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA) e no qual terão morrido entre 500.000 a um milhão de pessoas.
A guerra começou logo após Angola se tornar independente de Portugal, em Novembro de 1975, numa luta de poder entre os dois ex-movimentos de guerrilha anticolonial que se tornou também palco de disputa entre potências rivais da Guerra Fria – União Soviética, Cuba, África do Sul e Estados Unidos da América.
A esperança de paz renasceu em 1991, primeiro no dia 19 com a assinatura do Acordo de Alto Kauango (mediado por William Tonet) e depois com a assinatura do Acordo de Bicesse, mas depois das eleições terem dado a vitória ao MPLA, o confronto armado regressou.
Os combates só terminariam em 2002 com a morte em combate do líder da UNITA, Jonas Savimbi.
O Acordo de Paz foi assinado a 4 de abril de 2002 em Luena (província do Moxico).
O luto nacional é decretado na véspera do 49.º aniversário dos massacres de 27 de Maio de 1977, por ordem de Agostinho Neto, e que fizeram cerca de 80 mil mortos.
A Amnistia Internacional estima que pelo menos 30.000 pessoas foram assassinadas na repressão que tocou quase todas as famílias angolanas.
Há dois anos, o Presidente do MPLA, general João Lourenço, criou a Comissão para a Implementação do Plano de Reconciliação em Memória das Vítimas, com a missão de elaborar um plano geral de homenagem às vítimas dos conflitos políticos desde a independência nacional, a 11 de novembro de 1975, até à assinatura dos Acordos de Paz de Luena, a 4 de Abril de 2002.
O MPLA mata(va) tudo e todos
O regime do MPLA está morto, só ainda não sabe. E, convenhamos, como ainda não sabe não terá problemas em completar o que deixou a meio em 1992: o massacre de cidadãos Ovimbundus e Bakongos, onde morreram 50 mil angolanos, entre os quais o vice-presidente da UNITA, Jeremias Kalandula Chitunda, o secretário-geral, Adolosi Paulo Mango Alicerces, o representante na CCPM, Elias Salupeto Pena, e o chefe dos Serviços Administrativos em Luanda, Eliseu Sapitango Chimbili.
“Foi naturalmente um dia horrível. Estava-se a discutir a paz”, recordou em Outubro de 2012 à DW Filomeno Vieira Lopes, líder do Bloco Democrático, partido da oposição angolana. Ele lembrava-se bem da data que interrompeu o processo de paz em Angola.
Filomeno Vieira Lopes estava fora de casa quando começaram os bombardeamentos. Foi apanhado de surpresa, sobretudo numa altura em que se tentava encontrar soluções políticas para o problema. “Matava-se tudo. Matavam-se todos os que tivessem alguma ligação com a oposição.”
Milhares de apoiantes e até dirigentes da UNITA foram assassinados em Luanda e em outras localidades do país, mas a sanha do MPLA, cujo ADN assassino já mostrara todo o seu potencial em 1977 (nos massacres de 27 de Maio), também não poupou a FNLA.
“Foi a primeira vez, na história da guerra civil angolana, que políticos morrem em combate”, escreveu o jornalista Emídio Fernando no livro “Jonas Savimbi: No lado errado da História”.
Até hoje, permanece por esclarecer quem ordenou o massacre. O número de vítimas também nunca foi confirmado, mas estima-se que tenham morrido cerca 50 mil pessoas. Números que os sipaios do MPLA contestam:
“Acho que, às vezes, a comunidade internacional empola. Houve uma manipulação desses resultados. Eventualmente fala-se das pessoas que morreram pela UNITA, mas também morreu muita gente pelo lado do governo. A UNITA quando ocupou o Uíge matou muita gente do MPLA e quando ocupou o Huambo, fez o mesmo,” justifica Mário Pinto de Andrade.
Os assassinatos ocorreram após as eleições presidenciais e legislativas de 1992, as primeiras na história do país. Nem o candidato do MPLA, José Eduardo dos Santos (que esteve no Poder durante 38 anos), nem o seu adversário, Jonas Savimbi, da UNITA, conseguiram maioria absoluta nas presidenciais.
Mas a segunda volta nunca se realizou. A guerra civil reacendeu-se com o massacre e prolonga-se até 4 de Abril de 2002. O massacre também dizimou muitos membros dos grupos étnicos Ovimbundu e Bakongo, historicamente tidos como adversários do MPLA.
De facto, como antes, como agora, como no futuro, o MPLA quis neutralizar todos os que pensavam de maneira diferente do regime.
Foi uma tentativa de decapitar a UNITA. Tanto que fala-se em milhares de mortos, eventualmente até em cerca de 50 mil. É certo que também o próprio vice-presidente da UNITA, Jeremias Chitunda, tal como Mango Alicerces (secretário-geral da UNITA) e Elias Salupeto Pena (obrinho do líder do partido, Jonas Savimbi) foram mortos nesse massacre. Na história do MPLA, os massacres, ou as purgas, ou o que se lhe quiser chamar, são uma regra estratégica do regime, mesmo até para os próprios simpatizantes do MPLA que, eventualmente, se atrevam a pensar de forma diferente dos líderes.
O tema, como outros, ainda é tabu em Angola e desconhecido pelas novas gerações, embrutecidas, formatadas e manipuladas pelo MPLA.
Estes massacres, quer o de 27 de Maio de 1977, quer o de 1992, são os mais visíveis pelo número de vítimas, mas o MPLA tem muitas outras histórias porque ao longo da guerra – embora a UNITA obviamente também tenha cometido grandes erros – o MPLA, até pelo poder militar que tinha, massacrou muita gente inocente. A paz e reconciliação em Angola nunca se conseguirá com base na mentira.
Um dia destes o MPLA vai provar que o massacre do Pica-Pau em que, no dia 4 de Junho de 1975, perto de 300 crianças e jovens, na maioria órfãos, foram assassinados e os seus corpos mutilados no Comité de Paz da UNITA em Luanda… foram obra da UNITA.
Como irá provar que o massacre da Ponte do rio Kwanza, em que no dia 12 de Julho de 1975, 700 militantes da UNITA foram barbaramente assassinados, perto do Dondo (Província do Cuanza Norte), perante a passividade das forças militares portuguesas que garantiam a sua protecção, foi obra da UNITA.
Ou de, entre 1978 e 1986, centenas de angolanos terem sido fuzilados publicamente, nas praças e estádios das cidades de Angola, uma prática iniciada no dia 3 de Dezembro de 1978 na Praça da Revolução no Lobito, com o fuzilamento de 5 patriotas e que teve o seu auge a 25 de Agosto de 1980, com o fuzilamento de 15 angolanos no Campo da Revolução em Luanda.
Ou de, em Junho de 1994, quando a Força Aérea bombardeou a Escola de Waku Kungo (Província do Kwanza Sul), tendo morto mais de 150 crianças e professores, bem como entre Janeiro de 1993 e Novembro de 1994 ter bombardeado indiscriminadamente a cidade do Huambo, a Missão Evangélica do Kaluquembe e a Missão Católica do Kuvango, tendo morto mais de 3.000 civis.
É verdade, reconhecemos, que tudo o que de mal se passou, passa ou passará em Angola é sempre culpa da UNITA. Desde logo porque as balas das FALA (Galo Negro) matavam apenas civis e as das FAPLA/FAA (MPLA) só acertavam nos militares inimigos. Além disso, como também é sabido, as bombas lançadas pela Força Aérea do MPLA só atingiam alvos inimigos e nunca estruturas civis.
Como dizia um outro sipaio do MPLA, que para ser director do Pravda do regime (Jornal de Angola) teve de ser operado e passar a ter o cérebro no intestino, de seu nome José Ribeiro, “quem viveu tantos anos sob o regime de Jonas Savimbi e agora prospera à sombra do mundo da mentira elevada ao nível mundial, jamais consegue perceber o sentido da liberdade nem respeitar os direitos dos outros”.
Terá sido, aliás, por influência desta tese de José Ribeiro que o antigo ministro da Defesa de Portugal, João Gomes Cravinho, disse, em entrevista ao jornal português Expresso, que Jonas Savimbi era um “Hitler africano”.

